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Maior centro financeiro da Europa contrata historiadores para purgar passado escravagista

O prédio do Lloyd"s no distrito financeiro de Londres - David Cliff/NurPhoto via Getty Images
O prédio do Lloyd's no distrito financeiro de Londres Imagem: David Cliff/NurPhoto via Getty Images

06/10/2021 16h33

Mais de três milhões de africanos escravizados cruzaram o Oceano Atlântico em navios britânicos, muitos dos quais foram segurados pelo Lloyd's de Londres para cobrir perdas do que foi então inventariado como "mercadoria perecível", junto com o gado. Nunca se falou sobre o envolvimento do mercado britânico no tráfico de escravos, mas o Lloyd's e o Banco da Inglaterra contrataram um historiador para examinar suas implicações neste "passado escravagista", e planejam publicar os resultados.

O envolvimento do maior centro financeiro do continente europeu no tráfico transatlântico de escravos não consta do resumo da exposição permanente oferecida na sede do Lloyd's de Londres, localizada na famosa torre do arquiteto Richard Rogers. Mas isso está para mudar.

"O legado da escravidão é o racismo. Você não pode fazer a escravidão funcionar, a menos que veja os escravos como subhumanos", observou Nick Draper, ex-banqueiro do JPMorgan que fundou o Centro de Estudos dos Legados da Escravidão Britânica (LBS) na Universidade College London.

"Nós negociamos [durante o comércio de escravos] com base na etnia, raça e cor da pele. Isso está enraizado na cultura britânica e europeia - é nisso que estamos trabalhando agora", declarou.

Como outras instituições financeiras na capital britânica, o Lloyd's de Londres foi forçado a enfrentar seu passado de escravidão após os protestos do movimento "Black Lives Matter" no ano passado. Desde então, o Lloyd's e o Banco da Inglaterra contrataram cada um um historiador para examinar suas respectivas implicações na escravidão e planejam publicar os resultados no próximo ano.

As exposições vão dar destaque às fortunas adquiridas a partir de um sistema bárbaro e o papel desempenhado por algumas das figuras mais veneráveis da cidade em mantê-lo funcionando, começando com John Julius Angerstein, considerado o "pai do Lloyd", e cujo retrato ocupa um lugar de destaque no principal escritório do mercado de seguros de Londres.

Grande colecionador de arte, John Julius Angerstein era presidente do Lloyd's de Londres enquanto grande parte de seus negócios se baseava no comércio de escravos no século XVIII. O mercado de seguros também reconheceu que havia evidências que sugeriam que o empresário estava administrando propriedades no Caribe com escravos.

Atual presidente do Lloyd's de Londres, Bruce Carnegie-Brown, expressou sua exigência pela transparência na participação deste tipo de tráfico humano, mas se recusou a remover o retrato de John Julius Angerstein. "Prefiro contar a história do que excluir (a pintura)", disse ele à agência Reuters.

A Rede de Seguros Afro-Caribenha (ACIN), criada para fortalecer a representação de negros e minorias étnicas no mercado de Londres, exortou as empresas a examinar "objetos e artefatos e remover aqueles com conotações racistas", de acordo com as recomendações apresentadas ao mercado de Londres no ano passado.

O cofundador da ACIN, Junior Garba, pede que os objetos em questão sejam colocados em museus. "Não podemos ignorar a história. Podemos explicá-la, podemos educar", frisou.

Raízes vastas e profundas

Nas famosas instituições da City de Londres, as raízes do comércio de escravos são amplas e profundas. A coleção de arte John Julius Angerstein, que inclui obras de Rubens, Raphael e Rembrandt, representa o cerne da fundação da National Gallery da capital britânica.

No entanto, ela não faz menção aos laços do empresário com o tráfico de escravos em seu site, sendo que na mesma página consta que John Julius Angerstein teria sido "membro do Comitê para o Resgate dos Negros Pobres", uma organização de caridade com interesses abolicionistas.

Em um email para a agência Reuters, a National Gallery disse que está trabalhando para esclarecer a relação entre propriedade de escravos, coleção de arte e filantropia na Grã-Bretanha. Ela publicará os primeiros resultados de seu trabalho, que inclui a figura de John Julius Angerstein, ainda este ano.

*Com informações da AFP

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