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Jantar de gala em Paris para comemorar Independência do Brasil gera indignação

Embaixada do Brasil em Paris - Celeste/Wikimedia Commons
Embaixada do Brasil em Paris Imagem: Celeste/Wikimedia Commons

13/05/2022 16h57

No início da noite desta sexta-feira (13), uma centena de franceses e brasileiros se reuniram em uma noite de gala Hotel InterContinental de Paris para celebrar o bicentenário da Independência do Brasil com um jantar de adesão que custou 210 euros (cerca de R$ 1.110) por pessoa. Membros do grupo Alerta França Brasil foram protestar e entregaram uma carta ao embaixador do Brasil na França.   

No início da noite desta sexta-feira (13), uma centena de franceses e brasileiros se reuniram em uma noite de gala Hotel InterContinental de Paris para celebrar o bicentenário da Independência do Brasil com um jantar de adesão que custou 210 euros (cerca de R$ 1.110) por pessoa. Membros do grupo Alerta França Brasil foram protestar e entregaram uma carta ao embaixador do Brasil na França.

O convite era claro: "Noite de Gala Franco-Brasileira por Ocasião do Bicentenário da Independência do Brasil, sob o patrocínio de Luiz Fernando Serra, embaixador do Brasil na França..." e a ele se seguiam nomes de nobres franceses, das associações Liens Hors Frontières (algo como Laços sem Fronteiras) e Le Lys de France (Lírio da França, sendo que o lírio é um símbolo da monarquia francesa).

Apesar disso, o embaixador Luiz Fernando Serra disse à RFI não ser anfitrião do evento: "Ontem comemoramos o bicentenário da Independência com um concerto na Embaixada. Hoje, estamos comemorando com este jantar de gala, que é uma iniciativa da associação Liens Hors Frontières. Eu sou convidado. Eu sou o único que não paga o jantar aqui. Não é minha iniciativa — é por ocasião do bicentenário — e não tem dinheiro público envolvido aqui", frisou o embaixador.

Dois membros do pequeno grupo que protestava pacificamente em frente ao hotel conseguiram ter acesso ao salão Opéra, onde aconteceu o coquetel, primeira etapa da noite de gala, ao som de bossa nova.

A responsável por questões da América Latina para o Parti de Gauche (Partido de Esquerda) francês, Florence Poznanski, foi uma das que conseguiu entrar por alguns minutos na festa privada e teve acesso ao embaixador, junto com a historiadora Marcia Camargos, do Alerta França Brasil. Elas entregaram ao embaixador um envelope com uma carta aberta que questionava a iniciativa e mostrava as contradições deste jantar de mais de mil reais com "o desemprego, a fome, a miséria que grassam sob a gestão de seu chefe".

Elas questionaram o embaixador sobre o porquê de se comemorar o bicentenário da Independência (em 7 de setembro de 1822) no dia da Abolição da Escravatura (Com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888) em uma festa em que só havia pessoas brancas.

Ao ser questionado por Florence o porquê de não haver afrodescendentes no salão nobre, Serra disse que só uma pessoa poderia ser convidada: "Eu sou o embaixador do Brasil, não de uma raça. A escolha foi deles, eles não sabiam que era o dia da Abolição da Escravatura, mas é mais um dia para festejar", disse Luiz Fernando Serra.

"A senhora venha da próxima vez com um afrodescendente. Venha à Embaixada e vamos conversar sobre isso, mas venha com um afrodescendente. Não sei se a senhora sabe, mas o meu bisavô foi abolicionista", encerrou Serra.

Após saírem do salão, elas deram entrevistas à RFI para explicar o ato.

"Minha presença aqui é pela indignação de como se reproduzem as opressões a partir da ignorância e do desprezo. Nós podemos até acreditar que a escolha do dia 13 de maio foi por acaso, pois trata-se de uma festa comercial, mas, se for isso, é lamentável. Inclusive porque o embaixador, que representa a República brasileira, não pode desconhecer a importância desta data", explicou Florence.

"Além disso, convidar pessoas brancas unicamente e depois dizer que infelizmente os negros não puderam pagar porque o valor é muito alto e só ele poderia ser convidado é um desprezo muito grande com a maneira como se deve pensar a cidadania. E a gente vê muito bem neste governo Bolsonaro como esse racismo estrutural se reproduz através dessas ações. Nosso papel aqui é levantar essa voz. Temos que continuar porque estamos às vésperas de uma eleição super importante no Brasil e temos que elevar a voz dessas pessoas que foram oprimidas durante os quatro anos de governo Bolsonaro", concluiu.

A historiadora Marcia Camargos, do Alerta França Brasil, questionou o que tinham a comemorar com a situação do Brasil e por que comemorar o bicentenário, quatro meses antes, justamente no dia da Abolição. "Ele me falou que era uma ótima coincidência, pois hoje é uma data festiva, o Dia da Abolição. Eu perguntei se o dia mais importante para os negros não seria o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, e ele disse que não, que a princesa isabel era uma figura histórica de muito mais importância que Zumbi dos Palmares", relatou, após ter falado com o embaixador.

"Evidentemente era uma festa de brancos, da elite e da aristocracia. Em resumo, foi uma festa de brancos e nobres celebrando o bicentenário da Independência quatro meses antes, no dia 13 de maio. Eu tive a oportunidade de entregar em mãos a carta com estes questionamentos", disse Marcia.

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