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Guerra da Rússia-Ucrânia

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Conteúdo publicado há
1 mês

'Por que Putin faz isso?': moradores de Kharkiv vivem há quase três meses em metrô

25.fev.2022 - Pessoas se abrigam em estação de metrô em Kiev, na capital da Ucrânia - Xinhua/Lu Jinbo
25.fev.2022 - Pessoas se abrigam em estação de metrô em Kiev, na capital da Ucrânia Imagem: Xinhua/Lu Jinbo

Murielle Paradon e Sami Boukhelifa

Enviados especiais da RFI a Kharkiv

18/05/2022 16h21Atualizada em 19/05/2022 07h11

A situação segue tensa em Kharviv, segunda maior cidade da Ucrânia. Mesmo se os bombardeios das forças russas diminuíram, os moradores, que tiveram suas casas destruídas, vivem em refúgios subterrâneos improvisados, inclusive em estações de metrô, e dependem totalmente se ajuda humanitária.

Diante da resistência das forças de Kiev, desde o início da semana os russos estariam transferindo suas tropas dos arredores de Kharkiv para Lugansk, mais ao norte, segundo um conselheiro da presidência ucraniana. Mas isso não significa que a situação melhorou para os moradores.

Desde o início da guerra, que já se aproxima do seu terceiro mês, um terço da população de Kharkiv já deixou essa cidade do leste do país. E os que ficaram vivem em condições de extrema precariedade.

Sentada em um colchão no chão, Elena, 49 anos, chora agarrada a um cachorro enquanto assiste a um vídeo de sua família na tela do celular. Essa ucraniana conta que está celebrando seu aniversário longe dos filhos, que deixaram o país. Já seus próprios pais ficaram bloqueados em um vilarejo que segue ocupado pelos russos, e por isso ela não deixa a Ucrânia. "Eu não posso abandonar meus pais. Isso não seria justo. Estarei feliz apenas quando estivermos todos reunidos", diz.

Ela faz parte das centenas de pessoas que vivem atualmente dentro de uma estação de metrô da cidade, que de acampamento provisório já está se tornando a residência para alguns. "Não temos mais casa. Tudo foi queimado. E como não temos mais trabalho, estamos sem dinheiro para alugar outra moradia", resume uma das "vizinhas" de Elena, com quem divide um pedaço da plataforma do metrô, em meio a um amontoado de colchões, cobertores e sacolas.

"Aqui é muito barulhento. Tem muita gente e não tem ar suficiente", reclama Zoya, uma senhora de 75 anos, que há quase três meses vive no subterrâneo. Doente, ela finalmente decidiu voltar para casa, mesmo se seu apartamento não tem mais janelas. "Gostaria de perguntar a Putin: por que ele está fazendo isso conosco", desabafa, enquanto reúne seus pertences.

Horas esperando distribuição de ajuda alimentar

Os raros momentos em que esses moradores do metrô saem do refúgio é para buscar comida. Centenas, eles aguardam durante horas diante de um centro de distribuição de alimentos.

Após uma manhã inteira esperando, Anne, 73 anos, finalmente recebe um pacote entregue por voluntários. "Tem quatro latas de ensopado de carne em conserva, duas de leite concentrado, um quilo de açúcar, um quilo de arroz, um quilo de macarrão, um pacote de chá e um pacote de trigo", lista a moradora. Em seguida, o voluntário desenha uma cruz em sua mão, como prova que ela já recebeu o seu pacote. "Eu trabalhei a vida inteira. Devo ter trabalhado uns 50 anos e me aposentei", conta a moradora, como se tentasse entender a situação na qual se encontra. "Agora estou aqui porque tudo no meu bairro foi destruído. Não tem mais lojas, mercados ou farmácias", relata.

Do centro de distribuição de alimentos é possível ouvir as bombas explodindo, mesmo se ninguém na fila reage, habituados às deflagrações que pontuam o dia. Na fila, como nos refúgios, a maioria é idosa e diz não ter muita escolha, por isso continua em Kharkiv. "É preciso dinheiro para fugir e encontrar um refúgio na Europa", lança Valentina. "Então é melhor ficar aqui", desabafa a idosa, antes de abraçar seu pacote de comida e voltar para seu refúgio junto com marido.