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"Todo branco não é racista por definição", defende ex-presidente francês Nicolas Sarkozy

07/05/2021 17h00

A revista Le Point traz em sua capa desta semana uma longa entrevista com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. O chefe de Estado fala de vários assuntos, mas principalmente sobre o legado histórico da França no continente africano, em um momento em que se debate a possível conivência francesa no genocídio ruandês na década de 1990.

A revista Le Point traz em sua capa desta semana uma longa entrevista com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. O chefe de Estado fala de vários assuntos, mas principalmente sobre o legado histórico da França no continente africano, em um momento em que se debate a possível conivência francesa no genocídio ruandês na década de 1990.

A um ano da eleição presidencial francesa, Nicolas Sarkozy afirma que não participa mais da vida política. Mas não poupa críticas à estratégia europeia na luta contra a pandemia, que ele qualifica de "humilhante", e tece comentários pessimistas sobre a situação atual da França.

"Como muitos de meus patriotas, sinto uma inquietude aumentar sobre o futuro de nossa civilização, do lugar e do papel da França, da nossa democracia profundamente desregulada, do rumo tomado pelos debates na mídia, onde as ideias mais ultrajantes se tornam as únicas ouvidas, e onde o respeito do próximo e da autoridades, que são essenciais para o Estado de direito, sejam vividos algo ultrapassado", lança.

Sem atacar ninguém diretamente, o ex-presidente diz apenas que "a França precisa urgentemente de uma visão ambiciosa". Caso contrario, "temo que nosso futuro seja sombrio", resumo.

Mas a principal parte da longa entrevista trata de Ruanda, país que Sarkozy foi o único presidente francês, desde o genocídio, a visitar enquanto exercia a função de chefe de Estado. Ele diz que, apesar de um certo silêncio, a França não foi cúmplice da "monstruosidade" que aconteceu na nação africana. No entanto, Paris cometeu "erros políticos", inclusive nas altas esferas do poder, diz.

Sarkozy faz alusão à decisão francesa de continuar apoiando o presidente hutu Juvenal Habyarimana, mesmo quando as intenções genocidas do chefe de Estado já eram claras, em 1994. Para o ex-presidente francês, mesmo 27 anos após o massacre deixou mais de 800.000 mortos, a maioria membros da etnia tutsi, é "indispensável" que a França reconheça a sua responsabilidade nesse episódio da história.

No entanto, Sarkozy insiste que mesmo se Paris de uma certa maneira fechou os olhos para o que acontecia em Ruanda, não se pode dizer que a França tenha sido cúmplice do genocídio, que o ex-presidente apresenta claramente como "um projeto racista".

Napoleão deve ser celebrado

Sarkozy aproveitou a entrevista, publicada na semana do bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, para defender as comemorações da data, apesar das vozes discordantes, que incitavam o boicote ao evento em razão do papel do herói histórico no reestabelecimento da escravidão na França. O ex-presidente disse que o aniversário deve ser comemorado e que os grandes personagens da história do país devem ser admirados, "olhando para a grandeza deles, mas também para sua parte de sombra".

Ao ser questionado sobre os debates contemporâneos sobre a questão da raça, com a cultura norte-americana do "woke" que se populariza no mundo, Sarkozy é categórico: "é preciso acabar como essa apresentação falsa e louca de que o branco seria, por definição, racista. E também de que ele deveria pagar por isso durante várias gerações", diz o ex-presidente.

"O racismo é um câncer dentro do homem, que ele seja branco ou negro", completou, lembrando que o massacre de Ruanda era um projeto no qual ambos os lados eram negros africanos e que o Holocausto foi a exterminação de judeus brancos por nazistas fascinados pela raça ariana. "Caricaturar o racismo afirmando que ele é a prerrogativa de uma cor [ndlr: de pele] ou de uma civilização é uma mentira", conclui.