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Turquia recebe delegação da União Europeia em meio a ameaças contra Síria

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan - Adem Altan/AFP
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan Imagem: Adem Altan/AFP

Fernanda Castelhani

31/05/2022 07h33

A Turquia recebe, nesta terça-feira (31), uma delegação da União Europeia para tratar da mediação do governo de Ancara no conflito entre Rússia e Ucrânia. Também é esperada, no encontro, uma conversa sobre a nova operação militar que o presidente Tayyip Erdogan ameaça iniciar, a qualquer momento, no norte da Síria.

A reunião desta terça-feira em Ancara terá a participação dos vice-ministros das Relações Exteriores do lado turco, Faruk Kaymakçi e Sedat Onal, do alto representante para a Política Externa da União Europeia Enrique Mora, e do diretor-geral interino para as Negociações de Vizinhança e Ampliação da Comissão Europeia, Maciej Popowski.

Além de tratar do importante papel como facilitador nas conversas entre Rússia e Ucrânia, o governo de Ancara vai, claro, pressionar por suas recentes demandas na Organização do Tratado do Atlântico Norte pelo fim de embargos militares, e mesmo retomar a pausada ascensão do país ao bloco europeu.

Mas o novo tópico de discussão levantado pela Turquia, na política internacional, é o plano de atacar o norte da Síria.

O principal argumento turco para a ofensiva militar no país vizinho são os curdos. O presidente Tayyip Erdogan afirmou que, sem aviso prévio, vai iniciar uma operação militar contra as Unidades de Proteção Popular, que é o grupo curdo do lado sírio. Eles controlam atualmente mais de 30% da Síria.

De acordo com Erdogan, o objetivo da nova ofensiva é proteger locais que a Turquia não pôde controlar nas operações militares anteriores no norte da Síria. São áreas, de acordo com as autoridades turcas, que têm sido utilizadas pelos curdos como base para ataques ao Exército turco.

Não é de hoje que o presidente Tayyip Erdogan quer relançar a ofensiva na fronteira. A primeira operação militar foi em 2016 e, desde a última série de ataques, em 2019, ele vem insistindo na necessidade de se expandir uma zona tampão de 30 quilômetros para dentro do território sírio.

Para o governo de Ancara, a operação tem dois objetivos: não só acabar com terroristas da fronteira, referindo-se aos curdos sírios, mas também abrigar parte dos refugiados sírios, hoje em solo turco. Os planos para esta nova operação foram ganhando força nas últimas semanas, quando o pedido de Suécia e Finlândia para ingressar na Otan abriu caminho para a Turquia anunciar sua oposição às candidaturas em nome da sua própria agenda.

Expectativa de consentimento dos EUA e da Rússia

Nas três ofensivas militares que a Turquia liderou no norte da Síria nos últimos seis anos, houve negociação e até desavenças com Estados Unidos e Rússia. Vladimir Putin já foi consultado pelo presidente turco.

Tayyip Erdogan conversou com o presidente russo nesta segunda-feira (30), e disse a Putin, por telefone, que a faixa de segurança na fronteira entre Turquia e Síria faz parte de um acordo assinado em 2019, mas, até hoje, não foi implementada.

A Rússia mantém tropas na Síria e apoia o regime de Damasco. Apesar do suporte a Bachar el-Assad, a posição de Moscou é estratégica para dar respaldo a outro aliado na região, o Irã, além de barrar os avanços do oponente Estados Unidos no Oriente Médio.

E por falar no governo de Washington, tudo indica que o grande foco dessa mais nova manobra de Erdogan é mesmo chamar a Casa Branca para uma visita, uma vez que, com a União Europeia, o encontro desta terça-feira já está garantido.

Mas os Estados Unidos, até agora, não demonstraram nenhum sinal de diálogo direto com a Turquia. Washington até expressou preocupação com a nova ofensiva turca na Síria, mas sabe que precisa do apoio de Tayyip Erdogan para que os países nórdicos ingressem na Otan - criada em 1949 justamente para barrar os avanços do então regime soviético de Moscou. O presidente turco declarou que, se os americanos não estão cumprindo o dever de combater o terrorismo, ele mesmo vai se cuidar.

Refugiados sírios como temática eleitoral

Além do discurso de unidade ameaçada pelos curdos, Tayyip Erdogan está usando a temática dos refugiados para atrair o eleitorado. Não é só a crise econômica, mas o ressentimento contra imigrantes também tem ganhado notoriedade na corrida presidencial.

O recém-fundado Partido da Vitória, liderado pelo conhecido nacionalista Umit Ozdag, fez dos estrangeiros sua principal plataforma política, chamando a presença deles de invasão e de questão de sobrevivência nacional. Em um momento em que a inflação na Turquia mais do que triplicou em questão de meses, essa retórica ressoa em alguns segmentos da sociedade, que veem os estrangeiros como concorrentes na luta por empregos.

São quase 4 milhões de sírios vivendo em território turco. Tanto o governo quanto os partidos da oposição começaram a fazer promessas de enviar os refugiados de volta. O projeto de Erdogan seria retirar os curdos do lado sírio para, no mesmo espaço, realocar árabes sírios - o que já está sendo chamado por organizações humanitárias de limpeza demográfica.

Expandir as áreas de controle na Síria também traz um grande benefício para a Turquia: um novo polo econômico. O plano inclui, além de moradias, zonas industriais, escolas e hospitais. Mas muitos analistas veem esse projeto mais como uma cartada eleitoreira do que como uma política viável, não só pelo impacto no deslocamento, nem pela chegada de refugiados, que não aceitariam voluntariamente voltar, mas pela segurança da própria Turquia na fronteira.

De qualquer maneira, a alavancagem que a Turquia acumulou durante a crise na Ucrânia está sendo usada como moeda de troca em relação à Síria, que já é foco de mais de dez anos de guerra.

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