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Vacinação: uma história de desconfiança que existe há mais de 200 anos na França

25/07/2021 15h36

No Facebook, diversos internautas franceses adornam sua foto de perfil com um banner que diz "Não ao passaporte sanitário, não à vacina, continuo livre". Desde o início da campanha da vacinação contra a Covid-19 na França, diversos apelos à desconfiança, ou mesmo ao boicote, floresceram nas redes sociais francesas, e mesmo na boca de alguns cientistas. Embora esteja particularmente visível neste momento, a desconfiança vacinal no país de Pasteur está longe de ser uma história nova.

No Facebook, diversos internautas franceses adornam sua foto de perfil com um banner que diz "Não ao passaporte sanitário, não à vacina, continuo livre". Desde o início da campanha da vacinação contra a Covid-19 na França, diversos apelos à desconfiança, ou mesmo ao boicote, floresceram nas redes sociais francesas, e mesmo na boca de alguns cientistas. Embora esteja particularmente visível neste momento, a desconfiança vacinal no país de Pasteur está longe de ser uma história nova.

A primeira resistência à vacinação na França remonta à invenção da própria vacina, explica Patrick Zylberman, professor emérito de história da saúde da EHESP. Os principais motivos de oposição não foram médicos, mas teológicos. "A primeira vacinação não foi, de fato, nada muito científico: em maio de 1796, um médico rural inglês, Edward Jenner, descobriu que era possível prevenir a varíola inoculando uma doença relacionada, mas benigna, a "vacina das vacas". O processo é rudimentar: Jenner tira o pus dos animais infectados e coloca numa incisão que faz na pessoa a ser imunizada.

Vacinação, um gesto "artificial" que perverte "a ordem da natureza"

Historicamente, se o método se mostrava eficaz, ele rapidamente suscitava protestos. Para alguns religiosos, proteger-se desta forma de uma doença equivalia a desprezar a Providência divina e a se colocar "acima de Deus". Para outros, a mistura de fluidos entre animais e humanos contradiz o equilíbrio do corpo e o enfraquece. Pior, era "um ato artificial e imoral" que perverte "a ordem da natureza".

"Essa tipologia de argumentos pode ser encontrada até os dias atuais", analisa Françoise Salvadori, professora de imunologia da Universidade da Borgonha e coautora com Paul-Henri Vignaud do livro "Antivax, resistência à vacina do século XVIII aos dias de hoje". "Nenhuma das principais religiões do mundo se opõe às vacinas, mas as correntes minoritárias dentro delas continuam a bani-las", argumenta.

No verão de 2019, o risco de uma epidemia de sarampo em Nova York era tal que o prefeito da cidade, Bill de Blasio, restabelece a exigência de vacinação para forçar as comunidades judaicas ortodoxas a vacinarem seus filhos contra a doença altamente contagiosa. Em junho de 2021, vacinadores da pólio foram assassinados no Afeganistão por homens armados. Os fundamentalistas protestantes na Holanda se recusam a injetar "doenças" em um corpo saudável. Um argumento também tratado pelo movimento da Nova Era ou que defende a "medicina natural".

Por que se cuidar sem estar doente?

Na verdade, por que deveríamos nos tratar se não estamos doentes? "Com a vacinação, a apreensão do risco costuma ser tendenciosa", diz Françoise Salvadori. "É contra-intuitivo se tratar de uma doença que você não tem. Mas essa rejeição é baseada em um mal-entendido sobre prevenção: minimiza-se o risco de contrair a doença em um futuro distante e exagera-se o risco de ter efeitos colaterais indesejáveis ??em um futuro próximo. A vacinação também é um mecanismo de prevenção coletiva, além do individual, o que complica ainda mais a questão", diz.

Mas essas correntes antivacinas, mesmo se constantes, permanecem em minoria. No entanto, elas se tornam mais importantes quando a vacinação se torna obrigatória. A rejeição, portanto, tem um significado mais amplo e diretamente político. É o caso das últimas semanas na França, onde os manifestantes protestam após o estabelecimentodo passaporte sanitário de Emmanuel Macron, que condiciona o acesso a determinados locais públicos a uma vacinação, ou à apresentação de um teste negativo para Covid-19.

Protestos massivos na Inglaterra

No século 19, a Inglaterra, um dos primeiros países a tornar obrigatória a vacinação contra a varíola, também enfrentou protestos massivos. Cem mil pessoas se reuniram em Leicester em 1885 para exigir a revogação da lei. "Os ingleses se manifestaram em nome de suas liberdades individuais, em nome do habeas corpus", explica Anne-Marie Moulin, filósofa e médica do CNRS.

"A resistência foi tanta que a Inglaterra finalmente retirou a obrigação em 1904 e nunca mais a restabeleceu. Esse tipo de oposição, mais ligada à obrigação do que à vacina, na minha opinião é mais uma questão de filosofia política do que de ciência. Mas as razões para recusar a vacinação são sempre complexas e múltiplas", avalia Moulin.

A rejeição, portanto, se alimenta de uma perda de confiança nas instituições políticas e de saúde, mas os temores flutuam de país para país, à medida que surgem crises de saúde reais ou imaginárias.

Na cidade alemã de Lübeck, em 1930, 70 crianças morreram após serem vacinadas contra a tuberculose. O escândalo é terrível e as causas confusas: suspeita-se de problemas na conservação do imunizante, porque a vacina BCG nunca havia causado esse tipo de tragédia.

Estudo falso

Mas mesmo que esse evento tenha sido real, muitos temores em torno da vacinação não têm base científica. Na França, há muito se suspeita que o alumínio usado como adjuvante na vacina contra hepatite B causa esclerose múltipla, embora nenhum estudo tenha comprovado sua toxicidade.

Na Inglaterra, há um estudo publicado na The Lancet em 1998 que afirma que a vacina MMR, contra sarampo, caxumba e rubéola, torna as pessoas autistas. Após polêmica, descobriu-se que seu autor, o cirurgião Andrew Wakefield, alterou conscientemente os números e os registros médicos de seus pacientes. Falso, o estudo foi retirado, mas o boato persiste.

Pasteur, "químico das finanças"

Vozes discordantes sempre foram ouvidas entre os próprios cientistas. Desde a época de Louis Pasteur, no final do século 19, alguns de seus colegas se opuseram frontalmente à vacina anti-rábica. Pasteur é acusado de charlatanismo e é suspeito de criar as doenças para vender melhor suas vacinas.

O jornalista Henri Rochefort apresenta-o assim como um "químico das finanças". Uma suspeita que ecoa a desconfiança da "Big Pharma", uma teoria da conspiração segundo a qual as empresas farmacêuticas se organizam para obter ganhos financeiros e apesar do bem comum.

"É claro que a vacinação joga com interesse financeiros reais", admite Françoise Salvadori. "Mas é preciso lembrar que, por enquanto, as vacinas correspondem a 20%, em média, do faturamento da indústria farmacêutica. E embora a França tenha experimentado vários escândalos de saúde importantes, como o caso do sangue contaminado ou do Mediator, nenhum deles estava relacionado a uma vacina, que continua sendo a droga mais controlada e monitorada de todas", conclui.