PUBLICIDADE
Topo

Energia nuclear passa de vilã a mocinha do clima, em nome de metas ambientais

28/01/2022 10h37

Uma antiga vilã dos ecologistas agora interpreta o papel de mocinha: a energia nuclear volta com força nos projetos dos países desenvolvidos, desde que a crise energética encareceu os preços da eletricidade mundo afora. As usinas nucleares aparecem como a única alternativa capaz de produzir eletricidade em massa e não comprometer os compromissos de redução de emissões de efeito estufa e descarbonização da economia, até meados do século.

Uma antiga vilã dos ecologistas agora interpreta o papel de mocinha: a energia nuclear volta com força nos projetos dos países desenvolvidos, desde que a crise energética encareceu os preços da eletricidade mundo afora. As usinas nucleares aparecem como a única alternativa capaz de produzir eletricidade em massa e não comprometer os compromissos de redução de emissões de efeito estufa e descarbonização da economia, até meados do século.

O argumento é tentador: elas emitem 15 vezes menos CO2 que as centrais a carvão, as mais poluentes, colocando-se ao lado de fontes renováveis como as eólicas e fotovoltaicas. Além disso, resultam em preços mais baixos da energia elétrica para os consumidores - na França, onde 70% da matriz é nuclear, a luz é uma das mais baratas da Europa.

Num contexto de explosão da demanda mundial pela retomada econômica da pandemia, os países desenvolvidos e grandes emergentes, como a China e a Índia, aceleram os projetos de ampliação do parque energético, com um lugar de destaque para as usinas nucleares. O objetivo número 1, fixado na última Conferência do Clima da ONU, em Glasgow, é sair definitivamente do carvão.

"A União Europeia discute atualmente que investimentos em energias diversas devem ser financiados até 2045. Acho que o debate não deveria se concentrar em ser investimento verde ou não, mas sim se é de baixo carbono ou não", explica Cécile Maisonneuve, especialista em energias do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri) e pesquisadora sênior do Instituto Montaigne, de Paris. "Um relatório científico da Comissão Europeia mostrou claramente que a energia nuclear não só é benéfica do ponto de vista de CO2, como em outros aspectos ambientais. Ela é comparável inclusive com as renováveis."

Limites das renováveis

Por mais louváveis que sejam do ponto de vista ambiental, as energias renováveis se mostram insuficientes para suprir a demanda e ainda dependem de condições meteorológicas favoráveis, um desafio de peso nos países do Norte.

"Percebemos que a política energética na Europa está fracassando. O abastecimento está problemático, porque não há gás suficiente, não houve ventos o bastante para alimentar as usinas eólicas, e os preços dispararam", contextualiza a especialista do Ifri. "Precisaremos utilizar todas as produções de baixo carbono, incluindo as renováveis, claro. Mas quando não tem nem vento, nem sol, é essencial contar com outras centrais - só que elas não podem mais ser a carvão, como fazem a maioria dos países, porque elas são muito emissoras de CO2."

A especialista é categórica: o ideal de 100% renováveis, almejado pela maior parte dos ecologistas, só seria possível num cenário de queda drástica do consumo e da industrialização - o que implicaria em outros problemas, como dependência externa. "Ao mesmo tempo, a verdade é que estamos aumentando o uso de eletricidade. Trocar veículos a combustível por elétricos implica em aumentar muito o nosso consumo de luz", comenta Maisonneuve.

Riscos da energia nuclear

Para os ecologistas, o grande problema é que persistem as mesmas preocupações que surgiram com as usinas nucleares, há mais de 60 anos: o que fazer com o lixo radioativo que elas rejeitam? Como eliminar o risco de acidente nuclear, capaz de tirar do mapa uma cidade inteira?

Esses dois eixos sedimentaram a base dos partidos ecologistas e as organizações ambientais, como o Greenpeace. "Todos os partidos ecologistas na Europa e nos Estados Unidos se construíram no movimento antinuclear. Está no DNA deles", relembra Maisonneuve. "Esse tempo todo havia uma oposição intrínseca entre ecologia e nuclear. Hoje, não é mais o caso por causa do desafio de queda de emissões que nós nos colocamos até 2050. A emergência do combate às mudanças climáticas forjou a reconciliação entre nuclear a ecologia."

Depois do acidente na central de Fukushima, em 2011, no Japão, ocorrido 25 anos após o de Chernobyl, a pressão cresceu para o desmantelamento dessas usinas mundo afora. As mais antigas foram subitamente condenadas a fechar, e a Alemanha acelerou o fim progressivo das centrais no país, previsto para ser concluído neste ano.

Berlim, no entanto, se mostra uma exceção no bloco. A tendência de construção de "miniusinas" visa diminuir o risco de catástrofes e será a alternativa para modernizar países altamente dependentes do carvão, como Polônia e Romênia.

A solução técnica para dejetos já existe, ressalta Maisonneuve - mas o enterro em fossas profundas do material radioativo é politicamente delicado para os governantes. Os críticos argumentam que o risco zero não existe: mesmo a 500 metros sob a superfície, o material poderia submergir em caso de graves inundações, incêndios ou ataques externos, como numa guerra.

Enquanto isso, as pesquisas científicas continuam para limitar ainda mais os riscos, com os reatores de quarta geração, que emitem pouco lixo radioativo e podem ser alimentadas com os dejetos nucleares das usinas mais antigas.