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Líbano: jornais franceses descrevem clima de desesperança um ano após explosão em Beiture

04/08/2021 09h46

Um ano de imprudência, destruição, abandono, impunidade. Um ano de luto. Os jornais franceses desta quarta-feira (4) lembram a explosão no porto de Beirute, que deixou 214 mortos e mais de 6,5 mil feridos. O jornal Le Monde descreve como, entre reconstruções esparsas e persistentes pilhas de entulho, os bairros afetados pela tragédia lutam para se recuperar e seus habitantes se sentem traídos pelo Estado.

Um ano de imprudência, destruição, abandono, impunidade. Um ano de luto. Os jornais franceses desta quarta-feira (4) lembram a explosão no porto de Beirute, que deixou 214 mortos e mais de 6,5 mil feridos. O jornal Le Monde descreve como, entre reconstruções esparsas e persistentes pilhas de entulho, os bairros afetados pela tragédia lutam para se recuperar e seus habitantes se sentem traídos pelo Estado.

Em algumas semanas, a confeitaria Attié Frères, em Gemmayzé, um dos bairros de Beirute mais afetados pela explosão, reabrirá suas portas. Deixada em ruínas após a explosão, esta instituição familiar foi quase totalmente renovada, conta o correspondente Benjamin Barthe.

O projeto foi liderado pela ONG libanesa Baytna Baytak, uma das muitas organizações da sociedade civil que, nas semanas e meses que se seguiram ao desastre, compensou a quase total ausência do Estado, paralisado pela dupla crise - econômica e política - que atinge o país dos cedros.

Em 12 meses, graças ao financiamento da diáspora libanesa e da Fundação Francesa de Arquitetos de Emergência, a ONG realizou mais de mil operações de reconstrução nos setores que fazem fronteira com o porto.

O diário francês adverte que, no entanto, é difícil ter uma visão geral deste trabalho. Nem as Nações Unidas nem o exército libanês, que é responsável por supervisionar o esforço de reconstrução, têm estatísticas recentes e precisas.

Noite às escuras

A matéria descreve que o eixo formado pela rua Gouraud e rua d'Arménie, que há um ano parecia uma zona de guerra, ganhou cor. Mas o lugar, que abrigava as noites de Beirute, está longe de ter voltado ao seu brilho anterior.

O bartender Ahmed Mansour, entrevistado pelo Le Monde, conta que "Os clientes vão voltando aos poucos, mas vêm para beber e esquecer. Esquecer que o salário deles não vale mais nada, esquecer que a poupança está bloqueada e que não podem viajar".

A taxa de câmbio do mercado negro entre a libra libanesa e o dólar, que pairava em torno de 9.000 libras por dólar em agosto de 2020, está agora se aproximando da marca de 20.000 libras, um sinal do colapso contínuo da moeda nacional.

E quando a noite cai, vêm os cortes de energia, outro estigma da crise libanesa. Só os bares que possuem gerador e suprimento de óleo combustível trazem um pouco de luz e vida a esse ambiente sombrio.

Reconstruída por mulheres

Por outro lado, o caos após a explosão impulsionou a ONG Warch(ée), fundada três anos antes pela arquiteta Anastasia Elrouss. A organização se dedica a integrar mulheres à indústria da construção.

As 40 libanesas que a organização treina em marcenaria, com o apoio da Fundação Francesa de Arquitetos de Emergência, viram-se inundadas de encomendas. "Durante a noite, tivemos que reconstruir Beirute, quando os sírios, a força de trabalho tradicional da construção, não quiseram mais trabalhar, devido à desvalorização da libra. Foi a chance do agora ou nunca para impor as mulheres neste setor", testemunha Anastasia.

Alguns prédios refeitos, no entanto, não traduzem nem um pouco algum sentimento de renascimento para os libaneses, como sintetizam os comerciantes Pamela e Georges Chemali, do bairro Mar Mikhaël, um dos mais atingidos pela tragédia: "Consertamos as casas, mas não consertamos as pessoas. Estamos todos quebrados por dentro. Dormi seis anos com toneladas de explosivos debaixo do travesseiro. É como se tivéssemos sido traídos por nossa terra natal. É uma sensação tóxica", lamenta o casal.