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Montagem feminista de "Escola de Mulheres" festeja 400 anos de Molière no Brasil

26/05/2022 10h37

Ao contrário da França, que celebra os 400 anos de Molière com uma profusão de montagens, no Brasil a presença do dramaturgo francês nos palcos brasileiros em 2022 é acanhada. A adaptação feminista de "Escola de Mulheres", de Clara Carvalho, foi a única a estrear em São Paulo no dia 15 de janeiro, dia de nascimento de Jean-Baptiste Poquelin, conhecido como Molière.

Ao contrário da França, que celebra os 400 anos de Molière com uma profusão de montagens, no Brasil a presença do dramaturgo francês nos palcos brasileiros em 2022 é acanhada. A adaptação feminista de "Escola de Mulheres", de Clara Carvalho, foi a única a estrear em São Paulo no dia 15 de janeiro, dia de nascimento de Jean-Baptiste Poquelin, conhecido como Molière.

"Escola de Mulheres" foi encenada durante mais de dois meses no Teatro da Aliança Francesa. Talvez tenha sido a primeira comédia a entrar em cartaz depois da pandemia e atraiu um bom público.

Clara Carvalho assina a direção, a tradução e a adaptação. Ela quis fazer uma versão completamente diferente de montagens antigas, como a protagonizada por Jorge Dória em 1984, "muito divertida, mas com um personagem que humilhava os outros, a mulher era muito humilhada, tinha muito palavrão grosseiro, chamava de 'veado', coisa que a sensibilidade da gente não absorve mais".

A diretora quis então fazer, para comemorar os 400 anos de Molière, uma versão feminina de "Escola de Mulheres": "Eu tentei colocar a mulher como vértice de protagonismo na peça. A Inês como o personagem que tem uma transformação. Ela saca em 24 horas tudo que foi feito da vida dela, que ela foi criada para ser uma idiota e no final, como sempre para Molière, o amor triunfa. Ela consegue driblar o bufão que é o Arnolfo."

Clara Carvalho, que idealizou a peça com os atores Ariel Cannal e Brian Penido Ross, ressalta que não mudou nada no texto do dramaturgo francês, que "cria vilões masculinos patológicos com os quais a gente se identifica muito, ri muito. Mas eles são satirizados de uma maneira tão demolidora (que) acho que ele é simpático às mulheres".

Cupido em cena

A diretora tomou a liberdade de introduzir um personagem que não existe no texto original, um cupido ou Eros, que circula pelo palco o tempo inteiro, mas não tem fala. "Eu me senti à vontade para fazer isso. Ele (cupido) acompanha a trama, como se inspirasse e abrisse os caminhos para as coisas acontecerem. É um espírito como os espíritos do Shakespeare. O Molière acolhe muito bem essa dimensão invisível, mas muito potente", comenta.

Ela teve desejo de ir além na sua intervenção feminista, mas não teve coragem, pelo menos dessa vez. "Ainda tem um final romântico, né? Que já era uma transgressão porque ela rompe com o mundo patriarcal e termina com a pessoa que ela escolheu. Mas eu tinha vontade de experimentar, dar um passo a mais, talvez uma Inês que aparecesse no fim de jeans e camiseta e nem ficasse mais com o Horácio, que fosse embora sozinha", sonha.

Clara espera ter a coragem de montar esse final em uma próxima temporada. Antes disso, pretende encenar, ainda este ano, "Crítica à Escola de Mulheres", que Molière escreveu em 1663 para responder a todas as "agressões que sofreu" após a estreia de muito sucesso popular da "Escola de Mulheres".

Presença acanhada nos palcos brasileiros

Como explicar que até agora a "Escola de Mulheres" tenha sido a única montagem profissional a estrear nos palcos brasileiros neste ano de comemoração dos 400 anos de Molière? "Não sei por que não se montaram mais peças dele esse ano. A gente vem desses dois anos, desse inferno, dessa obscuridade em todos os sentidos. Isso aqui é tão solar. Ele é um cara tão sensacional. Eu adoro o Molière", questiona Clara Carvalho.

O professor de teatro do Lycée Molière do Rio de Janeiro, Laurent Desbois, acha que o dramaturgo não é tão conhecido no país como antigamente. "Molière passou um pouco de moda", acredita Desbois.

João Roberto Faria, professor titular da USP e um dos maiores especialistas de teatro do Brasil, acha que "o prestígio da cultura francesa no Brasil diminuiu muito" e que nem sabe se hoje "temos o predomínio de alguma cultura estrangeira". Ele teme que não haja um evento significativo para marcar os 400 anos de Molière no país: "a cultura está num patamar tão baixo de um modo geral que receio que não tenha nenhuma manifestação cultural importante que sirva de parâmetro."

A tradutora e professora de teatro, Angela Leite Lopes, elenca as consequências da pandemia, o ano eleitoral, a falta de apoio oficial à cultura, e concorda com a perda de espaço da França no país. "Parece um contrassenso, mas o Brasil está num momento de uma riqueza cultural muito grande, não à toa temos esse retrocesso político tão forte. Nós estamos num momento em que todas as linhagens culturais brasileiras estão reivindicando seu lugar. A gente está num momento muito rico de reafirmação de uma identidade que durante muito tempo ficou num diálogo privilegiado com a Europa e com o mundo ocidental", analisa.

Já o professor de teatro da Universidade Federal do Paraná, Walter Lima Torres Neto, acha que essa pouca visibilidade nesse ano de efeméride se deve a uma falta de "ousadia, risco e impertinência" dos encenadores brasileiros para atualizar Molière. "A ausência desses agentes criativos que promovam essa leitura crítica e atualizada do Molière faz com que ele não esteja em cena e haja uma orientação muito mais no sentido da dinâmica de um teatro de grupo que é o se faz hoje no Brasil, grupos que se dedicam a temáticas de raça, cor e gênero, opressões presentes na sociedade brasileira", pontua Walter Torres Lima Neto.