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Cristina Kirchner impõe seus ministros e faz de Alberto Fernández um presidente sem autoridade

18/09/2021 07h37

Durou 72 horas a resistência do presidente argentino, Alberto Fernández, ao avanço da vice-presidente, Cristina Kirchner. Numa exibição de poder, Kirchner obrigou Fernández a substituir quatro ministros e um secretário de Estado, além de manter nos seus cargos os ministros, secretários e diretores que tinham renunciado. A crise interna parece superada, mas a institucional deixa um presidente enfraquecido e com a governabilidade abalada. 

Durou 72 horas a resistência do presidente argentino, Alberto Fernández, ao avanço da vice-presidente, Cristina Kirchner. Numa exibição de poder, Kirchner obrigou Fernández a substituir quatro ministros e um secretário de Estado, além de manter nos seus cargos os ministros, secretários e diretores que tinham renunciado. A crise interna parece superada, mas a institucional deixa um presidente enfraquecido e com a governabilidade abalada.
 

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

A crise institucional na Argentina, que pôs o governo do presidente Alberto Fernández em xeque, passa a uma nova fase na qual a vice-presidente, Cristina Kirchner, assume virtualmente o poder. Depois de afirmar que "a gestão do governo continuaria do modo que ele considerasse conveniente", o presidente cedeu à sua vice quatro ministros (Segurança, Ciência e Tecnologia, Agricultura e a Chefia do Gabinete) e um secretário (Comunicações). Do outro lado, das 11 renúncias de ministros, secretários e diretores que respondem a Cristina Kirchner, dez mantêm-se no cargo e um foi substituído por outro, mas também ligado à vice.

Além de ocupar quase todo o gabinete de ministros, os quatro ministros que a vice impôs ao presidente foram ministros durante o período em que Cristina Kirchner governou o país (2007-2015), fazendo do governo de Alberto Fernández um túnel do tempo a um passado, embora Kirchner tenha sido derrotada nas urnas.

"Cristina Kirchner fez de Alberto Fernández um presidente que mendiga poder. Os graves problemas da Argentina exigem um presidente com liderança, mas Alberto perdeu autoridade. Quando ele der uma ordem a um ministro, esse ministro precisará saber se Cristina está de acordo. Por isso, ninguém queria integrar um governo desgovernado. Precisaram recorrer a figuras do passado, figuras que fracassaram", explica à RFI o analista político Nelson Castro.

"Cristina Kirchner ocupou o governo com uma atitude destituinte e transformou o presidente numa mera figura decorativa", sintetiza à RFI o candidato a senador Luis Juez, um dos líderes da oposição e vitorioso nas eleições primárias de domingo passado (12).

Um dos cargos ocupados por Cristina Kirchner é a Chefia do Gabinete de Ministros, um lugar estratégico para coordenar todo o ministério. O ministro das Relações Exteriores também foi substituído. O anúncio aconteceu quando o agora ex-chanceler, Felipe Solá, estava a caminho do México para a Cúpula dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC). O novo gabinete assume na segunda-feira (20). "Isso mostra como o país não tem uma política externa e como a agenda internacional é irrelevante para o governo", critica Juez.

"Ficou claro que Alberto Fernández cedeu e que perdeu todo resto de autoridade que tinha. Como fará o presidente dos argentinos para representar o país no exterior se internamente não tem nenhuma autoridade? A confiança da opinião pública dificilmente será restituída", avalia o analista político e consultor em Opinião Pública Jorge Giacobbe.

"Ficou claro quem manda, mas continua a dúvida para onde o país vai. Temos um presidente que não manda mais, porém não está claro o rumo do governo", acrescenta o analista político Lucas Romero.

Crise institucional

A crise institucional que dilapidou a autoridade presidencial e que ameaça a governabilidade do país começou quando, na terça-feira (14), a vice-presidente ordenou que vários ministros, secretários e diretores de organismos públicos renunciassem como forma de pressionar o presidente a fazer uma reforma ministerial. O objetivo era levar a uma política econômica expansionista para aumentar o gasto público - uma injeção de dinheiro para reativar a economia na reta final da campanha eleitoral.

As 11 renúncias provocaram um vácuo de poder. Alberto Fernández preferia adiar mudanças nos ministérios para depois das eleições legislativas de 14 de novembro, fundamentais para os planos políticos de Cristina Kirchner de controlar o Congresso.

A necessidade de dar sinais de mudança é consequência da contundente derrota nas eleições primárias de domingo passado. A magnitude da derrota, além de enterrar as chances de controlar o Parlamento, traduz-se numa reprovação da gestão do presidente Alberto Fernández, na metade do seu mandato.

As eleições primárias na Argentina são um caso raro no mundo: funcionam como uma pré-eleição. São abertas e obrigatórias a toda a população. O voto vai àquele que o eleitor gostaria de ver como candidato, mas o resultado revela em quem o eleitor votará nas eleições gerais. Assim, o resultado tende a ser irreversível.

Desespero por poder

A vice-presidente considera que só mudanças significativas podem permitir ao governo reverter a dura derrota eleitoral no último domingo. Cristina Kirchner precisa controlar o Congresso como forma de aprovar uma polêmica reforma judiciária que lhe permita livrar-se dos processos que responde por corrupção.

"Esse é o desespero de Cristina Kirchner. Ela percebe que não terá o controle sobre a Câmara de Deputados e que vai perder a maioria que possui no Senado. Ela precisa do poder total para impor a reforma judiciária que lhe garanta impunidade. Ela percebe que o seu plano de se salvar dos processos judiciais ficou difícil e que também o futuro do 'kirchnerismo' corre perigo", indica Nelson Castro.

Para impor a sua vontade, Cristina Kirchner pôs em xeque a autoridade de Alberto Fernández, cuja popularidade não supera os 25%. "Não sou eu quem põe o presidente em xeque, mas o resultado eleitoral", alegou Cristina Kirchner numa carta aberta, publicada na quinta-feira (16).

O governo prepara um pacote de medidas para injetar dinheiro na economia através de aumento no salário mínimo, nas aposentadorias e nos planos de assistência social.

Devido à falta de recursos financeiros, as verbas viriam de mais emissão monetária sem respaldo, alimentando uma inflação anual que acumula 51,4%, impõe uma desvalorização de 200% ao peso argentino nos últimos de 18 meses e faz a pobreza abranger 45% da população.