Em Genebra, Lula defende taxação de super-ricos e critica concentração de renda

Em discurso de mais de 20 minutos, nesta quinta-feira (13), no fórum da Coalizão para Justiça Social da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, o presidente Lula defendeu a taxação dos super-ricos, criticando a concentração da riqueza nas mãos de poucos. Segundo ele, "nunca antes o mundo teve tantos bilionários".

 

Valéria Maniero, correspondente da RFI em Genebra

"Estamos falando de 3 mil pessoas que detêm quase US$ 15 trilhões em patrimônio. Isso representa a soma dos PIBs do Japão, da Alemanha, da Índia e do Reino Unido. É mais do que se estima ser necessário para os países em desenvolvimento lidarem com a mudança climática", defendeu. 

Segundo ele, "a concentração de renda é tão absurda que alguns indivíduos possuem seus próprios programas espaciais", alfinetando o empresário sul-africano Elon Musk, fundador e diretor do Space X, que tem o objetivo de reduzir os custos de transporte espacial para permitir a colonização do planeta Marte. 

"Não precisamos buscar soluções em Marte. É a Terra que precisa do nosso cuidado", disse o presidente, que foi aplaudido pelo menos cinco vezes durante seu discurso. 

Uma nova globalização de face humana

O presidente afirmou que o crescimento da produtividade não tem sido acompanhado pelo aumento dos salários, o que gera insatisfação e muita polarização.

"Não se pode discutir economia e finanças sem discutir emprego e renda. Precisamos de uma nova globalização, uma globalização de face humana" afirmou dizendo que q justiça social e a luta contra as desigualdades são prioridades da presidência do Brasil do G20

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Lula defendeu que os benefícios da inteligência artificial "cheguem a todos e não  apenas aos mesmos países que sempre ficam com a parte melhor". Do contrário, segundo ele, esta tecnologia "tenderá a reforçar vieses e hierarquias geopolíticas, culturais, sociais e de gênero". 

Ao informar que o Brasil vai trabalhar pela ratificação da emenda de 1986 à Constituição da OIT, que propõe eliminar os assentos permanentes dos países mais industrializados no conselho da organização, Lula foi mais uma vez aplaudido. 

"Não faz sentido apelar aos países em desenvolvimento para que contribuam para a resolução das crises que o mundo enfrenta hoje sem que estejam adequadamente representados nos principais órgãos de governança global. Nossas decisões só terão legitimidade e eficácia se tomadas e implementadas democraticamente", afirmou.

Crise climática

O presidente falou também que as enchentes no sul do Brasil e em outras partes do mundo mostram que "o planeta já não aguenta mais". 

"A crise climática será prioridade da COP 30 que será feita na cidade de Belém em um estado da Amazônia. As florestas tropicais não são santuários para o deleite da elite global. Tampouco podem ser tratadas como depósitos de riquezas a serem exportadas. Debaixo de cada árvore vivem trabalhadoras e trabalhadores que precisam de emprego e renda", disse. 

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O presidente explicou por que aceitou o convite do diretor-geral da OIT, Gilbert Houngbo para copresidir a Coalizão Global para a Justiça Social. "O bem-estar de cada um depende do bem-estar de todos. Como afirmou o papa Francisco, não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza e nem justiça na desigualdade", disse

Lula falou da alta taxa de informalidade, da precarização do trabalho, da contínua queda da renda do trabalho para os menos escolarizados, da falta de espaço no mercado para as novas gerações. 

Segundo ele, o slogan da OIT, "se desejas a paz, cultiva e não permita a injustiça", é ainda mais pertinente hoje, alegando que as guerras na Ucrânia e em Gaza "nos afastam desse ideal".

Ele lembrou que em 2024, quase metade da população mundial participará de processos eleitorais. 

"A democracia e a participação social são essenciais para a conquista de direitos trabalhistas. Sem a democracia, um torneiro mecânico jamais teria chegado à Presidência da República de um país como o Brasil", disse, recebendo aplausos. 

Os ataques à democracia historicamente implicaram à perda de direitos, disse Lula. "Não é mera coincidência que meu país foi investigado por violar normas desta organização durante o governo de meu antecessor", completou

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Encontros em Genebra

Em Genebra, Lula teve reuniões com a presidenta do Conselho Federal da Suíça, Viola Amherd, e com o diretor-geral da OIT, Gilbert Houngbo. 

Quando chegou à ONU para participar do fórum, foi recebido por Houngbo e pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Antes de embarcar para a Itália, onde participa de cúpula do G7, ele se encontrou com o escritor Paulo Coelho para o lançamento de selo comemorativo dos 35 anos do livro "O Alquimista". 

Rússia x Ucrânia: "não faço a defesa do Putin"

Depois de discursar, Lula falou com jornalistas sobre o posicionamento do Brasil na guerra entre Rússia e Ucrânia, afirmando que não faz a defesa do presidente russo Vladimir Putin. 

"O Brasil foi o primeiro país a criticar a Rússia pela invasão de um país. O que eu não faço é ter lado. O meu lado é a paz. O meu lado não é ficar do lado do Zelensky contra o Putin, do lado do Putin contra o Zelensky", disse. "O Brasil tem uma posição definida. Nós estaremos dispostos a participar de qualquer reunião que discuta a paz, se tiver os dois conflitantes na mesa, Rússia e Ucrânia. Senão, não é discutir paz", completou. 

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Lula disse que o Brasil não participou da cúpula na Suíça pela paz na Ucrânia, porque o evento só faria sentido se os dois lados participassem.

"As guerra são feitas por duas nações. Se você quiser encontrar a paz, você tem que colocar os dois num ambiente de negociações. Pra colocar só um lado, você não quer paz. Então, eu disse para a presidente da Suíça que o Brasil tem todo interesse e estamos à disposição", afirmou. 

"Se o Zelensky diz que não tem conversa com o Putin e o Putin diz que não tem conversa com o Zelensky, é que eles estão gostando da guerra. Qualquer solução pacífica mata menos gente, destrói menos e é mais benéfica ao povo", disse.

Votação sobre aborto e defesa de Haddad

Questionado pela RFI Brasil sobre a votação do projeto sobre o aborto na Câmara, ele preferiu não falar sobre o tema. 

"Deixa eu voltar pro Brasil, tomar pé da situação, aí você pergunta e eu falo com você", tergiversou. 

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Lula também disse elogiou o ministro da Fazenda Fernando Haddad, afirmando que era um "extraordinário ministro". 

"Não sei qual é a pressão contra o Haddad. Todo ministro da Fazenda, desde que eu me conheço por gente, vira o centro do debate. O Haddad tentou ajudar os empresários construindo uma alternativa à desoneração feita para aqueles 17 grupos de empresários. Fez uma proposta. Os empresários não quiseram. Agora, você tem uma decisão da Suprema Corte, que vai acontecer", disse.

"Se em 45 dias não houver um acordo sobre compensação, vai acabar a desoneração, que era o que eu queria, por isso que eu vetei naquela época. Agora, a bola não está mais na mão do Haddad, a bola está na mão do Senado e na mão dos empresários. Haddad tentou, não aceitaram, agora, encontrem uma solução", afirmou.

Nesta semana, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), decidiu devolver parte da medida provisória (MP) que limitava o uso de créditos decorrentes da tributação do PIS-Cofins pelas empresas. A devolução representou uma derrota para o ministro da Fazenda que propôs a medida como compensação à desoneração da folha de pagamentos dos 17 setores que mais empregam e dos municípios.

Perguntado se havia conversado com o ministro das Comunicações Juscelino Filho, indiciado por corrupção pela PF, ele disse que depois que voltar do G7, "vai sentar e discutir o que aconteceu de verdade".

"Eu digo para todo mundo: só você sabe a verdade. Se você cometeu um erro, reconheça que cometeu. Se não cometeu, brigue pela sua inocência", completou.

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