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Raiva pode ser motor de transformação positiva, diz psicóloga francesa

30/11/2021 12h26

O mundo em que vivemos não contribui, por si só, ao controle emocional. Nosso cotidiano é pautado por prazos e metas nos planos pessoal e profissional: entregar um trabalho a tempo, gerenciar as finanças da casa ou organizar as férias e o jantar da noite de Natal. O acúmulo de atividades da vida moderna coloca as pessoas sob pressão e nos deixa, muitas vezes, à beira de um ataque de nervos.

O mundo em que vivemos não contribui, por si só, ao controle emocional. Nosso cotidiano é pautado por prazos e metas nos planos pessoal e profissional: entregar um trabalho a tempo, gerenciar as finanças da casa ou organizar as férias e o jantar da noite de Natal. O acúmulo de atividades da vida moderna coloca as pessoas sob pressão e nos deixa, muitas vezes, à beira de um ataque de nervos.

Taíssa Stivanin, da RFI

Quando elementos externos e independentes da nossa vontade atrapalham nossos objetivos, surge a impaciência, o nervosismo, e, no caso de algumas pessoas, os acessos de raiva. Como uma explosão, esses ataques arrasam tudo pelo caminho, gerando rupturas, desentendimentos, desavenças e também doenças - sabemos que alguns neurotransmissores envolvidos nas emoções, como a adrenalina, por exemplo, em excesso, afetam o funcionamento do nosso organismo. 

Alguns tipos de personalidade são mais propícios ao descontrole. Em alguns casos, o problema é patológico. Mas, como gerenciar melhor as emoções negativas que provocam essas explosões?

"A raiva é uma emoção universal e uma das quatro emoções de base. Como todas as emoções é um sinal de alarme, que nos indica, em um determinado momento, que estamos em perigo, porque estamos em uma interação negativa, ou porque algumas situações são vividas como uma terrível frustração ou como uma grande injustiça", diz a psicóloga francesa Dana Castro, autora do livro Petits silences et petis mensonges: le jardin secret de l'enfant (Silêncios breves e mentirinhas: o jardim secreto das crianças, em tradução livre).

A autora lembra que a raiva não é necessariamente negativa, porque sendo uma emoção considerada "de base", tem uma função. Em nível individual, se ela tem uma conotação positiva, é um motor de ação. "Ela nos estimula a ultrapassar nossos limites e estipular objetivos positivos", ressalta. 

A especialista francesa cita uma situação comum em uma sala de aula. Um professor diz ao seu aluno, por exemplo, que ficou decepcionado com o resultado do seu trabalho, e que ele poderia ter se esforçado mais. "O motor de ação, nesse caso, é que posso mostrar ao professor do que sou capaz. Ao reagir dessa maneira, mostro também a mim mesmo do que sou capaz", ressaltou, durante o programa da RFI Priorité Santé.

Sinal de alarme

A raiva é um sinal de alarme, diz Dana Castro, e é importante aprender a decodificá-la e entender o que essa emoção está querendo nos dizer em um determinado momento ou situação. O objetivo, diz a psicóloga, é não se deixar controlar por ela e literalmente perder as estribeiras, gerando situações constrangedoras e futuros arrependimentos. Na hora da raiva, o coração acelera, as pupilas se dilatam e os diálogos se transformam em gritaria, impossibilitando qualquer tipo de consenso. 

O circuito neurológico que gerencia as reações intempestivas no cérebro é bem conhecido dos cientistas. Durante os acessos de raiva, o estado fisiológico se transforma e faz com que o corpo envie mensagens de alerta ao cérebro, que estimulará o indivíduo a agir de forma ainda mais colérica.

"Quanto maior a raiva, mais rápido o coração vai bater e mais seremos incitados a reagir, porque o cérebro entendeu que se trata de uma situação grave. E quanto mais forte o coração bate, mais nós nos desorganizamos em nossas ações, o que impedirá de atingir o principal objetivo: colocar um fim na situação", resume Dana Castro. 

Quais são as principais causas dos acessos de raiva? Uma delas é a noção de frustração, associada à noção de injustiça, descreve a psicóloga. Em uma relação conjugal, é frequente este cenário: uma das partes, quando recebe críticas, tem dificuldade em aceitá-las porque julga que já faz um grande esforço. A frustração gerada pela oposição também está na origem das crises da raiva. Quando enfrentamos, por exemplo, a resistência de alguém ao pedirmos alguma coisa, o que é muito comum no trabalho ou entre pais e filhos, por exemplo. 

"Às vezes, a raiva também pode ser uma forma de manipular o outro e deixá-lo com medo, instaurando um estado de desequilíbrio assustador, por conta de algo sem importância. Isso induz a uma forma de submissão, pelo medo do conflito que essa situação pode desencadear. A grande luta para evitar o descontrole e a repetição [desse tipo de explosão] é aprender a deixar para lá, não utilizando substâncias psicoativas, mas buscando lugares calmos, aprendendo a respirar, procurando ver um filme, como uma comédia romântica, por exemplo", conclui.