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Justiça: Defensores dos Uigures acusam gigantes da moda de explorar minoria muçulmana na China

12/04/2021 18h27

O Instituto Uigures da Europa, a associação anticorrupção Sherpa e o coletivo Ethique sur l'étiquette deram entrada em uma queixa no Tribunal de Paris contra vários importantes atores da indústria da moda. Eles acusam as empresas de contribuírem com a exploração da minoria muçulmana em fábricas na China.

O Instituto Uigures da Europa, a associação anticorrupção Sherpa e o coletivo Ethique sur l'étiquette deram entrada em uma queixa no Tribunal de Paris contra vários importantes atores da indústria da moda. Eles acusam as empresas de contribuírem com a exploração da minoria muçulmana em fábricas na China.

A queixa tem como objetivo apresentar oficialmente elementos que confirmem que multinacionais utilizam o trabalho forçado dos uigures para produzir roupas mais baratas. São visados o grupo espanhol Inditex, dono da Zara, o japonês Fast Retailing, proprietário da Uniqlo, e o francês SMCP, sigla por trás de grifes conhecidas na França, como Sandro, Maje e de Fursac, e o fabricantes de calçados esportivos Skechers.

"Essa queixa faz parte das nossas ações para tentar parar com esse genocídio", denunciou Dilnu Reyhan, representante dos Uigures na Europa, durante entrevista coletiva nesta segunda-feira (12) em Paris. "Nós fizemos isso porque a exploração do trabalho forçado dos uigures também é alimentada pela força econômica da China que, por sua vez, é alimentada pela contribuição de grandes marcas internacionais, que aproveitam dessa situação". Segundo ela, as condições de vida precárias da minoria facilitam sua exploração e a geração de uma economia de baixo custo para essas multinacionais, que "também são responsáveis".

Basile Oudet, advogado que acompanha a ação, explica que não se trata de um processo visando diretamente as marcas de moda. "Não estamos atacando essas empresas nos tribunais. Estamos primeiro acionando a justiça para alertar que há elementos preocupantes sobre uma eventual responsabilidade penal que merece ser investigada", explica.

"Mas, concretamente, acusamos as empresas de comercializar bens que foram produzidos total ou parcialmente com trabalho forçado de uigures". A etapa final do processo será mostrar que as marcas não ignoravam a proveniência dos produtos e as condições nas quais eles eram fabricados.

Crime contra a humanidade dentro dos nossos armários

Vários países, entre eles os Estados Unidos, consideram a situação dos uigures um "genocídio". A minoria muçulmana, que representa um pouco mais da metade dos 25 milhões de habitantes da região do Xinjiang, é perseguida por Pequim. ONGs afirmam que mais de um milhão dentre eles estariam detidos em "centros de reeducação política" nos quais são vítimas de tortura e trabalho forçado.

Segundo o deputado europeu Raphaël Glucksmann, que apoia a ação apresentada no Tribunal de Paris, a queixa é uma "etapa crucial". Um dos principais defensores dos uigures na cena política, ele já foi sancionado por Pequim por seu engajamento e insiste que, ao comprar roupas confeccionadas ou tecidos fabricados com algodão cultivado na região onde estão detidos os uigures é como "fazer entrar um crime contra a humanidade em nosso quotidiano".

Algumas marcas de moda tentaram recentemente se manifestar, anunciando que não iriam mais comprar algodão cultivado na região. O anúncio suscitou uma onda de retaliações, como várias grifes boicotadas pelos consumidores chineses.