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Como cada um pode agir para colocar na prática as decisões complexas das Conferências do Clima

03/11/2021 10h14

Metas, descarbonização, mitigação, adaptação... Tudo isso parece tão distante de nossa realidade. Como o que é decidido nas COPs tem impacto no nosso dia-a-dia? É nessa hora que entram em jogo os governos locais, municipais, empresas e até nós mesmos - afinal, as nossas ações individuais também ajudam a diminuir as emissões globais.

Metas, descarbonização, mitigação, adaptação... Tudo isso parece tão distante de nossa realidade. Como o que é decidido nas COPs tem impacto no nosso dia-a-dia? É nessa hora que entram em jogo os governos locais, municipais, empresas e até nós mesmos - afinal, as nossas ações individuais também ajudam a diminuir as emissões globais.

Na esfera nacional, escolhas como o modelo energético, investimentos em inovação e pesquisa são cruciais para reduzir as emissões de CO2 de um país. No caso do Brasil, o principal é combater o desmatamento. O respeito ao Código Florestal, investimentos em vigilância da Amazônia e do Cerrado, o incentivo a uma agricultura sustentável e demarcações de terras indígenas são medidas que fazem toda a diferença.

Quanto às ações locais, são os governos estaduais e municipais que entram em cena. Eles podem adotar planos climáticos baseados nas metas do país, ou até mais ambiciosos. Ampliação da rede de transportes públicos e ciclovias, proteção e criação de áreas verdes, reciclagem do lixo, entre tantos exemplos. Entretanto, um relatório da organização Disclosure Insight Action mostrou que, em 2020, apenas cinco estados brasileiros tinham metas próprias de redução dos gases do efeito estufa.

Outra peça fundamental são as empresas. Elas podem não apenas reduzir suas próprias emissões, mas, no caso brasileiro, elas acabam funcionando como instrumento de pressão para que o governo cumpra suas metas e evite represálias internacionais, que hoje em dia geram graves prejuízos econômicos.

Agricultura sustentável

"Não é que sem o governo federal, as coisas não vão acontecer. A pergunta é se a gente fica parado esperando alguma coisa acontecer ou seguimos com os trabalhos que podemos fazer", afirma Marcelo Furtado, facilitador da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, entidade que promove práticas sustentáveis junto a mais de 300 empresas, entre elas várias ligadas ao agronegócio, mas também da sociedade civil e acadêmicos.

"Temos um trabalho muito importante da sociedade civil como um ator para fazer denúncias dos crimes e problemas que estão acontecendo e propondo soluções. Mudanças climáticas não são uma questão ambiental: são um paradigma de sociedade, onde a gente tem que construir as soluções para as mudanças climáticas em cima de uma base socialmente justa, dentro dos limites do planeta."

O grande problema do Brasil são as emissões causadas pelo desmatamento, geradas principalmente pelo avanço do agronegócio floresta adentro. Como uma empresa ligada ao setor - ou seja, acusado de causar o problema - pode fazer parte de uma iniciativa como essa?

"Se você é uma empresa que está associada ao uso da terra, você não tem outra opção se não fazer a seguinte pergunta: o produto que eu faço, a cadeia em que estou inserida, contribui ou não para o desmatamento? Precisa parar. Ela é uma cadeia que tem produção agro que gera um impacto negativo ou positivo, não só evitando as emissões de gases como, eventualmente, absorvendo o CO2? A matriz energética que eu acesso é renovável? O lucro só vai existir para empresas que conseguirem dialogar com isso, porque este é o mundo que vai existir", explica Furtado. "A melhor checagem que existe é a da sociedade, que está olhando."

Greenwashing

Uma vez que os consumidores se preocupam cada vez mais com questões ambientais, principalmente as novas gerações, já faz tempo que empresas, indústrias, ONGs e até governos passaram a adotar estratégias de propaganda enganosa para maquiar os danos que fazem ao meio ambiente.

É como aquela loja de roupas que estimula a reciclagem das peças usadas, mas a cada mês chega com mais toneladas de novos produtos à venda, produzidos no outro canto do mundo, em algum país pobre no qual, com frequência, as regras ambientais para a fabricação são menos rigorosas do que nos países desenvolvidos. Isso tem um nome: greenwashing.

"Na verdade não é apenas um problema das COPs, é um problema de comunicação ambiental muito mais amplo. Temos vários estudos que mostram que as empresas que mais comunicam, que fazem mais publicidade sobre o desenvolvimento sustentável, são também as que têm o impacto ambiental mais alto", ressalta o especialista em comunicação ambiental francês Thierry Libaert. "Entre 2020 e 2021, na Europa, o recurso ao greenwashing dobrou, principalmente na esfera digital."

É por isso as mudanças nos hábitos dos consumidores são cruciais para resultados efetivos: pensar que, por trás de uma calça nova, existe uma cadeia de produção que costuma levar à poluição de rios, a mais emissões de gases pelo transporte até a sua cidade, que as roupas usadas nem sempre podem ser recicladas, afinal a indústria abusa de materiais sintéticos, à base de petróleo.

Pequenos gestos, grandes resultados

As enchentes recentes na Europa, que fizeram centenas de vítimas em um país rico como a Alemanha, ou a crise hídrica atravessada pelo Brasil, que deixou cidades inteiras sem água e com risco de apagão, mostram a nossa fragilidade diante das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo nos sentimos frustrados diante da falta de ação dos governantes, pequenos diante de um problema que parece gigantesco em relação às nossas possibilidades.

Mesmo assim, cada vez mais pessoas decidem arregaçar as mangas e agir. São pequenos gestos que, multiplicados em escala planetária, de milhões de pessoas, geram mais consciência coletiva do problema e, no final, resultam em menos emissões de gases que causam a desregulação do clima.

"A ação que eu faço todos os dias é evitar consumir muito. As coisas que eu tenho, eu acabo usando por muitos anos", conta o fotógrafo e editor de imagens Felipe Paiva, instalado em Paris. Pouco a pouco, ele adaptou o seu estilo de vida, de uma maneira mais consciente em relação à crise climática. "Por conta de uma greve nos transportes, eu comecei a ir para o trabalho de bicicleta e depois, com a pandemia, me habituei a não pegar mais transporte público. Hoje eu faço tudo de bicicleta."

Um dia sem carne

As adaptações nem sempre são fáceis. Alguns hábitos, como o de comer carne, fazem parte da cultura da maioria dos países. Mas em nível mundial, a produção de carne responde por 14% das emissões de gases de efeito de estufa, e 48% daquelas geradas pela agricultura, conforme a FAO. O gado é o maior vilão: é o que mais emite metano, um gás ainda mais prejudicial do que o CO2.

Ou seja, aquela história de ficar pelo menos um dia da semana sem carne já faz, sim, diferença. Na França, por exemplo, um país com forte consciência ambiental, o consumo de carne bovina já caiu 30% desde 1980.

No Brasil, o programa Segunda-feira Sem Carne nas escolas públicas, adotado em mais de 100 cidades, gera economias para os cofres públicos e evita milhões de toneladas a mais de gases de efeito estufa. Uma pessoa que corta alimentos de origem animal uma vez por semana deixa de despejar 14 quilos de CO2 na atmosfera, o que significa uma viagem de 100 quilômetros de carro.

Em casa, Felipe Paiva limitou ao mínimo o consumo de carne. "Eu não sou uma pessoa radical. Eu tenho alguns amigos que são bem radicais e isso requer uma disciplina muito grande, você tem que estar muito disposto, estar com energia para tornar essas coisas um hábito e fazer parte de seu estilo de vida. Vai ser uma coisa que vai mudar de forma gradual, talvez geracional", avalia o fotógrafo. "Às vezes as pessoas têm a vida delas, com trabalho, estresse, filhos pequenos, e pensam que até se preocupam, mas acabam não agindo por falta de energia ou por falta de oportunidade. Não é fácil, mas eu acho que a tendência, independentemente da minha geração querer ou não, é as pessoas se preocuparem cada vez mais com o impacto que cada um tem."