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Novo Parlamento libanês deverá refletir polarização entre Forças Libanesas cristãs e Hezbollah

16/05/2022 06h45

O Líbano acorda nesta segunda-feira (16) em plena "ressaca eleitoral", com uma taxa de participação menor do que a esperada até o momento, que teria caído de 48,68% em 2018 para 41% nestas eleições de 2022, segundo o Ministério do Interior do Líbano. Esses resultados podem ter alteração, porque não se sabe ainda se esse número inclui o voto dos expatriados - a diáspora libanesa pelo mundo.

O Líbano acorda nesta segunda-feira (16) em plena "ressaca eleitoral", com uma taxa de participação menor do que a esperada até o momento, que teria caído de 48,68% em 2018 para 41% nestas eleições de 2022, segundo o Ministério do Interior do Líbano. Esses resultados podem ter alteração, porque não se sabe ainda se esse número inclui o voto dos expatriados - a diáspora libanesa pelo mundo.

Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Líbano

Os resultados ainda são aproximativos, mas trazem algumas estimativas, como o forte avanço da oposição contra o campo do atual presidente Michel Aoun e uma possível perda da maioria ligada ao Hezbollah no Parlamento libanês, lembrando que o católico maronita Aoun é justamente criticado dentro de sua própria comunidade por ter se aliado ao Hezbollah para governar.

Essa é, aliás, uma das grandes questões dessa eleição, que polarizou os eleitores e o debate político deste pleito. Não se sabe ainda se essa milícia ligada ao Irã manterá sua influência, mas uma coisa é certa: o Movimento Patriótico Livre, do presidente Michel Aoun, registrou um forte declínio em nível nacional e as Forças Libanesas, tradicional partido cristão de oposição, muito respeitado e forjado durante a guerra civil libanesa, parece ter levado, desta vez, vários assentos no Parlamento libanês, num comparativo com 2018.

O voto pelas Forças Libanesas é também e sobretudo um voto de protesto contra o Hezbollah. A reportagem conversou com pessoas em Beirute que disseram que teriam preferido votar em candidatos independentes com propostas mais progressistas, mas que na última hora optaram pela tão sonhada estabilidade da tradição e pela garantia de um voto anti-Hezbollah.

Abstenção

Levando-se em conta o contexto libanês, com a crise que atinge o Líbano desde 2019, a revolta de 17 de outubro que tomou as ruas e a dupla explosão no porto de Beirute, a participação parece não apenas baixa, mas especialmente decepcionante. A RFI conversou durante a apuração com dois representantes de legendas de oposição, o candidato ecologista independente Ziad Abi Chaker, que não escondia a decepção com a abstenção, e o influente Pierre Issa, líder do partido centrista de oposição Bloco Nacional, que avaliava, no domingo, que o custo dos transportes e alguns conflitos com o Hezbollah poderiam ter espantado a população.

Cerca de 3,9 milhões de libaneses foram chamados às urnas no domingo, e nem metade pode ter comparecido para expressar a tão propagandeada revolta popular contra a corrupção e a classe política libanesa. Isso tem raízes históricas no Líbano, que nunca contou com uma forte participação nas eleições - tendo chegado a 55% em 2009.

Outra razão para essa pontuação baixa de 41% é sobretudo porque a lista de eleitores registrados não é atualizada de uma eleição para outra, o que acaba incluindo muitas pessoas que deixaram o Líbano por uma ou mais gerações, ou mesmo pessoas mortas. Ou seja, se a lista fosse atualizada, a taxa de participação provavelmente seria maior do que os números oficiais indicam.

O segundo dado a se levar em conta é que a afluência dos eleitores é, em média, mais ou menos parecida com a de 2018, com exceção das regiões onde a comunidade muçulmana sunita é majoritária. Nestas, a participação eleitoral está em declínio acentuado provavelmente devido ao abandono do ex-primeiro-ministro Saad Hariri da cena política e de seu apelo para boicotar as eleições. Uma chamada que, ao que tudo indica, foi parcialmente ouvida, principalmente em Trípoli, a segunda maior e a mais pobre cidade do país, um centro de dominância sunita que até a meia-noite de ontem não registrava nem 30% de participação nas urnas.

Bom para a oposição do Bloco Nacional de Pierre Issa, que, pela primeira vez, desde 1972, terá um deputado no Parlamento Libanês, eleito justamente pelo vácuo deixado pelos sunitas de Hariri na região. Trípoli deve ter uma das maiores taxas de abstenção do Libano, quase 60% da população não saiu de casa para votar.

O que dizem os primeiros resultados

Essas primeiras estimações das eleições legislativas libanesas de 2022 sinalizam a volta de uma forte polarização, porque os resultados parciais dão a impressão de que o próximo Parlamento libanês será essencialmente composto por dois blocos, um liderado pelo Hezbollah e seus aliados, o outro pelas Forças Libanesas cristãs e seus aliados.

Olhando o detalhe, no entanto, a situação parece um pouco diferente porque não apenas o Hezbollah provavelmente perderá sua maioria e as Forças Libanesas se tornarão o principal partido cristão, derrotando o partido do atual presidente Michel Aoun, mas, acima de tudo, os ventos da mudança parecem ter feito várias incursões em todo o país.

Acima de tudo, é a primeira vez desde 1992 que as milícias Hezbollah-Amal não obtiveram todos os assentos em um distrito eleitoral do Sul, que tradicionalmente é integralmente conquistado pelas milícias pro-Irã. Se somarmos à pontuação das forças de protesto a dos deputados independentes que foram reeleitos e a dos Kataëb, isso deve resultar em pelo menos 15 deputados. Formarão eles um bloco unido? Esta será uma das grandes questões do próximo Parlamento libanês, que promete ser bastante fragmentado.