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Crise dos submarinos: Le Figaro revela os bastidores da "traição do século"

22/09/2021 11h31

O jornal Le Figaro revela nesta quarta-feira (22) detalhes sobre "um dos maiores golpes diplomáticos já aplicados contra a França", referindo-se à criação do novo pacto estratégico entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos na região do Indo-Pacífico (Aukus).

O jornal Le Figaro revela nesta quarta-feira (22) detalhes sobre "um dos maiores golpes diplomáticos já aplicados contra a França", referindo-se à criação do novo pacto estratégico entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos na região do Indo-Pacífico (Aukus).

"Nem nos tempos de espiões como John le Carré e Ian Flemming, o criador de James Bond, os franceses teriam imaginado tal cenário. Por outro lado, eles poderiam ter encontrado um título para o chamado caso dos 'submarinos australianos': a traição do século", diz o diário francês.

Os detalhes da ruptura por Camberra de um contrato de fornecimento de 12 submarinos convencionais franceses, movidos a diesel e eletricidade, assinado em 2016, justificam a "quebra de confiança" evocada por Paris em relação aos Estados Unidos e à Austrália. Esse incidente deve deixar marcas por muito tempo, especialmente em relação à Austrália. Iss o explicaria o grau de revolta das principais autoridades francesas, algo nunca visto  entre aliados.

Em três atos denominados "a conspiração", "o recrutamento de Boris Johnson" e "a finalização", Le Figaro confirma que a articulação da "traição do século" partiu do primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, também conhecido pelo pseudônimo de "ScoMo".

Primeiro ato

Em março de 2020, Morrison começou a discutir com três assessores a possibilidade de seu governo quebrar um tabu no país e se dotar de submarinos de propulsão nuclear. O grupo era composto pelo chefe do Estado-maior do Exército, Angus Campbell, pelo secretário de Defesa, Greg Moriarty, e pelo almirante Michael Noonan, chefe do Estado-maior da Marinha. Naquele momento da "conspiração", os americanos não tinham informações sobre as intenções de Morrison. 

Segundo ato

O recrutamento do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, constitui o segundo ato do dito "golpe nos franceses". O almirante Noonan abordou seus colegas britânicos para sondá-los sobre a possibilidade de adquirir submarinos nucleares americanos, considerados mais rápidos e duradouros, para substituir o modelo Barracuda francês.

"Johnson decide se envolver pessoalmente em um projeto que pode oferecer ao Brexit uma saída na região do Indo-Pacífico", escreve o Le Figaro. O Reino Unido passa a fazer o papel de "acelerador" das intenções australianas. Nesse ponto da operação, os americanos ainda não estão na história.

Terceiro ato

A cena do crime do terceiro ato, segundo o jornal francês, foi o encontro do G7 organizado na Cornualha, de 11 a 13 de junho de 2021. Nos bastidores, "BoJo", "Sleepy Joe" -  apelido que Donald Trump deu ao rival democrata - e "ScoMo" tramam a "traição do século" contra a França. Câmeras e jornalistas são mantidos afastados dos líderes.

"Reunidos à margem da cúpula, três oficiais anglo-saxões discutiram um pacto secreto, a aliança de segurança e defesa Aukus, uma nova parceria entre os três países. Os americanos são abordados por australianos e britânicos sobre a possibilidade de compartilhar seus submarinos nucleares. Tudo debaixo do nariz do presidente francês. Do lado americano, o segredo será dividido apenas por uma pequena equipe, cujo núcleo está na Casa Branca", conta Le Figaro

Dissimulação

Durante um ano e meio, até o anúncio da quebra do contrato com o grupo francês Naval Group, na última quarta-feira (15), o governo australiano fez tudo o que esteve ao seu alcance para esconder as negociações que mantinha com Londres e Washington das autoridades francesas. "A Austrália não era um aliado qualquer. Foi de uma de suas bases militares que Macron lançou, em 2018, a estratégia francesa no Indo-Pacífico", diz ao Le Figaro uma fonte familiarizada com o assunto. 

Depois do G7, Macron conversou com Morrison em 15 de junho, em Paris. O primeiro-ministro australiano evocou preocupações com o risco ambiental que o contrato francês representava para a região, mas não menciona nenhuma alternativa. No dia seguinte, o chanceler Jean-Yves Le Drian e a ministra das Forças Armadas, Florence Parly, alertaram Macron sobre rumores que sinalizavam um interesse da Austrália pela propulsão nuclear.

De acordo com uma fonte muito próxima ao assunto, descreve o Le Figaro, naquele momento os franceses teriam oferececido aos australianos uma reavaliação do contrato inicial e a abertura de discussões sobre a tecnologia de propulsão nuclear. Mas não houve resposta. Os australianos teriam mentido por omissão. 

Em 25 de junho, dez dias após a visita de Morrison a Paris, o secretário de Estado dos EUA disse durante um encontro em que estavam presentes Macron e Le Drian que o contrato de submarinos com a Austrália era visto em Washington como "uma peça central do engajamento francês na região do Indo-Pacífico". Nunca foram mencionadas as discussões com os australianos. Porém, uma semana antes do anúncio oficial do rompimento do acordo, os franceses observam com preocupação uma visita dos ministros da Defesa e de Relações Exteriores da Austrália a Washington.

Os respectivos ministros franceses, Florence Parly e Jean-Yves Le Drian, questionam seus colegas americanos sobre essa visita. Mas Anthony Blinken e Lloyd Austin, secretário de Defesa dos EUA, não respondem de imediato. Em 30 de agosto, os ministros de Defesa e de Relações Exteriores australianos reafirmam a importância do programa de construção dos 12 submarinos convencionais com seus colegas franceses.

Falsidade escancarada

O cinismo foi mantido até o último minuto. No mesmo dia em que anunciariam a ruptura do contrato com os franceses, os australianos enviaram uma carta a Paris dizendo que tudo estava bem com o programa de submarinos convencionais. 

Esse acúmulo de mentiras levou Le Drian, um ministro mais conhecido pela moderação, a acusar a Austrália e os Estados Unidos de falsidade e dissimulação. Quanto ao Reino Unido, a "quinta roda da carroça", como diz o chanceler francês, "deu uma nova prova de seu oportunismo permanente". Mas a ducha de água fria ficou mesmo para os franceses, conclui Le Figaro.