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"Vacinas de RNA mensageiro se adaptam facilmente às variantes", diz pioneiro da técnica

07/12/2021 12h31

O aparecimento da variante ômicron do coronavírus (B.1.1.529), detectada na África do Sul, cria incertezas sobre a eficácia das vacinas atualmente disponíveis. Muitos governos, que iniciam as campanhas para aplicar a terceira dose, se questionam se os imunizantes serão eficazes contra a nova cepa.

O aparecimento da variante ômicron do coronavírus (B.1.1.529), detectada na África do Sul, cria incertezas sobre a eficácia das vacinas atualmente disponíveis. Muitos governos, que iniciam as campanhas para aplicar a terceira dose, se questionam se os imunizantes serão eficazes contra a nova cepa.

Taíssa Stivanin, da RFI

O laboratório Pfizer já anunciou que está preparado para ajustar o imunizante à nova cepa e distribuir as primeiras doses em 100 dias. A vacina de RNA mensageiro que chegou ao mercado há cerca de um ano se tornou a principal arma contra a epidemia, que, apesar das ondas sucessivas, não voltará mais ao patamar de 2020, período em que as medidas restritivas eram essenciais para enfrentar o vírus.

Tudo é uma questão de tempo e de ajustes, disse em entrevista à RFI o imunologista francês Steve Pascolo, pesquisador da Universidade de Zurique, na Suíça, e um dos inventores da técnica do RNA mensageiro. A previsão no futuro, afirma, é que a vacinação contra a Covid-19 seja anual e siga um esquema vacinal como o da gripe, combinando um imunizante contra as duas doenças.

"Provavelmente, as indústrias já trabalham em uma vacina sintética na base de RNA, que associa a proteína recombinante do SARS-CoV-2, a Spike, e a proteína que codifica para o vírus da gripe. O objetivo é combinar em uma única vacina polivalente, anti-SARS-CoV-2 e antigripal, com vários RNAs", explicou.

Sobre a adaptação das vacinas às novas variantes, o pesquisador lembra que os imunizantes ainda funcionam. O soro da Pfizer, que é atualmente distribuído mundialmente, foi produzido com base na cepa original, surgida em Wuhan, em 2020, mas combate a delta, a cepa até então majoritária.

Se a ômicron exigir uma adaptação da vacina, os laboratórios estão preparados para modificar o produto. "As empresas testam RNAs mensageiros que codificam a proteína Spike de diferentes variantes. Eles preparam a possibilidade de poder substituir o RNA mensageiro da primeira vacina por outro que codificaria para uma proteína Spike variante de outra cepa, ou até mesmo para duas cepas", ressalta o pesquisador francês.

Combinação de vários RNAs

A grande vantagem do RNA mensageiro, lembra Steve Pascolo, é a possibilidade de combinar vários RNAs mensageiros em um só imunizante. "Atualmente, a vacina contra a Covid-19 contém apenas um RNA mensageiro, mas é muito fácil combinar vários outros, que podem codificar proteínas Spikes de variantes diferentes ou RNAs mensageiros que codificam outros vírus, como o da gripe", disse.

Essa é uma das grandes vantagens dessa tecnologia: combinar diferentes moléculas de RNA e realizar uma injeção polivalente. Sobre a necessidade atual de fazer uma terceira injeção após seis meses, o imunologista lembra que a ciência evolui junto com a epidemia.  O esquema vacinal vai se adaptar com o tempo, em função dos resultados dos estudos e do aparecimento de novas variantes. "A população deve se adaptar ao fato de que a medicina é dinâmica e que nós aprendemos à medida que o tempo passa o que é preciso fazer. Nós nos adaptamos."

Segundo ele, em relação à terceira dose, será preciso avaliar se a proteção contra a transmissão da Covid-19 continuará sendo eficaz, sobretudo com o aparecimento de novas variantes. "Difícil prever, por enquanto, se a ômicron exigirá a mudança da estratégia de vacinação. Não podemos prever a duração da imunidade com as vacinas, é preciso acompanhá-la e reagir em função do que observamos."

Imunidade coletiva

O pesquisador suíço também lembra que o SARS-CoV-2 é um vírus novo, e muitas pessoas ainda não entraram em contato com ele. É provável que, com o tempo, toda a população, vacinada ou não, seja contaminada e desenvolva uma forma de imunidade contra o microrganismo.

"Quando estamos vacinados, não desenvolvemos sintomas graves e estamos protegidos contra a Covid-19, mas o sistema imunológico é fortalecido pela infecção. Teremos, ao longo dos meses e dos anos, uma proteção global contra o SARS-CoV-2 graças à vacinação e à infecção, que vai continuar a se propagar, porque ainda há muitos não vacinados, tem as crianças, e podemos pegar os vírus imunizados, ainda que a taxa de infecção seja reduzida."

De acordo com o cientista, uma imunidade global acabará sendo atingida pela combinação entre a vacinação e a infecção. "Podemos imaginar que dentro de três anos, todos na Terra já terão cruzado com o SARS-CoV-2 e terão uma imunidade contra o coronavírus".