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Depressão e abuso em atletas de alto nível: o fim de um tabu?

01/12/2021 15h32

O Comitê de Ética e Esporte da França, associação que tem por objetivo apresentar propostas concretas sobre alguns desvios éticos no esporte, realizou uma pesquisa sobre a incidência da depressão entre atletas de alto nível. Cada vez mais esportistas relatam, muitas vezes depois de se aposentar, as dificuldades psicológicas que enfrentam ou enfrentaram, sendo a depressão uma delas.

O Comitê de Ética e Esporte da França, associação que tem por objetivo apresentar propostas concretas sobre alguns desvios éticos no esporte, realizou uma pesquisa sobre a incidência da depressão entre atletas de alto nível. Cada vez mais esportistas relatam, muitas vezes depois de se aposentar, as dificuldades psicológicas que enfrentam ou enfrentaram, sendo a depressão uma delas.

Por Farid Achache

A maioria das pessoas os imagina como intocáveis, e não levam em conta a vida tumultuada de um atleta de alto nível, às vezes feita de alegria e conquistas, mas também de aborrecimentos que podem acabar mal, como um piloto de Fórmula 1 que perde os freios no meio da pista.

Uma pesquisa realizada pelo Comitê de Ética e Esporte da França com um painel de 1.200 atletas com 15 anos ou mais, apontou que o fenômeno da depressão cresce cada vez mais. Mais de 80% dos atletas ouvidos ??já vivenciaram pelo menos uma das seguintes situações: falta de força ou energia, sensação de tristeza, nervosismo, ansiedade e falta de confiança.

Além disso, um alerta: mais da metade dos jovens atletas de 15 a 17 anos (52%) ousaram admitir que não valia a pena viver. Um outro elemento muito marcante foi a sensação de fragilidade e desconforto, muito mais enfatizada pelos homens. E, finalmente, a constatação de que os esportes coletivos geram mais problemas.

Formar atletas para detectar primeiros sinais de depressão

"O tabu da depressão existe. É o mesmo problema dos maus-tratos no esporte. O atleta é estimulado a ser uma pessoa que não passa por nenhum tipo de sofrimento, que deve ser desumano no sentido exato do termo. Ele fica preso entre a sua humanidade e neste papel que lhe é imposto", explica a psicóloga Laure Delisée.

Segundo a profisisonal, os esportistas devem ser treinados para detectar os primeiros sinais de depressão. "Temos que quebrar esse tabu da ajuda psicológica. Muitas pessoas pensam que se você for a um psicólogo, você está louco", assinala.

Delisée não espera nada das federações, mas espera que outros parceiros mais próximos dos indivíduos tomem medidas para lidar com um problema cada vez mais urgente, como a agressão sexual e o abuso no esporte. O Comitê de Ética e Esporte da França tenta se articular com o mundo sindical, segundo Véronique Lebar, presidente da entidade.

"No momento em que o atleta se sente mal consigo mesmo, ele não tem um bom desempenho, isso é óbvio. Você tem que ser boa física e psicologicamente ", diz Laure Delisée.

Em três anos, a França sediará os Jogos Olímpicos e espera uma chuva de medalhas. Mas o Ministério do Esporte e Saúde vai tratar do assunto da depressão entre atletas de alto nível ? "No Instituto Nacional de Esporte, Experiência e Desempenho (Insep) da França, contamos com as habilidades de especialistas reconhecidos, incluindo a psicólogo do esporte Meriem Salmi. Mas isso afeta apenas uma pequena parte dos atletas franceses", lembra Lebar.

"Inútil"

"É um assunto que me toca no coração, porque o vivi", assume o jogador de basquete Gary Florimont. "Eu tinha depressão e faltava apoio das pessoas que precisavam estar lá. Fui muito mal acompanhado e quero que esse tabu seja quebrado. Todos os atletas, sem exceção, passam por isso", diz.

"Atrás de cada campeão, existe um perdedor. Nunca somos ensinados a compreender contratempos. E o fracasso é o que você experimenta com mais frequência na carreira dos esportes. Como embaixador do Comitê de Ética e Esportes, é meu dever liderar o caminho", afirma Florimont.

Aos 27 anos, após uma lesão no tendão de Aquiles, Gary Florimont foi colocado na "geladeira". Ele não se adaptou à situação e passou a se sentir inútil. "Eu não dormia mais, não comia. Era difícil para mim projetar-me no futuro e encontrar coisas positivas na vida", afirmou o atleta de Guadalupe, que desembarcou aos 15 anos na França para ingressar em um centro de treinamento. Florimont gostaria que o mundo do esporte enfrentasse o problema de frente: "Muitas vezes pensamos na cura [da depressão], mas raramente na prevenção", declarou.

"Nossos testemunhos não são ouvidos"

Em setembro passado, a estrela do tênis feminino Naomi Osaka, do Japão, tentou fazer uma cara boa para os jornalistas que esperavam suas primeiras palavras após sua eliminação no Aberto dos Estados Unidos, em Nova York. "É muito difícil articular. Sinto que estou em um ponto em que estou tentando descobrir o que quero fazer. Honestamente, não sei quando vou jogar meu próximo jogo. Acho que vou parar um pouco", confessou a campeã, com lágrimas no rosto.

"Nossos testemunhos não são ouvidos o suficiente. Passei por momentos complicados e desmoronei psicologicamente. Passei meu tempo chorando, na frente do meu treinador e do psiquiatra do clube. Mas me disseram: 'Pare de reclamar, observe o que você faz nos treinos, é ótimo!'", afirmou a nadadora Ludivine Blanc.

"Fisicamente, eu estava perdendo peso, visivelmente. Eu usei a palavra 'depressão' para o que estava acontecendo comigo e ninguém queria acreditar em mim. Depois de um ano em uma nova estrutura de treino, um médico finalmente usou a palavra 'depressão'. A partir daí, comecei a me reconstruir", afirmou. "Um atleta deve estar sempre bem, sempre ser perfeito. Ele não tem o direito de dizer que isso está errado. Não sou ouvida há muito tempo. As coisas precisam mudar ", disse Ludivine Blanc.

Como ela faz questão de ressaltar, a pandemia do coronavírus e os períodos de lockdown foram um verdadeiro trauma para os atletas de alto nível. A pesquisa, realizada de meados de outubro a meados de novembro de 2020, destaca que 62% das pessoas que responderam às perguntas acreditam que a crise sanitário "teve um impacto em sua saúde mental".

Em atletas de alto rendimento, a depressão pode surgir a qualquer momento. O corpo pode muito bem ser treinado, mas se a cabeça não seguir, caminha-se para um desastre. A história mais significativa dos Jogos de Tóquio foi a da ginasta Simone Biles. Com uma chuva de medalhas esperada de uma das mais importantes ginastas da história, a norte-americana desistiu das finais do salto e das barras desiguais.

A Rainha dos Jogos do Rio 2016, com quatro medalhas de ouro, seria coroada Imperatriz no Japão. Isso não aconteceu. Aquela que foi coroada dezenove vezes no Campeonato Mundial teve que enfrentar seus demônios interiores. A partir daí, o mundo inteiro percebeu que um atleta de ponta é, antes de tudo, um ser humano.