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Pedido de prisão para Keiko Fujimori aumenta tensão na reta final da apuração no Peru

10/06/2021 17h36

Um promotor anticorrupção pediu, nesta quinta-feira (10), a prisão preventiva da candidata de direita Keiko Fujimori, o que aumentou ainda mais a tensão no Peru sobre a definição da eleição presidencial de domingo (6), liderada pelo professor de esquerda Pedro Castillo. 

Um promotor anticorrupção pediu, nesta quinta-feira (10), a prisão preventiva da candidata de direita Keiko Fujimori, o que aumentou ainda mais a tensão no Peru sobre a definição da eleição presidencial de domingo (6), liderada pelo professor de esquerda Pedro Castillo. 

O promotor José Domingo Pérez pediu à Quarta Vara de Combate ao Crime Organizado "que seja revogado o comparecimento com restrições (liberdade condicional) e seja emitida a prisão preventiva contra a candidata Keiko Fujimori Higuchi", alegando que ela se reuniu indevidamente com uma testemunha do caso Odebrecht. Keiko conseguiu se candidatar apesar de ser investigada por receber supostamente dinheiro ilegal da construtora brasileira para suas campanhas de 2011 e 2016, acusações que ela nega.

A candidata, que deve ir a julgamento neste caso se não conquistar a presidência, participou de entrevista coletiva na quarta-feira (9) acompanhada pelo político fujimorista Miguel Ángel Torres, testemunha do caso Odebrecht. Ao lado de Torres, ela pediu ao Júri Eleitoral Nacional (JNE) para anular os resultados de 802 seções de votação - que envolvem cerca de 200 mil votos -, por suspeita de irregularidades.

O pedido do promotor aumentou ainda mais a tensão no país. Quatro dias após o segundo turno, o resultado da eleição presidencial continua em aberto.

Keiko denunciou na segunda-feira "indícios de fraude". Na quarta, ela pediu a anulação dos 200 mil votos, acentuando um clima de total incerteza em um país que atravessa turbulência política há cinco anos. O Peru chegou a ter três presidentes em cinco dias, em novembro do ano passado.

 "Dá a sensação de que ela quer questionar todo o processo eleitoral. Essa incerteza, seja quem vencer, vai afetar muito o clima nacional", disse o analista Hugo Otero.

Questionamentos com 99,1% da apuração concluída

Os pedidos de recontagem ainda podem ser analisados durante dez dias no JNE. O último balanço divulgado pelo órgão eleitoral, com 99,1% das urnas contabilizadas, estabeleceu que Castillo obteve 50,2% dos votos, contra 49,7% para Keiko. O resultado acirrado mantém a disputa em aberto, e aumenta o nervosismo no mercado. A Bolsa de Valores de Lima tem registrado quedas, enquanto o dólar atingiu a cotação recorde de 3,9 soles.

Castillo agora tem uma vantagem de 72 mil votos, o que o levou a enviar mensagens em tom de vitória. Mas se o JNE concordar com Fujimori, essa tendência pode mudar.

"Keiko alega [como se fosse uma fraude] que existem seções de voto em Cusco que têm 90% dos votos para Castillo, mas ela não diz que em La Molina [um distrito de Lima] existem mesas que têm 90% para ela", afirmou Otero.

Na votação de 2016, o banqueiro Pedro Pablo Kuczynski derrotou a filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori por apenas 41 mil votos (50,12% contra 49,88%), e a atual disputa também deve ser definida por uma margem semelhante. 

Presidente de júri eleitoral se diz surpreso

Keiko "tem o direito" de solicitar uma recontagem, mas "temos certeza que o júri terá que descartar as razões", disse o parlamentar de esquerda Roberto Sánchez ao canal N. nesta quinta-feira. O presidente do júri, Jorge Luis Salas, manifestou surpresa com o pedido de Keiko de anulação de 802 mesas e lembrou que em 2016 "só houve reclamações contra 29 mesas".

O órgão eleitoral (ONPE) nega a possibilidade de fraude, assim como a Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que qualificou o processo como normal e transparente. O ONPE organiza a votação, mas o JNE analisa o resultado e proclama o vencedor. Ambos os órgãos públicos são autônomos.

"Perdemos", diz Bolsonaro

Castillo, professor de uma escola rural de Cajamarca (norte), recebeu os cumprimentos do ex-presidente boliviano Evo Morales por sua "vitória" na quarta-feira. No Brasil, Jair Bolsonaro declarou que apenas um "milagre" impediria o professor de esquerda de ser o novo dirigente peruano.

"Perdemos agora o Peru. Voltou, ao que tudo indica, falta 1% de apuração lá, só um milagre para reverter, vai reassumir um cara do Foro de São Paulo", afirmou Bolsonaro em evento evangélico no interior de Goiás, no qual criticou outros governos de esquerda na região.

Hoje, o argentino Alberto Fernández foi o primeiro presidente a cumprimentar oficialmente Castillo como chefe de Estado eleito do Peru, apesar de ainda estar pendente sua proclamação.

"Hoje (quinta-feira) me comuniquei com @PedroCastilloTe, presidente eleito do Peru. Expressei-lhe meu desejo de que unamos esforços a favor da América Latina. Somos nações profundamente irmanadas. Celebro que o querido povo peruano enfrente o futuro na democracia e com solidez institucional", escreveu no Twitter Fernández, peronista de centro-esquerda.

Os simpatizantes de ambos os candidatos fizeram manifestações na quarta-feira em Lima. O segundo turno presidencial expôs mais uma vez não só a divisão política no país, mas também o fosso entre os eleitores da capital e o "Peru profundo", marcado por fortes desigualdades. O país foi duramente atingido pela recessão econômica causada pela pandemia.

Com informações da AFP