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"Somos responsáveis pelos crimes de transfobia porque permitimos que eles aconteçam", diz cineasta Madiano Mrcheti

28/09/2021 15h08

Da Austrália à Turquia, "Madalena", o primeiro longa do mato-grossense Madiano Marcheti, vem arrancando elogios em todos os festivais de cinema por onde passa. Em um cativante thriller que trata simultaneamente da banalização da transfobia e da devastação causada pelo agronegócio, o cineasta deixa à mostra algumas das mais atuais feridas da sociedade brasileira. O filme concorre na categoria de ficção na 30ª edição do Festival Biarritz América Latina, no sudoeste da França.

Da Austrália à Turquia, "Madalena", o primeiro longa do mato-grossense Madiano Marcheti, vem arrancando elogios em todos os festivais de cinema por onde passa. Em um cativante thriller que trata simultaneamente da banalização da transfobia e da devastação causada pelo agronegócio, o cineasta deixa à mostra algumas das mais atuais feridas da sociedade brasileira. O filme concorre na categoria de ficção na 30ª edição do Festival Biarritz América Latina, no sudoeste da França.

Daniella Franco, enviada especial da RFI a Biarritz

Madalena é a personagem principal do longa de Madiano Marcheti, mas ela está, desde os primeiros minutos do filme, ausente. Assassinada, seu cadáver jaz em um campo de soja do Mato Grosso, enquanto a vida ao redor não parece ser afetada pela tragédia.

Os detalhes sobre a vida de Madalena - uma mulher trans que vive em uma cidade cuja existência gira em torno do agronegócio - é descoberta pelo espectador através de três outros personagens sem nenhuma relação entre si. Porém, todos eles conhecem a vítima e parecem ter a resposta para um tipo de crime que se tornou tragicamente banal no Brasil.

Em entrevista à RFI, Madiano conta que a trama, escrita com outros quatro roteiristas (Thiago Gallego, Tiago Coelho, Thiago Ortman e Tiago Rios) tinha o objetivo de incitar desconforto no público. "Você sabe desde o início que uma pessoa trans morreu, foi assassinada, e você termina o filme sem saber muita coisa. Porque de uma certa forma, o filme não está buscando identificar o criminoso em si. O objetivo é mostrar como esse crime reverbera naquele lugar e na sociedade", diz.

Como na vida real, o misterioso assassinato de Madalena tem repercussões distintas: da tristeza e o luto das amigas à indiferença de conhecidos, passando pela culpabilização de um provável parceiro amoroso, que teme que o caso venha à tona e possa incriminá-lo. Espelho da violência transfóbica no Brasil, muitas das perguntas em torno do desaparecimento da vítima ficarão sem respostas, gerando o sentimento de revolta, mas também de resignação em alguns, desdém e até alívio em outros.

"O filme questiona como nós, como sociedade, permitimos que isso aconteça, e isso continua acontecendo. Então, o espectador fica em uma posição desconfortável porque não sabe o que houve com Madalena e fica imaginando hipóteses para as quais não vai ter as respostas. Tudo isso nos leva a refletir sobre o nosso papel diante os crimes de transfobia no Brasil", avalia Madiano.

Desconstrução do preconceito 

Outro objetivo de Madiano era "perturbar a representação" que a sociedade brasileira tem das pessoas trans. "Historicamente, elas são representadas na televisão ou no cinema de uma maneira ridicularizada ou marginalizada, sendo relacionadas à prostituição ou usadas como motivo de chacota. Eu queria fugir disso", conta.

De fato, no filme, as personagens trans são despidas de todo o tipo de generalização. A amiga mais próxima de Madalena, Bianca (brilhantemente interpretada por Pamella Yulle), é trabalhadora, rigorosa, honesta, romântica e planeja o casamento com um homem heterossexual. Francine (Mariane Cáceres) é imatura, inconsequente, espontânea, sensível. Uma tentativa de Madiano de "normalizar o universo trans".

"Muitas pessoas que veem o filme acabam tendo essa visão de que Madalena era uma prostituta e no filme não há nenhuma informação sobre isso. Na verdade isso é um reflexo de como a sociedade acaba estigmatizando e colocando as pessoas trans em um lugar que é falso. O mundo trans é muito diverso e às vezes muito próximo do universo cisgênero", ressalta.

Se para o próprio cineasta, como cisgênero, tratar da transexualidade foi desafiador, ele aborda com familiaridade a temática do agronegócio na região Centro-Oeste. Natural de Sinop, onde a família ainda vive, Madiano propõe também no filme uma reflexão sobre o impacto desse modelo de desenvolvimento para a natureza e a vida dos cidadãos.

"A crítica sobre a degradação ambiental causada pelo agronegócio está visualmente explícita no filme, com os vazios causados pelos campos de soja, quase nenhuma floresta. Isso como sensação acaba sendo universal, então mesmo o público estrangeiro que não conhece muito o contexto acaba sentindo que aquele processo é uma escolha ruim, que historicamente o Brasil vem tomando."

A visão que Madiano tem sobre esse meio extremamente conservador também está relacionada a uma ausência. Afinal, a maestria do cineasta em retratar o vácuo deixado pela personagem Madalena não é uma casualidade.  

"Como uma pessoa gay, crescer nesse local foi complicado. Ao mesmo tempo em que eu amo esse lugar e muitas pessoas queridas para mim vivem lá, eu me sentia parte e não-parte daquele local por não me encaixar nos padrões. Então, nesse meu primeiro filme, eu queria falar da minha origem - esse local físico - e esse lugar interno ao qual eu não me sentia integrado", conclui.