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Chamada de "satânica", artista sueca é atacada por ultracatólicos e tem shows cancelados na França

09/12/2021 10h40

O cancelamento de shows de uma artista sueca por pressão de militantes ultracatólicos choca a opinião pública da França. Eles "ressuscitaram a censura", diz a manchete de capa do diário Libération desta quinta-feira (9), que dedica suas cinco primeiras páginas ao escândalo.

O cancelamento de shows de uma artista sueca por pressão de militantes ultracatólicos choca a opinião pública da França. Eles "ressuscitaram a censura", diz a manchete de capa do diário Libération desta quinta-feira (9), que dedica suas cinco primeiras páginas ao escândalo.

Na última terça-feira (7), em Nantes, no oeste da França, um grupo de católicos integristas conseguiu que uma apresentação da cantora e multiinstrumentista Anna von Hausswolff fosse cancelada. Em turnê pela Europa, ela faria um concerto em uma igreja da cidade, dentro da programação de um festival cultural local, e outro em Paris.

Libé explica que eventos como esses não são incomuns. Nos últimos anos, a cena musical alternativa europeia vem promovendo shows em igrejas, com o acordo das dioceses. No entanto, Anna von Hausswolff, que faz parte do movimento do post-metal e do rock experimental, foi classificada por militantes integristas como "satânica".

Em entrevista ao Libération, um dos organizadores do evento em Nantes conta que cerca de 100 militantes ultracatólicos cercaram a igreja onde o concerto ocorreria. Atirando água benta contra as paredes do local, rezando e cantando músicas religiosas, eles bloquearam as entradas. Pouco antes da hora prevista para o evento iniciar, cerca de 400 fãs que aguardavam na fila começaram a trocar xingamentos com os militantes e os dois grupos entraram em confronto. Dentro da igreja, Anna von Hausswolff, que se preparava para entrar em cena, afirma que ficou aterrorizada com os gritos vindos de fora e, "para proteger todo mundo", resolveu cancelar a apresentação.

O empresário da artista considerou a atitude dos manifestantes como "uma aberração". Ao jornal Libération, ele explicou que Anna von Hausswolff se apresenta em igrejas há mais de dez anos, já que seu trabalho é centrado na espiritualidade. Seu último álbum, "All Thoughts Fly", foi inclusive gravado em uma célebre catedral de Gotemburgo, cidade natal da artista. Para ele, "as acusações de satanismo são uma tática misógina típica dos fiéis contra artistas mulheres". 

Uma tática que parece ter dado certo. Um recital de Anna von Hausswolff, que deveria ser realizado nesta quinta-feira na igreja Saint-Eustache, em Paris, também foi cancelado por pressão de militantes integristas. 

Católicos da extrema direita

Segundo o Libération, a França conta hoje com entre 50 mil e 70 mil fiéis ultracatólicos, muitos deles ligados a movimentos de extrema direita e avessos à tentativa do Papa Francisco de modernizar a Igreja. "A galáxia tradicional e conservadora, minoritária, sabe orquestrar sua visibilidade", diz o jornal. 

Em um editorial intitulado de "Delírio", Libération lembra que essa não é a primeira vez que militantes ultracatólicos censuram um espetáculo na França. No entanto, o jornal avalia que o contexto político atual é "altamente inflamável", com a ascensão de uma extrema direita ultrarradical, representada pelo candidato à presidência Eric Zemmour.

Por isso, para o jornal, será necessário manter a vigilância em um momento em que representantes políticos se mostram receptivos a reivindicações identitárias e tradicionalistas cristãs.