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Cuba: a aposentadoria de Raul Castro traz uma nova era, mas não muda o sistema

16/04/2021 12h59

É o fim de uma era em Cuba: Raul Castro presidirá pela última vez um congresso do Partido Comunista, que abre esta sexta-feira (16) em Havana. Com 90 anos, o irmão mais novo de Fidel Castro está prestes a se aposentar. Espera-se que o atual presidente Miguel Diaz Canel o suceda. Uma nova geração de líderes cubanos, que não veio da revolução de 1959, está, portanto, tomando lugar central.

É o fim de uma era em Cuba: Raul Castro presidirá pela última vez um congresso do Partido Comunista, que abre esta sexta-feira (16) em Havana. Com 90 anos, o irmão mais novo de Fidel Castro está prestes a se aposentar. Espera-se que o atual presidente Miguel Diaz Canel o suceda. Uma nova geração de líderes cubanos, que não veio da revolução de 1959, está, portanto, tomando lugar central.

Em Havana, neste fim de semana, uma página da história vai ser virada. "A nova equipe [de Miguel Diaz Canel] terá de estabelecer sua legitimidade política e popular junto à população, por um lado, e fazer parte do que se denomina 'a institucionalização da revolução'", nota Stéphane Witkowski, presidente do Conselho de Orientação Estratégica, do Instituto de Estudos Superiores da América Latina, em Paris. 

"A nova geração terá de manter um certo número de valores. Mas, ao mesmo tempo, será necessário atualizar o modelo econômico atual e realizar um certo número de reformas para ir ao encontro das necessidades e aspirações dessa geração mais jovem da população e à qual será necessário dar garantias". 

O cotidiano dos cubanos cada vez mais difícil 

Quando a crise de saúde global causada pelo surto do novo coronavírus atingiu Cuba no primeiro semestre do ano passado, a economia da ilha de Castro já estava enfraquecida. Para um "sistema muito estatal e parcialmente planejado, que importa a maioria de seus produtos alimentícios", o embargo americano e as novas sanções drásticas impostas pelo governo Trump, assim como a crise venezuelana, castigaram ainda mais a economia cubana, explica o economista francês Jérôme Leleu. 

"Cuba começa a sentir o impacto da crise venezuelana a partir do final de 2015", lembra o economista, que destaca que "a situação venezuelana vai questionar a estratégia econômica cubana colocada em prática desde a chegada ao poder de Raul Castro. Em 2014, a Venezuela representava 40% do comércio exterior cubano. Em 2019, essas trocas somavam apenas 17%. Cuba está reorientando seu comércio exterior, em parte, em direção à China e à Espanha. Mas, no início de 2020, Cuba ainda não havia se recuperado da crise venezuelana". 

Quando a crise sanitária global chega à ilha, ela atinge fortemente a já combalida economia cubana. O PIB encolheu 11% em um ano. É a pior crise desde o fim da União Soviética. 

"A crise da Covid está encolhendo os recursos financeiros obtidos com as exportações e o turismo. Esses recursos financeiros a menos fazem com que Cuba importe menos", continua Jérôme Leleu. "E menos importações significa menos insumos, menos combustível para movimentar a economia e a energia. E isso tem impacto na produção nacional, na produção agrícola e na produção de alimentos. É o que vai explicar em parte a escassez que vem como consequência". 

Há mais de um ano, os cubanos mais uma vez passam suas vidas em filas intermináveis em frente a lojas de departamentos vazias. Além da escassez, houve uma forte alta de preços após a reforma monetária iniciada no início deste ano. A alimentação passou a ser a principal preocupação diária. 

Joe Biden ou a frustração dos cubanos 

Os cubanos esperam muito de Joe Biden. Tanto a população quanto o regime de Castro esperam que o presidente democrata relaxe pelo menos parte das 280 sanções impostas por seu antecessor Donald Trump. 

Mas já se passaram três meses sem que o novo governo de Washington fizesse o menor gesto. Para Stéphane Witkowski, agora é improvável que Joe Biden "mude o jogo em relação a Cuba antes das eleições de meio de mandato do próximo ano. O presidente não vai arriscar o apoio estratégico que tem no Congresso em prol da causa cubana, que não é uma questão maior em termos políticos ou econômicos para a Casa Branca". 

Redes sociais: um espaço de liberdade de expressão 

Paralelamente, o contexto social é cada vez mais tenso em Cuba. O regime enfrenta um desafio crescente por parte dos artistas, com o surgimento do Movimento San Isidro, um coletivo de intelectuais e artistas que protesta contra a repressão do Estado em relação à liberdade de expressão. Os jovens também estão surgindo no cenário. A chegada da internet aos telefones celulares em 2018 trouxe grandes mudanças. Os jovens cubanos se mostram muito ativos nas redes sociais, se aproveitando de um espaço propício à liberdade de expressão. 

"Os cubanos que participam desses fóruns estão adquirindo uma cultura política que não possuíam anteriormente", diz Vincent Bloch, pesquisador associado do Centro de Estudos Sociológicos e Políticos Raymond-Aron, em Paris. "Eles estão em pleno aprendizado do que é discutir a validade de novos critérios de justiça, de fazer avaliações. Justamente o que não se pode fazer no âmbito das reuniões impostas pelo Partido Comunista e menos ainda no âmbito do VIII Congresso que, para a grande maioria dos cubanos, é apenas um espaço de diálogo absolutamente ineficaz, onde serão votadas decisões tomadas por um grupo muito reduzido de indivíduos, incluindo Raul Castro".  

No entanto, Vincent Bloch está convencido de que não é o acesso à Internet e às redes sociais ou a retirada do último Castro do aparelho de Estado que vai provocar uma mudança ideológica e política na ilha. "O regime de Castro tem recursos de poder ancorados a longo prazo. E mesmo que os novos líderes políticos incluam mais membros reformistas em suas fileiras, a margem de manobra continua pequena porque o verdadeiro poder em Cuba está em outro lugar. " 

Um sistema bloqueado pelos militares 

"O sistema está bloqueado", insiste o sociólogo. "A longa transição de 2006, quando Fidel Castro se aposentou da vida política, e sua morte em 2016, ajudou a fortalecer a estrutura da elite. Há setores significativos em número que não têm interesse em mudar porque têm acesso à parte produtiva e lucrativa da economia cubana. Essas pessoas pertencem ou estão associadas ao setor militar. O exército também está à frente do sistema de segurança e repressão da ilha, continuando a ter em mãos um poder enorme".