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"Muro da vergonha" construído em Paris exclui dependentes químicos e suburbanos

27/09/2021 10h58

Um "muro" construído para isolar usuários de crack que foram transferidos de Paris para uma cidade vizinha, na periferia da capital, provoca críticas nesta segunda-feira (27) de vários setores. O jornal Le Monde relata que não demorou dois dias para que a parede dupla ficasse coberta de pichações, principalmente do lado parisiense.

Um "muro" construído para isolar usuários de crack que foram transferidos de Paris para uma cidade vizinha, na periferia da capital, provoca críticas nesta segunda-feira (27) de vários setores. O jornal Le Monde relata que não demorou dois dias para que a parede dupla ficasse coberta de pichações, principalmente do lado parisiense.

Na face do "muro" do lado do subúrbio de Pantin, um anônimo escreveu com tinta verde nos blocos de concreto recém-montados: "O muro da vergonha. Obrigado Darmanin", em referência ao ministro do Interior, Gérald Darmanin.

A parede, construída em caráter de urgência pela polícia na última sexta-feira (24), bloqueou o túnel que permitia uma passagem entre o 19º distrito da capital e o subúrbio de Pantin, ao norte de Paris, e oferecia abrigo a alguns moradores de rua.

No entanto, há três dias, moradores do subúrbio dão depoimentos indignados sobre a transferência dos dependentes. Eles se mostram ofendidos que a saída encontrada pelas autoridades para solucionar as reclamações dos parisienses, incomodados com os problemas criados pelos usuários da droga na capital, tenha sido enviá-los à periferia. 

"Penso que existe um erro cometido pelo ministro do Interior", declarou o prefeito socialista de Pantin, Bertrand Kern, ao portal de notícias France Info. O prefeito afirma ter "medo pela segurança" dos 12 mil habitantes de sua cidade e teme uma "reação violenta de parte da população" diante dos dependentes químicos.

"Este muro da vergonha é uma mensagem terrível enviada aos subúrbios", avalia Geoffrey Carvalhinho, que integra a Câmara Municipal de Pantin, entrevistado pelo Le Monde. "De um lado, a cidade rica, do outro lado, os proletários. Este é o simbolismo", declarou indignado. A parede também é inútil, ele acrescenta: "Na verdade, não te impede de ir de Pantin a Paris", bastando caminhar mais dois minutos para contornar a nova barreira imposta pela polícia. No local, na manhã deste domingo (26), alguns usuários de crack já estreavam o novo trajeto.

O prefeito de Pantin lembra que essa situação exige uma abordagem social e médica, não apenas de segurança pública. "Eu fui conversar com alguns moradores do bairro e também com consumidores de crack. É desolador ver o estado dessas pessoas, uma tragédia humana de cortar o coração", disse o socialista.

Três décadas de errância

Mas onde instalar os usuários de crack, essa "droga dos pobres", derivada da cocaína e muito viciante?, questiona o jornal Le Monde. Há 30 anos que "o único mercado organizado de crack na França metropolitana prospera em Paris e nos municípios vizinhos de Seine-Saint-Denis, como indica o último estudo do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica da França (Inserm), publicado em janeiro deste ano.

"Trinta anos desde que viciados em drogas e seus fornecedores, principalmente do Senegal, têm sido regularmente transferidos pelas autoridades públicas de um lugar para outro, permanecendo em um pequeno triângulo no nordeste da capital", enfatiza o Le Monde.

"Colina do crack"

Depois da "colina do crack", um terreno baldio perto da Porte de la Chapelle, ao norte de Paris, extinto em 2019, os usuários passaram a perambular por ruas adjacentes à praça de Stalingrad, no 19° distrito. Quando o atrito se tornou muito forte com os moradores locais, a prefeitura de Paris e o Estado transferiram esse mercado ao ar livre para um parque público chamado Jardins d'Éole, em maio. No mês seguinte, quando os novos vizinhos não aguentaram mais, a prefeita de Paris desalojou os dependentes do local, mas sem dar uma solução definitiva. Até que o município pediu ao Estado que os retirasse mais uma vez daquela área. Foi o que ocorreu na sexta-feira, gerando a construção do polêmico muro.

Para a polícia, o novo local ocupado pelos dependentes químicos tem uma grande vantagem: não há moradores muito próximos. Desde sexta-feira, um acampamento de uma centena de usuários de crack foi reconstituído. Eles compram seus alimentos, fumam, conversam e dormem ali. Algumas cabanas improvisadas apareceram. A prefeitura instalou mictórios, banheiros e latas de lixo. E associações trazem um pouco de comida.