"América Latina lidera violações de direitos humanos praticadas por empresas", diz educadora

O 12° Fórum das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos foi realizado de 27 a 29 de novembro, em Genebra, na Suíça. A brasileira Gabriele Garcia, fundadora do Instituto Think Twice Brasil de educação para a paz e os direitos humanos, participou das discussões. Ela ressalta que a "América Latina é a região que mais concentra violações de direitos humanos e ambientais praticados por empresas".

O evento da ONU reuniu, durante três dias, centenas de pessoas, representantes de governos, empresas, ONGs, sociedade civil e universidades do mundo inteiro, para discutir as tendências e os desafios das violações dos direitos humanos nas empresas e prevenir seus impactos negativos. "A intenção é seguir discutindo a implementação dos princípios orientadores de empresas e direitos humanos, inicialmente publicados em 2011 e que, desde então, vêm guiando as empresas nas suas práticas corporativas", informa Gabriele Garcia.

Trabalho escravo ou análogo, extração de recursos naturais que degradam o meio ambiente, desmatamento e o uso indevido e não transparente de dados pessoais estão entre as infrações mais frequentes cometidas por empresas.

Ao observar que a América Latina concentra o maior número de violações, a educadora indica que "uma das agendas emergenciais é justamente incluir o sul global nessas discussões, propondo estratégias de implementação que sejam mais eficazes".

Outras prioridades são "a regulamentação da inteligência artificial e seu impacto para a agenda de direitos humanos" e "a atração de mais investimento corporativo para o desenvolvimento de projetos em torno da presença de crianças e adolescentes".

A violência de gênero e étnica também esteve presente de maneira transversal nos painéis do fórum. "Tem se entendido cada vez mais a importância da diversidade, da equidade e da inclusão para garantir que essas mulheres, dentro do setor privado e do mundo corporativo, consigam prosperar mais livres de potenciais abusos e violações de direitos", aponta Gabriele Garcia.

Educação para a paz e os direitos humanos

O "Think Twice Brasil" foi fundado pela brasileira, hoje radicada em Londres, para "promover a educação para paz e direitos humanos como caminho para a reconciliação". Uma das primeiras missões do instituto foi uma viagem de pesquisa sobre desigualdade social e de gênero em 40 países da África, Oriente Médio e Ásia.

O projeto tentou compreender como lideranças comunitárias de regiões de conflito, campos de refugiados, vilarejos rurais ou zonas em situação de vulnerabilidade ou escassez de recursos "enfrentam as violações e propõem alternativas sustentáveis para a promoção da agenda de direitos humanos e para a paz".

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Em Ruanda, pós-genocídio, a pesquisadora identificou uma maior participação das mulheres na reconstrução do país e em cargos de poder. Em Teerã, o Museu para a Paz reúne dados sobre conflitos armados e boas práticas de interrupção da violência, articulando projetos de educação para jovens. Em Israel e na Palestina, conheceu o "Combatentes para a Paz", uma iniciativa educacional que reúne ex-militares israelenses e militantes palestinos.

Baseada nesta experiência, Gabriele Garcia diz que o atual conflito entre Israel e o Hamas revela mais uma vez "algo que não é novo", isto é, a vulnerabilidade das mulheres, crianças e jovens. "A gente tem um dado recente da ONU de que 67% das vítimas nesse conflito são mulheres e crianças. Além disso, tem uma estimativa de que 50 mil mulheres em Gaza estão grávidas", salienta.

Violência de gênero e prevençao de conflitos

Como criar uma "cultura robusta" para prevenir conflitos e guerras como esta na Faixa de Gaza? A solução, "o fio condutor", passa por essa perspectiva de educação para a paz e direitos humanos, aposta a educadora.

Mas para isso, é fundamental mais investimentos na prevenção, como pede a atual campanha internacional "16 Dias de Ativismo contra a Violência de Gênero", iniciada no dia 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e que termina em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

"Nos últimos anos, os 15 maiores bancos europeus investiram mais de US$ 87 bilhões de dólares na indústria armamentista. Em contraponto a isso, menos de 2% das doações globais são direcionadas para organizações lideradas por mulheres ou que trabalham com a temática da equidade de gênero e garantir acesso de meninas e mulheres a espaços de poder", denuncia.

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"Sem dúvida nenhuma, mais investimentos em organizações que sejam lideradas por mulheres e que trabalhem ativamente na agenda de direitos humanos e equidade de gênero é uma forma também de combinar medidas para a prevenção desses conflitos armados", salienta Gabriele Garcia. 

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