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"Falamos do Haiti apenas quando estrangeiros são sequestrados", denuncia especialista

18/10/2021 17h12

O Haiti enfrentou nesta segunda-feira (18) um dia de greve geral convocada contra a falta de segurança, evidenciada neste final de semana pelo sequestro de um grupo de missionários norte-americanos. O episódio revela uma situação que vem se agravando há anos: as gangues armadas, que permanecem impunes, controlam as cidades de um dos países mais pobre do Ocidente. Os especialistas alertam que o Haiti está à beira da anarquia.

O Haiti enfrentou nesta segunda-feira (18) um dia de greve geral convocada contra a falta de segurança, evidenciada neste final de semana pelo sequestro de um grupo de missionários norte-americanos. O episódio revela uma situação que vem se agravando há anos: as gangues armadas, que permanecem impunes, controlam as cidades de um dos países mais pobre do Ocidente. Os especialistas alertam que o Haiti está à beira da anarquia.

Com informações de Amélie Baron, correspondente da RFI no Haiti

Os moradores de Porto Príncipe viveram um dia com comércio, escolas e escritórios fechados. A mobilização havia sido lançada já na semana passada por Changeux Mehu, presidente da Associação de Proprietários e Motoristas. Mas o sequestro de 17 pessoas por uma gangue criminosa no sábado (16) expôs mais uma vez as dificuldades do Haiti e intensificou a revolta da população, que há anos sofre com a ação das gangues.

"Há meses pedimos ajuda, pois não estamos em segurança. A multiplicação de sequestros nos impede de funcionar. Pagamos ao Estado todos os impostos que nos pedem. Em troca queremos que nos deem segurança para que possamos viver", disse Mehu. "Vamos bloquear o país até segunda ordem. Até que o Estado decida parar esses bandidos, que passaram dos limites. Eles sequestraram 17 missionários norte-americanos. Isso mostra que ninguém está seguro no país", completou.

As autoridades continuam sem notícias dos 16 americanos e do canadense, que trabalham para a organização Christian Aid Ministries e foram capturados quando visitavam um orfanato e uma das regiões mais perigosas do país. O Departamento de Estado não forneceu detalhes sobre a busca pelos reféns, mas disse no sábado que a segurança dos americanos no exterior "é uma de suas principais prioridades".

Sequestros e estupros

No entanto, o sequestro dos missionários foi apenas mais um episódio na escalada de violência enfrentada pelos haitianos. Cerca de 100 gangues armadas atuam apenas em Porto Príncipe, a capital do país, de acordo com Frédéric Thomas, cientista político especialista do Haiti e membro do Centro de pesquisas tricontinental (Cetri), na Bélgica.

Segundo ele, os sequestros são a principal fonte de renda desses grupos, que aproveitam da impunidade que reina no país nos últimos anos. Porém, a situação só ganhou importância internacional por ter envolvido ocidentais. "Falamos do Haiti apenas quando há estrangeiros que são sequestrados. Mas, em média, dez pessoas são sequestradas por semana no país, a maior parte delas haitianos e principalmente haitianas, que quase sempre estupradas", denuncia.

"Estamos em uma situação de violência generalizada que é relativamente nova", explica. "Segundo os dados da ONU, em 2017 cerca de 20 sequestros foram registrados. Esse ano, no final de setembro já tínhamos mais de 300, dos quais dois terços aconteceram apenas nos últimos três meses", contabiliza o pesquisador, autor do livro "Léchec humanitaire: le cas haïtien" ("O fracasso humanitário: o caso haitiano", em tradução livre).

Para Thomas, existe um problema de governança, mas também de corrupção e desigualdade, que alimentam a crise haitiana. "A proliferação das gangues armadas coincide com os protestos sociais que começaram no Haiti desde 2018, que visavam a corrupção e pediam mais políticas sociais. A resposta do Estado foi apenas a repressão. Hoje vivemos o fruto dessa estratégia de controle. O resultado é que atualmente a capital Porto Príncipe é governada principalmente por essas gangues. Enquanto deixarem a impunidade continuar, não vejo nenhuma saída possível, infelizmente", lamenta o cientista político.