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Vacinas podem ir para o lixo na África devido ao ceticismo da população

África do Sul é epicentro da pandemia no continente - MARCO LONGARI / AFP
África do Sul é epicentro da pandemia no continente Imagem: MARCO LONGARI / AFP

13/05/2021 10h15

Países africanos se esforçam para ter acesso às vacinas contra o coronavírus, mas não basta conseguir as doses necessárias para imunizar a população. Entre os grandes obstáculos do continente para a vacinação, está o ceticismo de parte da população em relação aos imunizantes que podem ir para o lixo.

Alegando motivos religiosos, o sul-africano Andrew Slabbert disse que não vai se vacinar contra o coronavírus. "Acho que isso faz parte de uma agenda, um plano. Não sei exatamente de quem, mas governos estão sendo influenciados", disse o webdesigner de 23 anos que contraiu o vírus em outubro do ano passado e se tratou com chás, vitamina C. O jovem também tomou por conta própria paracetamol, medicamento receitado por médicos no país para o tratamento dos infectados.

Assim como parte da população, ele acha que não houve tempo suficiente para se testar os imunizantes disponíveis e, principalmente, identificar possíveis efeitos colaterais nos vacinados. "Acredito que estamos vivendo o fim dos tempos. Além do mais, eu não quero injetar muita química no meu corpo", disse, ressaltando que há muito tempo outras doenças deixam anualmente um alto número de mortos, sem que se declare pandemia por conta disso e nem há ainda vacinas contra elas.

Pelo continente africano, também há quem suspeite das vacinas contra a covid pelo fato de cientistas não terem desenvolvido até hoje imunizantes contra malária e HIV, por exemplo. Só em 2019, houve 229 milhões de casos de malária no mundo, sendo que 409 mil dos infectados morreram naquele ano. Mais de 90% dos casos e das mortes foram em países africanos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

África do Sul, epicentro da covid no continente

Uma das duas tias maternas do jovem sul-africano Andrew Slabbert morreu em agosto. Ela foi uma das cerca de 55 mil vítimas da covid-19 na África do Sul, país com mais casos confirmados no continente africano (cerca de 1,6 milhão) até agora. Mesmo que 95% dos infectados tenham se recuperado, o governo afirmou nesta quarta-feira (12) que está em alerta por causa do preocupante aumento de casos diários desde o fim de abril, o que reforça a tendência de uma iminente terceira onda de contaminações. De acordo com o último balanço divulgado pelas autoridades, até esta quarta-feira quase 431 mil profissionais de saúde tinham sido vacinados na África do Sul. O número representa menos de 1% da população.

Segundo a OMS, a África do Sul está entre os 10 países africanos que vêm registrando um aumento diário de casos confirmados de covid-19. O esforço na região é para que a quantidade de vacinas aplicadas também cresça, o mais rápido possível.

Cerca de 50 países africanos começaram a aplicar vacinas contra o coronavírus. Esta semana foi a vez de Madagascar, que recebeu 250 mil doses da Covishield/AstraZeneca através da COVAX, iniciativa liderada pela OMS, envolvendo mais de 150 países, criada para impulsionar o desenvolvimento e a distribuição das doses. Mas não basta ter o imunizante. É preciso convencer a população a se vacinar espontaneamente, já que as atuais posições dos africanos em torno do assunto vão da relutância à recusa.

Boatos sobre infertilidade a morte

O Chefe de Comunicação para o Desenvolvimento da UNICEF Awa Ouattara Guedegbe disse à RFI que em março deste ano o Ministério da Saúde de Madagascar, com o apoio de parceiros como UNICEF e OMS, realizou um estudo no país por meio de uma empresa de consultoria sobre o tema. "A análise dos dados mostrou que cerca de 70% dos entrevistados concordariam em ser vacinados contra a Covid-19", revelou.

UNICEF e OMS lançaram uma campanha de comunicação em grande escala no país para informar a população sobre a eficácia do imunizante. "A vacina protege contra uma forma grave da doença e gradualmente a vida voltará ao normal", disse Awa Ouattara Guedegbe.

A relutância de parte dos quase 1,3 bilhão de africanos acaba sendo reforçada por boatos que associam as vacinas à possibilidade de infertilidade e morte, passando pela teoria conspiratória de que chips controladores serão inseridos no corpo de quem receber as doses. A dificuldade de se quebrar a patente das vacinas, concentrando o poder de fabricação nas mãos de poucos, só aumenta essa desconfiança.

Vacinas perdendo validade

O Sudão do Sul interrompeu a aplicação de um lote de cerca de 60 mil doses da AstraZeneca por acreditar que não conseguiria aplicar as vacinas antes que o prazo de validade expirasse. A notícia de que o Maláui também descartaria cerca de 16 mil doses da mesma vacina chamou atenção no continente onde países encontram dificuldades para comprar os imunizantes. Boatos de que doses vencidas poderiam estar sendo distribuídas têm feito muita gente não procurar os locais de vacinação em algumas regiões do continente. Alguns dizem que preferem esperar para ver se os primeiros vacinados não terão, mesmo, efeitos colaterais.

Mais de 1 milhão de doses recebidas pela República Democrática do Congo através da COVAX devem ser enviadas para outros países até junho por conta da data de validade, já que poucas pessoas no segundo maior país do continente têm demonstrado interesse em se imunizar.

Brasileiro reclama de falta de campanha de informação

O brasileiro Flávio Saudade mora na cidade de Goma desde 2016. Para ele parece que parte da população não acredita na gravidade do vírus e, com isso, prefere não se vacinar. "Nas ruas eles falam que não acreditam, que isso é coisa de branco e congolês não pega a covid. Por outro lado, existe pouca informação sobre as vacinas. Particularmente, eu ainda não vi aqui uma grande campanha de sensibilização voltada para a população", disse. Aos 43 anos, ele é coordenador de um programa da organização sem fins lucrativos "Gingando pela Paz", que ensina capoeira a crianças em situação de rua e também em processo de reintegração social.

No ano passado o tio dele faleceu por causa da doença. Flávio também foi infectado ao chegar ao Brasil para visitar a família. Recuperado, disse que não vê a hora de poder se vacinar.

"É a possibilidade que temos de nos proteger e proteger aqueles que amamos. Só estou aguardando minha oportunidade para tomar a vacina. E acho que vou conseguir isso aqui na República Democrática do Congo muito antes do que (se estivesse) no Brasil", finalizou.

Desconfiança da vacina chinesa no Zimbábue

No Zimbábue, a justificativa de parte da população para não se vacinar é a origem dos primeiros imunizantes adquiridos pelo país: a China. O governo chinês doou 200 mil doses ao país, assim como fez com outras nações africanas. Mas a razão alegada pela coordenadora de controle de doping Kefilwe Mocwagole, nascida no Zimbábue, é outra. "Eu não gosto de vacinas e não é uma garantia de que (mesmo vacinado) você não pegará a covid-19", disse.

A relutância sobre os imunizantes ainda é um desafio a ser vencido pelas autoridades. É uma sensação que toma conta de africanos de diferentes países, idades, raças, crenças e níveis de escolaridade. "Países e empresas farmacêuticas estão competindo por razões nacionalistas ou econômicas para produzir vacinas em um curto espaço de tempo e para mim essa situação não é ideal para criar vacinas seguras", justificou, além de também demonstrar preocupação com possíveis efeitos colaterais.

O acadêmico mora atualmente na África do Sul, mas parte da família dele vive no Senegal. "Quem está no Senegal pensa como eu, porque a covid não está muito preocupante lá. As pessoas estão vivendo normalmente. Falei com a minha família e eles disseram que a vida está normal no Senegal", contou.

Ele também tem parentes vivendo na França e diz que o nível de preocupação na família varia de acordo com a idade e o local onde vivem. "Para os que estão morando na França é diferente por causa da situação da covid na Europa. Os mais velhos, meus tios, acham que é importante se vacinar, mas meus primos não pensam em tomar as vacinas, porque os jovens não foram impactados por uma alta taxa de mortalidade em todo o mundo."

O Marrocos aplicou a maior quantidade de vacinas na África: mais de 10 milhões. Com isso, cerca de 16% da população receberam pelo menos uma dose até agora. Proporcionalmente, Seicheles se destaca por ter imunizado aproximadamente 70% dos seus cerca de 100 mil habitantes. Pesquisadores sul-africanos também vêm trabalhando no desenvolvimento de uma vacina própria.

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