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Argentina vai pedir ajuda à França para evitar moratória com o Clube de Paris

11/05/2021 17h52

O presidente argentino Alberto Fernández terá com o presidente francês Emmanuel Macron a mais importante reunião da sua viagem à Europa. A Argentina vai pedir ajuda para não entrar em moratória no final do mês. O Alberto Fernández que Emmanuel Macron encontrará nesta quarta-feira (12), um ano depois da visita anterior a Paris, caiu de mais de 70% de aprovação para cerca de 35% na Argentina.

O presidente argentino Alberto Fernández terá com o presidente francês Emmanuel Macron a mais importante reunião da sua viagem à Europa. A Argentina vai pedir ajuda para não entrar em moratória no final do mês. O Alberto Fernández que Emmanuel Macron encontrará nesta quarta-feira (12), um ano depois da visita anterior a Paris, caiu de mais de 70% de aprovação para cerca de 35% na Argentina.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Na terceira escala de uma viagem à Europa para obter apoio político nas negociações com o Fundo Monetário Internacional, o presidente argentino, Alberto Fernández, terá uma reunião seguida de um almoço no Palácio do Eliseu. No cardápio, o principal objetivo da viagem: o pedido de apoio político na pretensão argentina de adiar um vencimento no final de maio de US$ 2,4 bilhões com o Clube de Paris.

O Clube de Paris, instituição informal para ajudar países em dificuldades econômicas, condiciona qualquer refinanciamento a um acordo financeiro prévio entre a Argentina e o FMI, mas o governo argentino não pretende fechar nenhum acordo antes das eleições legislativas de novembro.

Um acordo com o FMI implicaria ajuste nas contas fiscais em ano eleitoral. Para o governo argentino essa combinação significa o risco de perder as eleições. O cronograma com o qual a Argentina trabalha pretende adiar um acordo formal para o ano que vem.

"A prioridade são as eleições e não o FMI, mesmo que isso represente o risco de instabilidade financeira. Não é um plano econômico. É um plano eleitoral. É uma lógica política; não econômica", sintetizou à RFI a economista Marina Dal Poggetto, diretora da consultora Eco Go.

A parcela da dívida com o Clube de Paris que vence no final deste mês poderia ser adiada em até dois meses, dentro de um prazo previsto de atraso, sem que signifique formalmente uma moratória da dívida. Mesmo assim, os planos argentinos são para um horizonte maior, tendo em vista as eleições, mas argumentando, oficialmente, as dificuldades provocadas pela pandemia.

Sem acesso ao crédito e sem reservas líquidas no Banco Central e com uma economia que encolheu 10% em 2020, a Argentina tem, além do vencimento com o Clube de Paris, outros dois vencimentos com o próprio FMI, em setembro e em dezembro, por US$ 1,9 bilhão cada. Sem um acordo prévio, o país rumaria a mais um default da dívida.

Apesar do risco, Marina Dal Poggetto vê a possibilidade de algum acordo "light" com o FMI, organismo ao qual também não lhe convém que a Argentina entre em moratória. "O mais provável é que se chegue a algum acordo com o FMI que permita refinanciar os vencimentos de curto prazo e que evite um novo default", aposta a economista.

Em meados de 2018, a Argentina fechou o maior acordo financeiro da história do FMI por US$ 55 bilhões, dos quais foram desembolsados US$ 44 bilhões. O FMI se diz pronto para negociar, mas a Argentina ainda não propôs um plano econômico integral e sustentável.

Há três semanas, o ministro argentina da Economia, Martín Guzmán, reuniu-se com o presidente do Clube de Paris, Emmanuel Moulin, para pedir tempo. A resposta técnica foi um condicionante a um acordo com o FMI. Alberto Fernández tentará agora pelo lado político com Emmanuel Macron com quem mantém uma boa relação pessoal.

"O que Alberto Fernández pode fazer na Europa é evitar o 'default' com o Clube de Paris, chegando a algum entendimento para adiar o vencimento até algum um acordo final com o FMI. A intenção é conseguir poder prescindir de um acordo com o FMI até depois das eleições e evitar formalmente o que seria um default com o Clube de Paris", indica o economista Roberto Cachanosky.

Entre os sócios do Clube de Paris estão os principais países do G7, também principais sócios do FMI. O Alberto Fernández que Emmanuel Macron verá é bem distante daquele com quem se reuniu em fevereiro de 2020 também no Palácio do Eliseu, quando Fernández pedia apoio político para renegociar a dívida com os credores privados.

As pesquisas indicam que, em abril de 2020, com quatro meses de governo, Alberto Fernández chegou a ter mais de 70% de aprovação; hoje, não passa de 35%. Segundo a consultora Giacobbe & Asociados, por exemplo, a imagem positiva de Alberto Fernández chegava a 67,8% há um ano; agora está em 26,9%.

"É um vertiginoso processo de desilusão", definiu à RFI o analista político Jorge Giacobbe, autor do estudo. "E esses 26,9% de apoio não são do presidente; são da vice. Vão apoiar Alberto Fernández enquanto ele for uma ferramenta de Cristina Kirchner", explica Giacobbe.

Almoço com empresários franceses

Antes de se reunir com o presidente Emmanuel Macron, Alberto Fernández terá um encontro com empresários franceses, pela manhã, na Embaixada argentina em Paris. depois do almoço de trabalho com Macron, Fernández partirá à Roma na quarta e última escala de uma viagem iniciada no domingo por Portugal e por Espanha, respectivamente.

Tanto em Lisboa na segunda-feira (10) quanto em Madri nesta terça-feira (11), Alberto Fernández colheu apoios políticos nas negociações com o FMI do primeiro-ministro português, António Costa, e do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Esse apoio implica pedir ao Fundo Monetário que deixe de cobrar a taxa extra aos empréstimos que superem a parcela às quais cada país tem direito como sócio do FMI. Essa redução implicaria cerca de US$ 950 milhões a menos na dívida da Argentina.

"Trabalhamos para que o FMI reveja o mecanismo de sobretaxas que prejudica as possibilidades econômicas e financeiras da Argentina", expressou o espanhol Pedro Sánchez. "Tentaremos sensibilizar o FMI a que, pelo menos durante esta crise, possa suspender a cobrança dessa taxa extra

Na quinta-feira, em Roma, o presidente argentino terá uma reunião com o Papa Francisco no Vaticano. Será o primeiro contato entre os dois desde que Alberto Fernández foi um ativo impulsor da legalização do aborto na Argentina aprovada em dezembro pelo Congresso.

No Vaticano, Alberto Fernández provavelmente se reúna com a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, quem estará na Santa Sede para um seminário internacional. "Talvez possamos nos ver", admitiu Fernández nesta terça-feira no Palácio da Moncloa, em Madri.

Ainda em Roma, o presidente argentino verá o presidente da Itália, Sergio Mattarella, e o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi. A Argentina quer modificar algumas condições do FMI. Quer poder usar a ampliação dos Direitos Especiais de Giro (DEG), a moeda do FMI, para poder repagar os vencimentos da dívida.

O FMI vai ampliar a quantidade de DEG a que os seus sócios têm direito. A Argentina receberia o equivalente a cerca de US$  3,5 bilhões de dólares que não estavam previstos.

Mas a Argentina quer também que os países ricos aceitem ceder os seus DEG extras em benefício dos países emergentes e pobres.