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Pacientes morrem por falta de luz em hospitais do Haiti, à mercê de ladrões de combustível

28/10/2021 08h10

Já gravemente atingidos por um caos político que se prolonga há meses, os haitianos enfrentam desde o início da semana uma degradação acelerada de suas condições de vida pela atuação de criminosos que controlam o acesso aos terminais petroleiros do país. A reportagem da RFI esteve no Hospital da Providência de Gonaives e encontrou pacientes agonizando pela falta de atendimento adequado.

Já gravemente atingidos por um caos político que se prolonga há meses, os haitianos enfrentam desde o início da semana uma degradação acelerada de suas condições de vida pela atuação de criminosos que controlam o acesso aos terminais petroleiros do país. A reportagem da RFI esteve no Hospital da Providência de Gonaives e encontrou pacientes agonizando pela falta de atendimento adequado.

Do enviado especial da RFI, Ronel Paul, com AFP

No local, o principal centro médico do departamento de Artibonite, o bloco operatório funciona de maneira improvisada - os médicos não conseguem chegar ao trabalho pela falta de combustível e os geradores de luz estão vazios. A escuridão é total.

Na entrada da emergência, cerca de 10 pessoas aguardam atendimento. Loudemie Fleuridort acompanha a mãe, gravemente ferida na cabeça, e a cunhada, com o braço quebrado, depois que ambas sofreram um acidente de trânsito.

"Vi doentes morrendo na minha frente. Se a minha mãe sobreviver, será graças a Deus", afirma a mulher. "Cheguei no sábado com elas aqui e só no domingo um médico veio vê-las. Mas, por causa da falta de luz, não conseguem fazer mais nada, nem dar os pontos", disse à reportagem.

O diretor médico Excène Joseph diz estar impotente. "Chegamos a um ponto em que não podemos receber mais pacientes não só porque faltam funcionários e medicamentos, mas simplesmente porque não tem combustível para alimentar o gerador. É uma situação extremamente grave e muito preocupante para qualquer um, inclusive eu mesmo", alertou.

Hospital pede ajuda humanitária

Depois de ter feito de tudo para conseguir combustível, sem sucesso, o diretor sanitário departamental, Marcel Chatelier, teme uma catástrofe humanitária e pede ajuda internacional de emergência. "Apelamos à comunidade internacional e todos os que possam nos ajudar para facilitar a chegada do combustível, por mar ou helicóptero, até o hospital. Não é possível que pessoas possam morrer assim!", indigna-se.

No Hospital de Traumatologia e Queimados de Tabarre, o único do país especializado no tratamento de queimaduras graves, a organização Médicos Sem Fronteiras agora só atende os casos de urgência vital. Sem rede elétrica funcionando normalmente, a entidade utiliza geradores próprios para poder realizar diversos serviços médicos.

"Para tentar economizar um pequeno estoque de combustível que nós temos, tentamos adaptar as atividades e reduzimos ao máximo a utilização de certas máquinas, como as diálises e esterilização", exemplifica Mumuza Muhindo, à RFI.

O problema atinge os transportes e prejudica a chegada dos profissionais da saúde ao trabalho. "Hoje, nós constatamos que apenas 10% dos funcionários conseguem vir trabalhar por conta própria. Organizamos vans para buscar mais alguns, em sistema de rodízio para garantir uma presença mínima para o funcionamento do hospital", disse o diretor do Hospital de Tabarre, Kanouté Dialla. "Mas estamos todos exaustos e essa situação não poderá durar muito mais tempo."

Falta luz pelo país

O país caribenho nunca produziu energia elétrica suficiente para atender à demanda da sua população e, mesmo nos bairros mais abastados de Porto Príncipe, a empresa pública de eletricidade só assegura o abastecimento máximo durante poucas horas por dia. Os que podem, compram geradores: equipamentos caros, hoje inúteis devido à grave escassez de combustível provocada pelas gangues armadas. A falta de diesel impede também as empresas privadas de assegurarem a entrega de água em caminhões-pipa.

O Haiti está mergulhado na incerteza após o assassinato do presidente Jovenel Moise por um grupo armado, em 7 de julho. Ariel Henry, nomeado primeiro-ministro dois dias antes do assassinato, chefia interinamente o país, mas se mantém em silêncio diante do crescimento dos grupos criminosos em Porto Príncipe.

"O governo, que só existe no papel, não controla nada, nem mesmo o perímetro de seus edifícios", afirmou à AFP o economista haitiano Etzer Emile, para quem "a crise de combustível é o último exemplo de um Estado falido".

"Como se a inflação descontrolada, a alta contínua do dólar, a insegurança alimentar, a fuga de cérebros, o sequestro não fossem o bastante, precisávamos de uma grave escassez de combustível e um governo fantasma repleto de comediantes e despreocupados", constata.

Gangues avançam

As gangues cometeram mais de 782 extorsões mediante sequestro desde o começo do ano, segundo o Centro de Análise de Pesquisas em Direitos Humanos, que tem base em Porto Príncipe. Um dos grupos armados mais poderosos do país pede US$ 17 milhões para liberar um grupo de missionários e suas famílias - 16 americanos e um canadense -, sequestrados em 16 de outubro no leste da capital.

"Os donos do nosso destino e os que decidem sobre a nossa vida já não estão no Palácio Nacional, como foi o caso durante a ditadura Duvalier: agora são as gangues armadas", resume Etzer Emile, preocupado com o que chama de "somalização à haitiana", em alusão ao país africano, dominado por milícias armadas.