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Coreógrafo Marcelo Evelin defende "o lugar da arte como possibilidade de gerar um mundo mais inclusivo"

22/09/2021 13h37

Marcelo Evelin é um dos grandes nomes da dança contemporânea brasileira. Ele apresenta até esta quarta-feira (22) o solo "Ai, Ai, Ai" no Festival de Outono de Paris. O coreógrafo, bailarino e performer insiste na importância do "lugar da arte como possibilidade de "gerar pensamento para um novo mundo, um mundo melhor, mais inclusivo", principalmente no Brasil de hoje.  

Marcelo Evelin é um dos grandes nomes da dança contemporânea brasileira. Ele apresenta até esta quarta-feira (22) o solo "Ai, Ai, Ai" no Festival de Outono de Paris. O coreógrafo, bailarino e performer insiste na importância do "lugar da arte como possibilidade de "gerar pensamento para um novo mundo, um mundo melhor, mais inclusivo", principalmente no Brasil de hoje.  

O solo "A, Ai, Ai", em cartaz no Festival Échelle Humaine da Fondation Lafayette Anticipations, integra a programação especial em homenagem à coreografa brasileira Lia Rodrigues do Festival de Outono de Paris, que acontece neste momento. Marcelo Evelin é um dos 10 artistas brasileiros convidados por Lia Rodrigues a participar do evento. Para ele, a escolha é representativa da produção contemporânea brasileira.

"Tem um pouco de tudo. A Lia foi muito feliz nessa escolha. Eu achei um gesto muito generoso, muito bonito de dividir ao invés de estar só mostrando o que ela faz. Está todo mundo muito consciente da força de estar no palco nesse momento, do momento político no Brasil e de como a gente deve continuar através da nossa arte, do nosso trabalho, propondo um outro mundo", acredita o coreógrafo.

O solo "Ai, Ai, Ai" é um espetáculo inaugural da carreira de Marcelo Evelin. A obra autobiográfica foi criada nos anos 1990 em Nova York e é retomada agora de maneira idêntica, com o mesmo cenário, figurinos e imagens realizadas em super 8 pelo cineasta Karim Aïnouz. O título ambíguo remete a Carmem Miranda, à imagem exótica do Brasil, e ao lamento do então jovem bailarino exilado.

Dançar e atuar no espetáculo 26 anos depois é uma dupla confrontação com o passado. "É engraçado porque esse solo foi feito muito a partir das minhas memorias de infância e de adolescência. Agora, eu retomo não só a memória de infância, mas a memória do tempo que eu criei. Eu fico muito feliz de poder revisitar, de poder apresentar esse solo num contexto mais histórico porque na verdade me mostra que as coisas não envelhecem muito. A gente muda, se transforma, mas as coisas continuam um pouco na essência do que elas são", filosofa.

Questão de gênero

Marcelo Evelin, Ai, Ai, Ai | Echelle Humaine 2021 from Lafayette Anticipations on Vimeo.

O solo "Ai, Ai, Ai" já levantava há quase 30 anos a questão de gênero, que é hoje tão atual. "Era importante para mim. Eu estava em Nova York com todo esse movimento Drag Queen, com o movimento gay que estava acontecendo ali mais forte. É verdade que hoje em dia isso está mais na moda e se fala mais disso, mas na época era uma coisa muito pouco falada, muito pouco discutida", lembra Marcelo.

Ele avalia que a geração dele abriu espaço para a questão de gênero, mas ainda há muito o que fazer. "A gente vem lutando desde os anos 1980. Acho que evoluiu muito (...) Mas eu acho que a gente tem ainda que trabalhar muito para entender isso não só como uma questão política, mas também como uma questão pessoal, humana. A gente tem que se aceitar dessa maneira."

O solo "Ai, Ai, Ai" foi também é o ponto de partida da plataforma de criação de dança Demolition Incorporada que Marcelo Evelin criou nesta época. Com a iniciativa, ele fez uma ponte entre Teresina, sua terra natal, e o mundo. "Eu não queria ter uma companhia, pensei desde o início em trabalhar com colaboração. Foi realmente o início de uma maneira de trabalhar, mais aberta, mais livre e, acho, mais inclusiva tentando trazer mais o mundo e o outro para dentro do trabalho."

Trabalho político e coletivo

Os espetáculos passaram a ser coletivos e o trabalho ampliando para a esfera social e política. "Faz 14 anos que voltei a trabalhar no Brasil. Escolhi Teresina porque é a minha cidade mas também porque é um lugar muito abandonado, quase desprezado, mesmo dentro do Brasil. Eu comecei a entender essa precariedade como uma maneira de me situar no mundo, de me posicionar. Usar essa precariedade como uma alavanca para o meu trabalho. A gente agora está num outro momento, politicamente o Brasil está passando por um processo difícil, político sobretudo, e acho importante a gente insistir nesse lugar da arte como possibilidade de gerar pensamento para um novo mundo, um mundo melhor. Eu espero que em breve a gente possa ter de novo um Brasil mais aberto, mais inclusivo, mais feliz, mais igual para todo mundo, porque nesse momento está bem difícil."

Marcelo Evelin divide a vida entre Amsterdã, onde dá aulas na Escola Mime, o Brasil e outras capitais internacionais onde se apresenta com frequência. Ele tem mais de 30 peças em seu repertório e em novembro e dezembro volta a se apresentar na França, em Rennes e Paris, com um novo espetáculo "La nuit tombe quando elle veut", em parceria com a franco-marroquina Latifa Laâbissi, e o músico brasileiro Tom Monteiro.