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Relatório alerta para aquecimento do planeta e aponta que buraco na camada de ozônio já está do tamanho da África

18/05/2022 12h55

Em 2021, a temperatura do planeta ficou em 1,1°C a mais do que a média do período pré-industrial. Mesmo sem ter batido o recorde de 2016, esse foi um dos anos mais quentes já registrados e o desempenho de outros indicadores-chave das mudanças climáticas alcançaram níveis históricos, de acordo com um relatório divulgado nesta quarta-feira (18) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). A entidade reforça o alerta de que o sistema energético global está levando a humanidade para uma catástrofe e destaca responsabilidade do Brasil.

Em 2021, a temperatura do planeta ficou em 1,1°C a mais do que a média do período pré-industrial. Mesmo sem ter batido o recorde de 2016, esse foi um dos anos mais quentes já registrados e o desempenho de outros indicadores-chave das mudanças climáticas alcançaram níveis históricos, de acordo com um relatório divulgado nesta quarta-feira (18) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). A entidade reforça o alerta de que o sistema energético global está levando a humanidade para uma catástrofe e destaca responsabilidade do Brasil.

A OMM demonstrou que a atividade humana provocou mudanças em escala planetária, nos oceanos e na atmosfera, com consequências nefastas e duradouras para os ecossistemas. A concentração de gases de efeito estufa, o aumento do nível do mar, a temperatura e a acidificação dos oceanos "registraram valores sem precedentes" no ano passado, afirma o documento intitulado "Estado do Clima Global em 2021".

A guerra na Ucrânia "pode ter ofuscado a crise climática", mas ela "continua sendo o maior desafio da humanidade", com eventos extremos cada vez mais frequentes, alertou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

O relatório científico confirma que os últimos sete anos foram os mais quentes da história, de acordo com os registros disponíveis. "O calor retido na atmosfera pelos gases de efeito estufa de origem humana aquecerá o planeta durante muitas gerações", completou Taalas.

Brasil tem papel importante

Na apresentação do relatório das Nações Unidas sobre o clima em 2021, recheado de dados considerados alarmantes, a entidade pediu ao governo brasileiro para interromper o desmatamento da Amazônia.

Petteri Taalas destacou que "o desmatamento na região tem tido um grande impacto sobre o clima" e que "somado a outras emissões vindas da América Latina, tem uma grande contribuição".

O dirigente da agência da ONU explica que o desmatamento nas áreas de floresta "ocorre para produção de ração para o gado e que essa cultura de consumo de carne também colabora para o problema". Em consequência de tais práticas, "a Amazônia, que costumava ser um grande sumidouro de carbono, passa a ser uma fonte de emissões de carbono".

O relatório aponta a ocorrência de chuvas acima da média no primeiro semestre de 2021 em regiões da América do Sul, em particular na bacia norte da Amazônia, resultando em enchentes intensas e de longa duração. O rio Negro, em Manaus, atingiu o seu nível mais alto, de 30,02 metros, em 20 de junho do ano passado.

Da mesma forma, a seca afetou parte da América do Sul pelo segundo ano consecutivo. As chuvas ficaram abaixo da média nas regiões centro e sul do Brasil, no Paraguai, no Uruguai e no norte da Argentina, aponta o documento da OMM.

Acordo de Paris

O Acordo de Paris, assinado em 2015 na capital francesa para conter os efeitos das mudanças climáticas, pretende limitar o aumento da temperatura do planeta a +1,5°C, na comparação com a era pré-industrial. "Seguimos, agora, para um aquecimento de 2,5 a 3 graus, ao invés de 1,5", alerta Taalas. "O aumento do nível do mar, a acidificação dos oceanos e o aumento de sua temperatura continuarão durante séculos, a menos que sejam inventados mecanismos para eliminar o carbono da atmosfera", acrescentou o secretário-geral da OMM.

La Niña tem efeitos relativos

"Estamos num quadro climático que continuamente bate recordes", destacou, em entrevista àRFI, Omar Baddour, chefe do escritório de monitoramento climático da Organização Meteorológica Mundial. "Houve um resfriamento provisório das águas do Pacífico equatorial e de grande parte do hemisfério Sul. Isso levou a temperaturas mais baixas do que em 2020," explica. Porém, mesmo se o fenômeno meteorológico La Niña, no início e fim de 2021, teve um efeito de resfriamento das temperaturas do planeta no ano passado, 2021 ainda foi um dos anos mais quentes até hoje.

De acordo com especialista, clima mais quente significa, também, eventos extremos mais frequentes, como secas, ondas de calor, inundações e furacões. Baddour destaca a ocorrência de um evento climático sem precedentes na Groenlândia, em 2021. "No mês de agosto, no verão, a estação meteorológica mais alta da Groenlândia, instalada no topo de uma geleira de 3.216 metros, registrou chuvas pela primeira vez", diz.

Vítimas do aquecimento global, as geleiras estão derretendo cada vez mais rápido e escorrendo para os oceanos, cujas águas estão subindo a uma velocidade nunca vista: meio centímetro por ano.

Consequências em cascata

Entre as quatro "mensagens cruciais" em termos de indicadores climáticos está a concentração de gases do efeito estufa, que atingiu um novo recorde mundial em 2020, com 413,2 partes de dióxido de carbono (CO2) por milhão (ppm) no mundo, ou seja, 149% a mais que o nível pré-industrial.

Os dados indicam que a alta prosseguiu em 2021 e no início de 2022, com uma concentração média mensal de CO2 em Mona Loa, no Havaí, que alcançou 416,45 ppm em abril de 2020, 419,05 ppm em abril de 2021 e 420,23 ppm em abril de 2022.

O nível médio do mar em escala mundial alcançou um novo recorde em 2021, depois de aumentar a uma média de 4,5 milímetros por ano, durante o período 2013-2021. "Este número, que é mais do que o dobro registrado entre 1993-2002, deve-se, principalmente, a uma perda de massa mais rápida das geleiras", indica o documento.

A temperatura dos oceanos também atingiu um nível recorde no ano passado e o calor "está penetrando em águas cada vez mais profundas". "A camada superior dos oceanos, até 2.000 metros de profundidade, continuou aquecendo em 2021 e tudo indica que isto continuará no futuro [com] uma mudança irreversível em escalas de tempo de centenas a milhares de anos", afirma o relatório da OMM.

"Por enquanto, os oceanos ainda cumprem o seu papel de absorver os gases de efeito estufa emitidos pelo homem", observa Omar Baddour, da OMM. Eles absorvem quase 23% das emissões anuais de CO2 de origem humana e que se acumulam na atmosfera. Embora isso desacelere o aumento das concentrações atmosféricas de gás carbônico, o CO2 reage com a água do mar e leva à acidificação dos oceanos, afirma Baddour, "em detrimento da qualidade da água e com prejuízo da biodiversidade marinha".

O relatório do OMM ainda indica que o buraco na camada de ozônio sobre a Antártida aumentou, atingindo 24,8 milhões de km2, uma superfície equivalente ao tamanho da África.

"Transformação energética pode ser projeto de paz do século XXI"

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, o relatório é uma "confirmação sombria do fracasso da humanidade em enfrentar as mudanças climáticas". Guterres advertiu que o mundo se aproxima cada vez mais de uma "catástrofe climática" devido a um "sistema energético mundial" falido.

Ele pediu a adoção de medidas urgentes para uma transição energética que tire a humanidade do "beco sem saída" que os combustíveis fósseis representam. António Guterres propôs ações para estimular o desenvolvimento de energias renováveis, como estímulos ao amplo acesso à tecnologias e materiais ecológicos, triplicar os investimentos privados e públicos em energias verdes e acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis. "Se agirmos juntos, a transformação das energias renováveis pode ser o projeto de paz do século XXI", concluiu Guterres.

Enquanto isso não acontece, ondas de calor intenso se tornam mais frequentes. Como os 54,4 graus registrados na Califórnia, em 9 de julho de 2021, algo que não ocorria desde a década de 1930. Terríveis inundações - na Europa Central e na Alemanha, em particular - que causaram mais de US$ 20 bilhões em danos; furacões, como o Ida, que atingiu a Louisiana, em agosto passado deixando US$ 75 bilhões de prejuízo, continuarão a se repetir.

Finalmente, há as secas que afetaram muitas regiões do mundo: Canadá, Estados Unidos, Irã, Afeganistão e Turquia. O nordeste da África e Madagascar, em particular, são atingidos por uma seca intensa há quase dois anos, com efeitos devastadores sobre a segurança alimentar. A OMM e a Agência da ONU para a Agricultura estimam que mais de um milhão de pessoas precisam de assistência urgente.

Eventos climáticos extremos também levam muitas pessoas a se lançarem em rotas de migração. O número de pessoas deslocadas por causa do clima já soma milhões, escreve a OMM, principalmente na Ásia, após tempestades tropicais e inundações, mas também na África, Sudão, Etiópia e Níger.

Com informações da RFI e AFP