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Maria Emilia Alencar: uma carreira entre França e Brasil, que se mistura com a história da RFI

26/07/2021 17h31

A jornalista Maria Emilia Alencar deixa a Rádio França Internacional após 38 anos. Atual editora-chefe do serviço brasileiro, que praticamente viu nascer no início dos anos 1980, ela relembra alguns momentos de sua carreira e da sua história com a RFI Brasil.

A jornalista Maria Emilia Alencar deixa a Rádio França Internacional após 38 anos. Atual editora-chefe do serviço brasileiro, que praticamente viu nascer no início dos anos 1980, ela relembra alguns momentos de sua carreira e da sua história com a RFI Brasil.

Maria Emilia Alencar começou a trabalhar na Rádio França Internacional em 1983, no recém-criado serviço brasileiro da emissora estatal. "Foi Ramón Chao, pai do cantor Manu Chao e que dirigia o serviço, quem me contratou. O Brasil era uma micro redação dentro da redação América Latina", se lembra a carioca, que iniciou a carreira no Jornal do Commercio, antes de se mudar para a França graças a uma bolsa do extinto programa Journalistes en Europe, um dispositivo financiado pela então Comunidade Econômica Europeia, que possibilitou a formação de muitos repórteres internacionais. "Para mim, o Rio era muito pequeno e eu queria conhecer o mundo", conta.

"Eu não tinha experiência em rádio. O que mais me impressionou foram os belos estúdios", se lembra a jornalista sobre seus primeiros passos na RFI. "A gente entrava ao vivo, para ondas curtas, da Maison de la Radio, que era gigantesca, com cinco rádios estatais, em um lugar muito emblemático, em frente da Torre Eiffel", conta, em referência ao prédio que acolheu a redação até 2013.

Dessa época ela se recorda do cuidado com a realização das reportagens, antes da internet e das facilidades de edição de conteúdos sonoros, e que mobilizavam equipes e horas de trabalho. "Tinha sempre um diretor, uma pessoa que fazia ilustração... A gente ficava muito tempo preparando programas de dez minutos, mas muito elaborados. Por exemplo, se eu ia falar de Jean Genet, passava uma semana ouvindo os arquivos", relata. "Mas isso tudo foi mudando. A hard news se tornou indispensável, com todas as plataformas [digitais]. Com isso tudo a gente não tinha mais tempo para preparar programas de dez minutos".

Coberturas internacionais

Durante esses 38 anos de RFI, Maria Emilia passou mais de 25 como repórter e viu a transformação da profissão, mas também do mundo, por meio das coberturas que a permitiram acompanhar de perto alguns momentos importantes da história. Como em 1985, quando ela foi enviada para cobrir a posse do primeiro presidente civil do Brasil, após mais de duas décadas de ditadura.

"Eu cheguei em Brasília e fui com alguns amigos para um botequim, onde ficamos tomando uma cervejinha esperando o dia seguinte, que ia ser o grande dia. Nesse momento chegou a notícia que que Tancredo Neves estava doente e começou a correria", conta. "Eu fiquei dez dias cobrindo isso, mas chegou uma hora que a rádio me disse para voltar, pois ninguém sabia o que iria acontecer. Quando eu peguei o avião, ele morreu! Fiquei sabendo que ele morreu apenas quando cheguei em Paris. Então não pude cobrir a morte do Tancredo Neves", se lembra, com a pontinha de frustração típica do repórter que gostaria de ter registrado um momento importante.

Desde então, foram inúmeras as coberturas marcantes, entre temas de geopolítica, como as negociações da OMC que ela seguiu durante anos, grandes cúpulas internacionais, como o Fórum Econômico Mundial de Davos, reportagens culturais, cobrindo cinema em Cannes ou Biarritz, teatro em Avignon e arte contemporânea pelo mundo.

Redescobrindo o Brasil

Mas durante sua carreira, alguns momentos marcaram mais que outros. Como em 2008, quando acompanhou a eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ou, em 2000, quando realizou uma série de reportagens sobre os 500 anos do Brasil. "Foi a minha descoberta do Brasil", avalia. "A gente toma distância vindo morar no exterior. E nesse momento eu resgatei o que existia no país em termos de movimentos negros. Apesar de tudo o que acontece no Brasil, eu acho que a sociedade civil tem uma garra incrível, e isso eu descobri nessas viagens".

Talvez por essa razão, quando se tornou editora-chefe do serviço brasileiro, em 2009, ela prezou pela diversidade dos assuntos tratados, mas também dentro da redação, defendendo a diversidade de vozes, de personalidades, de sotaques e de tendências políticas.

Assista o vídeo da entrevista completa clicando na foto acima.