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Tripla exposição de fotografias na França destaca o 'matrimônio', a herança cultural feminina

18/06/2021 14h11

Matrimônio não como casamento, mas como sinônimo de patrimônio, isto é, como herança. Uma tripla exposição de fotografias organizada pela Universidade de Clermont-Auvergne, em parceria com instituições de ensino superior do Haiti e Antilhas, e atualmente em cartaz em Clermont Ferrand, no centro da França, revela o legado artístico e cultural feminino de África, Caribe e Américas.

Matrimônio não como casamento, mas como sinônimo de patrimônio, isto é, como herança. Uma tripla exposição de fotografias organizada pela Universidade de Clermont-Auvergne, em parceria com instituições de ensino superior do Haiti e Antilhas, e atualmente em cartaz em Clermont Ferrand, no centro da França, revela o legado artístico e cultural feminino de África, Caribe e Américas.

As mostras "Mulheres da África do Sul", "Herança de Mulheres Mapuche" e "Matrimônio afro-americano-caribenho" são os primeiros resultados de um programa de pesquisa e cooperação cientifica pluridisciplinar e internacional. O projeto começou em 2019 e envolve mais de 100 pessoas, entre professores, pesquisadores e alunos, da Universidade de Clermont Auvergne/Centro de Pesquisa sobre literaturas e sociopoéticas (Celis), a Escola Superior de Infotrônica do Haiti (ESIH)e a Universidade das Antilhas.

Ele visa contribuir para a constituição, análise e promoção do matrimônio [corruptela de patrimônio] cultural dessas regiões e para a transmissão desse legado na cena contemporânea. O objetivo final é criar uma plataforma digital reunindo exposições com realidade aumentada, entrevistas de artistas, criações e trabalhos científicos.

"Matrimônio é uma palavra que foi esquecida e recentemente reabilitada para revelar a herança de mulheres silenciadas durante vários séculos. Há um ressurgimento da palavra na língua francesa e das iniciativas, que são cada dia mais numerosas, visando uma maior igualdade entre homens e mulheres, em particular no meio cultural e artístico", explica Stéphanie Urdician, da Universidade de Clermont Auvergne.

"Na língua portuguesa e espanhola, sempre temos de passar por uma perífrase, falar que matrimônio é patrimônio no feminino, para distinguir do sentido que a palavra historicamente recebeu", completa Daniel Rodrigues, diretor do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Clermont e um dos coordenadores do programa.

Pesquisa e criação artística

A exposição "Matrimônio afro-americano-caribenho" integra o projeto de pesquisa-criação "Legado e transmissão artística e cultural feminino". Ela reúne retratos de várias artistas. "A exposição, com fotografias da alemã Anja Beutler, com realidade aumentada e digital, traça o perfil de artistas do Haiti, da Colômbia, da Martinica e da Guadalupe, artistas das artes cênicas, escritoras e dramaturgas da região caribenha. No nosso programa, já temos 20 artistas completamente catalogadas, mas outras estão chegando", detalha Daniel Rodrigues.

A mostra "Pilquen, Herança de Mulheres Mapuche" é resultado de um trabalho de estudantes do master de Estudos Interculturais franco-espanhol de Clermont sobre as indígenas do Chile, coordenado por Stéphanie Urdician.

"Nesse projeto cultural as estudantes recuperaram imagens de arquivos em museus chilenos sobre as tecelãs mapuches. A exposição conta a história da transmissão da arte têxtil entre as gerações de mulheres mapuches. Essas imagens de arquivos são comparadas a fotografias atuais para mostrar essa herança, e propor um diálogo entre passado e o presente em torno desse tema do matrimônio indígena", explica.

Assia Mohssine coordendou a mostra "Mulheres da África do Sul: os estragos da colonização e da descolonização", que enfoca o dinamismo de moradoras de favelas da cidade do Cabo.

"A exposição mostra imagens de uma fotografa francesa amadora Raphaële Parello. Ela ressalta a diferença entre a cidade branca e uma township do Cabo, e as consequências da colonização e da descolonização. Ela valoriza principalmente as formas de solidariedade, internas e externas, e destaca o papel das mulheres da África do Sul nesses projetos sociais", resume Assia Mohssine.

Conceição Evaristo

Nenhuma brasileira está presente nesta tripla exposição, mas o programa sobre a herança cultural feminina tem um projeto com o Brasil.

"Um projeto que está em curso com o Brasil trata da obra da escritora brasileira Conceição Evaristo, realizado junto com Izabella Borges, que é a tradutora da última coletânea de contos de Conceição publicada na França. Pouco a pouco, estamos introduzindo todo o continente americano para poder realmente analisar esses processos de transmissão de uma cultura feminina muitas vezes invisibilizada, muitas vezes esquecidas ou pouco valorizadas, e que essas mulheres tanto valorizam em suas obras", indica Daniel Rodrigues.

As mostras "Matrimônio afro-americano-caribenho", "Mulheres da África do Sul" e "Herança de Mulheres Mapuche" ficam em cartaz em Clermont-Ferrand até 24 de setembro, mas podem também ser vistas a distância na plataforma matrimoine.art.