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Conselho de Segurança da ONU vai se reunir para discutir situação no Sudão

26/10/2021 05h51

O Conselho de Segurança da ONU faz uma reunião a portas fechadas nesta terça-feira (26) sobre o golpe de Estado militar no Sudão. Todas as comunicações no país africano estão cortadas. Manifestantes invadiram as ruas contra o retrocesso, após a detenção do primeiro-ministro e da maioria dos dirigentes civis do governo de transição, que preparava eleições, dois anos depois da queda do ditador Omar al-Bashir. Pelo menos três pessoas já morreram nos confrontos.

O Conselho de Segurança da ONU faz uma reunião a portas fechadas nesta terça-feira (26) sobre o golpe de Estado militar no Sudão. Todas as comunicações no país africano estão cortadas. Manifestantes invadiram as ruas contra o retrocesso, após a detenção do primeiro-ministro e da maioria dos dirigentes civis do governo de transição, que preparava eleições, dois anos depois da queda do ditador Omar al-Bashir. Pelo menos três pessoas já morreram nos confrontos.

O general sudanês Abdel Fattah al-Burhan dissolveu o governo de transição do país na segunda-feira (25). Seis países ocidentais (Grã-Bretanha, Estônia, França, Irlanda, Noruega e Estados Unidos) pediram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que deve acontecer nesta tarde, informaram diplomatas.

O primeiro-ministro Abdallah Hamdok, sua esposa e ao menos sete autoridades civis (ministros e membros civis do Conselho Soberano - maior autoridade da transição) foram detidos pelos militares, segundo a Anistia Internacional.

Em uma declaração transmitida pela televisão no meio do dia, o general Abdel Fattah al Burhan assegurou que quer "uma transição civil e eleições livres em 2023", após 30 anos de ditadura de Omar al-Bashir, mas anunciou a demissão de todos os dirigentes.

O governo está dissolvido, inclusive o Conselho Soberano, afirmou. Prefeitos e ministros foram destituídos e o estado de emergência vigora em todo o país, acrescentou.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu a libertação "imediata" do primeiro-ministro e os Estados Unidos suspenderam suas ajudas e exigiram a restauração de um governo civil. A Rússia se afastou e julgou o golpe como "o resultado lógico de uma política equivocada", acompanhada "de uma ingerência estrangeira de magnitude". 

Barricadas e disparos

Na noite de segunda-feira, as redes sociais estavam repletas de imagens de manifestantes determinados a defender a transição democrática que começou após o afastamento do ditador Omar al-Bashir, em 2019.

Depois do discurso do general Burhan, houve confrontos na capital, Cartum. O ministério da Informação declarou que os soldados "atiraram com balas reais em manifestantes contrários ao golpe de Estado militar em frente ao quartel-geral do exército".

Três manifestantes morreram e pelo menos 80 ficaram feridos, informaram fontes médicas.

"O povo elegeu um Estado civil" e "não um poder militar", declararam durante o dia alguns manifestantes em Cartum, onde barricadas com pneus incendiados e pedras interrompiam as ruas, constataram jornalistas da AFP.

"Não vamos aceitar um regime militar. Estamos dispostos a dar nossas vidas pela transição democrática", assegurou Haitham Mohamed à AFP.

Depois dos anúncios do comandante militar, sindicatos e ativistas pró-democracia convocaram uma "desobediência civil" e de "greve geral", na linha do chamado a "se manifestar" contra o "golpe de Estado", lançado pelo gabinete de Hamdok.

Segundo Jonas Horner, pesquisador do International Crisis Group, "este é um momento existencial para os dois lados", civil e militar. "Este tipo de intervenção [...] reintroduz a ditadura como opção", acrescentou, em declarações à AFP.

Em seus 65 anos de independência, esse país pobre do leste da África esteve quase sempre nas mãos de militares ou islamitas. Uma mobilização maciça, em abril de 2019, pôs fim a 30 anos de poder de Omar al-Bashir, embora a transição iniciada depois não tivesse avançado em um bom ritmo.

EUA suspendem ajuda financeira  

Os Estados Unidos anunciaram a suspensão de uma ajuda financeira de US$ 700 milhões ao Sudão e exortaram os "oficiais militares a libertarem imediatamente todos os civis" e a deixarem de recorrer à "violência".

Temendo pela vida de Hamdok, detido em um local não identificado, seu gabinete advertiu que as autoridades militares têm "toda responsabilidade sobre sua vida, ou morte", em um país que registrou uma tentativa de golpe no mês passado.

Michelle Bachelet, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, disse temer que um "desastre" ocorra se "o Sudão regredir [...] após décadas de ditadura". Guterres também condenou o "golpe de Estado militar" e exigiu que a "carta constitucional" seja respeitada.

Esse texto, assinado por todos os responsáveis anti-Bashir em 2019, prevê eleições no final de 2023 e uma transição civil, com a qual o general Burhan afirmou seguir comprometido enquanto decide um novo governo e um novo Conselho Soberano.

A União Europeia instou a comunidade internacional a "voltar a pôr nos trilhos a transição sudanesa". A Liga Árabe manifestou "profunda preocupação" e pediu a todas as partes que respeitem o acordo de divisão do poder.

Diante dos apelos, o general Burhan disse que o país respeitará os acordos internacionais assinados. O Sudão é um dos quatro países árabes que normalizaram, recentemente, as relações com Israel.

O Sudão enfrenta uma transição política precária, marcada por divisões e por lutas de poder. Recentemente as tensões aumentaram entre os dois lados.

(com informações da AFP)