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A "guerra" dos submarinos, suas dúvidas e certezas

20/09/2021 06h11

O confronto diplomático envolvendo França, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália em torno da aquisição de submarinos por parte deste último país lançou uma série de dúvidas e de certezas no cenário geopolítico mundial.

O confronto diplomático envolvendo França, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália em torno da aquisição de submarinos por parte deste último país lançou uma série de dúvidas e de certezas no cenário geopolítico mundial.

Flávio Aguiar, analista político

As dúvidas começam pelo montante do estrago financeiro. A Austrália tinha um contrato com a França, agora rompido, para a construção de 12 submarinos ditos "convencionais", movidos a diesel e eletricidade. Algumas fontes falam que a ruptura deixa um rombo de US$ 66 bilhões; para outras, o prejuízo sobe a US$ 90 bilhões. No entanto, há uma certeza nisto: haverá outros prejuízos pela ruptura de contratos colaterais com fornecedores. Quem pagará por eles, o governo francês, o australiano, ou ambos?

Outra dúvida: por que razão o governo australiano trocou os 12 submarinos convencionais pelos nucleares, que serão oito? Do ponto de vista militar, ambos têm vantagens e desvantagens.

Os submarinos nucleares podem permanecer submersos quase indefinidamente, dependendo da resistência física e psicológica da tripulação. Além disso, não necessitam de recarga durante 30 anos. Os convencionais precisam subir regularmente à superfície para recarregar o montante de oxigênio que sua operação exige, o que os torna mais vulneráveis. Em compensação, quando submersos, operam com eletricidade, o que os torna mais silenciosos do que os nucleares.

Uma experiência da Marinha indiana colocou em disputa um submarino nuclear e outro convencional: qual deles detectaria primeiro o "adversário"?. O convencional ganhou, localizando primeiro o outro em seu sonar. Os convencionais são menores do que os nucleares; podem, portanto, operar em águas mais rasas ou até se refugiar em estuários e rios. Esta pergunta, pela razão da troca, deixa outras na sua esteira: de quem partiu a iniciativa?

Segundo algumas fontes, a iniciativa teria partido do governo australiano, que consultou primeiro o britânico, e depois o norte-americano. Porém as mesmas fontes reconhecem que a troca faz parte da nova política de contenção da China por parte dos Estados Unidos, preocupados em manter uma superioridade naval nos oceanos Índico e Pacífico. Ou seja, não se pode descartar a hipótese de que o sentido tenha sido o inverso, começando em Washington, passando por Londres e chegando a Camberra.

Outra dúvida: por que Estados Unidos, Reino Unido e Austrália literalmente esnobaram a França, mantendo-a não só na ignorância das negociações, mas na crença de que seu contrato era válido, até a bombástica revelação pública da troca de submarinos? Será a França um parceiro "menos confiável" no pacto do OTAN? Será a União Europeia como um todo também um parceiro "menos confiável"? Qual o papel nisso da própria China, cuja relação comercial com países europeus vem crescendo significativamente? Em 2020 a China foi a terceira maior importadora de bens da União Europeia (10,5%), e a primeira maior exportadora de bens para a UE (22,4%).

Longa negociação e falta de transparência

Outra cadeia de dúvidas e certezas é aberta pelo tempo da negociação secreta deste acordo que ganhou o nome de "Pacto Aukus" (um acrônimo para Austrália, United Kingdom, United States). Há um consenso entre diferentes fontes de que as negociações duraram pelo menos 18 meses. Ou seja, elas teriam começado ainda no governo de Donald Trump nos Estados Unidos e continuado sob o de Joe Biden. Segue-se a dúvida sobre o quanto os mandatários dos respectivos países sabiam destas negociações quando elas começaram. E a certeza de que, em matéria de política externa, as decisões vem sendo tomadas em bastidores nada transparentes, transformando os chefes de Estado mais em seus porta-vozes do que seus gestores.

E abre-se um novo mar de dúvidas: como ficará a relação entre os países protagonistas do drama? E com os coadjuvantes, como os demais da União Europeia, da OTAN, para não falar da chamada "Comunidade dos Cinco Olhos", formada por Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, mais Canadá e Nova Zelândia, que supostamente compartilham as informações de seus serviços secretos?

A situação é grave a tal ponto que a França  chamou "para consultas" seus embaixadores em Washington e Camberra, o que, na linguagem diplomática, está a um passo do congelamento das relações ou mesmo da ruptura.

Na semana que se inicia haverá novidades, a começar pelo encontro das autoridades de Washington e Paris em Nova York, por ocasião da abertura da Assembleia Geral da ONU.