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'Quem compactua com genocídio, genocida é': brasileiros protestam contra palestra de Queiroga em Lisboa

Durante palestra na faculdade de Medicina em Lisboa, Queiroga defendeu a gestão da pandemia por Bolsonaro - Myke Sena/MS
Durante palestra na faculdade de Medicina em Lisboa, Queiroga defendeu a gestão da pandemia por Bolsonaro Imagem: Myke Sena/MS

26/10/2021 12h29

Grupos de brasileiros pró-democracia, como o Coletivo Andorinha ou a Casa do Brasil em Lisboa, organizaram um protesto nesta terça-feira (26) contra a palestra do ministro brasileiro da Saúde, Marcelo Queiroga, na Faculdade de Medicina da Unversidade de Lisboa, sobre o enfrentamento à crise sanitária. Apesar de ser investigado pela CPI da Covid por suspeita de crimes na condução de políticas contra o coronavírus, Queiroga defendeu as ações do governo Bolsonaro contra a pandemia.

"Decidimos organizar o protesto a partir da informação publicada no Diário Oficial da União, no Brasil, de que o Queiroga viria proferir essa conferência. A partir deste momento, o Coletivo Andorinha resolveu fazer uma carta pedindo esclarecimentos ao diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, para confirmar a veracidade dessa informação", conta Débora Dias, doutora e pesquisadora em história contemporânea, e integrante do coletivo.

"Primeiro, não acreditamos. No momento em que a CPI da Covid coloca o nome do Queiroga entre os possíveis indiciados, por crimes na pandemia e prevaricação, a faculdade o convida para falar sobre como combater a epidemia no Brasil, uma situação muito insólita para acreditarmos que fosse verdade", conta a pesquisadora.

"Desrespeito"

A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa não respondeu à carta do coletivo e confirmou posteriormente e publicamente a vinda de Queiroga nesta terça-feira (26). "Convocamos então o ato para mostrarmos nosso repúdio e questionar a sociedade portuguesa sobre o que Queiroga poderia ter a ensinar a Portugal, aos médicos portugueses ou aos estudantes de Medicina locais. A participação do ministro neste evento é um desrespeito às vítimas e familiares das vítimas da Covid no Brasil e também contra todo o povo brasileiro que hoje passa fome e está mergulhado no desemprego", avalia a historiadora.

Débora Dias avalia que o protesto foi "muito bom" e reuniu "bastante gente na frente da Faculdade de Direito, que divide a entrada com o Hospital Santa Maria, um dos principais centros de combate à Covid-19 em Portugal". "Tivemos muita cobertura de imprensa, mas também a participação de pessoas que foram atingidas pela pandemia e perderam familiares no Brasil", conta a historiadora.

"[O convite para fazer a palestra foi] um verdadeiro acinte para quem é brasileiro, mas também para todos os estudantes de Medicina portugueses. Portugal está entre os que deram uma das respostas mais efetivas à pandemia, fazendo exatamente tudo o que o Brasil não fez: lockdown, máscara, isolamento, todas as medidas recomendadas pela OMS [Organização Mundial da Saúde]", afirma. "Já está provado e documentado que o presidente e seus ministros agiram para disseminar o vírus no Brasil", conclui a pesquisadora e integrante do Coletivo Andorinha.

Durante a palestra na faculdade de Medicina em Lisboa, Queiroga defendeu a gestão da pandemia por Bolsonaro, apontando os resultados positivos da campanha de vacinação, num contexto de forte polêmica no Brasil. Durante uma live no Facebook na última quinta-feira (21), o presidente sugeriu que os imunizantes anticovid podem aumentar o risco de pegar Aids.

Para Samara Azevedo, atriz e doutoranda bolsista em Belas-Artes da Universidade de Lisboa, integrante do Coletivo Andorinha, "não se pode confundir o livre pensamento com a publicização de pessoas e projetos antidemocráticos genocidas e eugenistas, como nos foi revelado a partir da CPI da Covid.

"Se falarmos sobre esse momento no Brasil, todos se recordam da Prevent Senior, escândalo onde médicos eram coagidos a oferecer kits de tratamento precoce anticovid para seus pacientes, um 'kit' que, sabemos, nunca funcionou", lembra.

"Quem compactua com genocídio, genocida é"

"A vinda do ministro nos afeta diretamente, estamos falando das pessoas que perdemos no Brasil. Existe esse simbolismo: ele vem nos lembrar das pessoas que perdemos por lá. A manifestação de hoje foi muito emotiva", diz Azevedo.

"Como se a presença física dele já não nos bastasse como uma afronta, o título da paletra era sobre as ações do Brasil no 'enfrentamento' à pandemia. Já existe um relatório da CPI que diz que poderiam ter sido poupadas mais de 459 mil vidas", lembra a artista brasileira.

"A imprensa portuguesa, questionada por nós, nos respondeu que a faculdade justifica o convite por Queiroga ser um 'renomado cardiologista de um país amigo'. Na verdade, assistindo à palestra, percebemos que se tratava de um convite pessoal a um 'amigo' do diretor da Faculdade de Medicina da universidade de Lisboa. A atitude da faculdade foi irresponsável, quem compactua com genocídio, genocida é", finaliza a atriz e pesquisadora.