Premiê da França gera onda de críticas ao falar sobre "sentimento de submersão" imigratória

"Palavras de extrema direita", "chocante", "indigno": o primeiro-ministro francês, François Bayrou, é alvo de uma onda de condenações nesta terça-feira (28) após ter expressado, em entrevista na TV, um "sentimento de submersão" imigratória no país. No entanto, o chefe do governo rejeita as críticas e considera que "essa é a realidade" da França.

As polêmicas declarações foram feitas na noite de segunda-feira (27), em entrevista ao canal de TV LCI. Bayrou comentava a crise imigratória em Mayotte, departamento francês ultramarino, localizado no oceano Índico. 

"Penso que as contribuições estrangeiras são positivas para um povo, desde que não excedam uma proporção", afirmou. "A partir do momento em que você tem o sentimento de submersão, de não reconhecer mais o seu país, os modos de vida ou a cultura, a partir deste momento, você tem a rejeição", reiterou.

Expressão "vergonhosa"

As reações mais vivas às afirmações do premiê vêm da esquerda francesa. Para a deputada ecologista Cyrielle Chatelain, a utilização da expressão "submersão imigratória" é "vergonhosa", principalmente da parte de um chefe de governo.

"Hoje, há 7,7% de pessoas que vivem na França que são estrangeiras. Em 1975, elas eram 6,5%", disse a ecologista, em entrevista à emissora Franceinfo. Segundo ela, o aumento do número de estrangeiros no país "é baixo". "Não estamos vivendo uma submersão imigratória. É papel do primeiro-ministro lembrar isso", diz Chatelain.

No canal de TV LCI, Manuel Bompard, coordenador do partido da esquerda radical França Insubmissa, classificou de "extremamente chocante" as afirmações do premiê francês que "não correspondem absolutamente à realidade". 

"São expressões utilizadas pela extrema direita", avaliou a deputada Mathilde Panot, também da França Insubmissa. Ela lembrou que o termo "submersão imigratória" foi pronunciado pelo ex-candidato Eric Zemmour, do partido ultraconservador Reconquista, nas últimas eleições presidenciais francesas, em 2022.

Já o líder dos socialistas na Assembleia de Deputados da França, Boris Vallaud, considerou "indigna" a atitude de Bayrou. A polêmica resultou no cancelamento de uma reunião do Partido Socialista com o primeiro-ministro sobre o projeto de lei de orçamento, que pode resultar em uma nova moção de censura contra o chefe de governo em breve. 

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Presidente da Assembleia de Deputados critica primeiro-ministro

Em uma rara reação, a presidente da Assembleia de Deputados da França, Yaël Braun-Pivet, do partido governista Renascimento, não poupou críticas à atitude de Bayrou. "Jamais teria feito essas afirmações e elas me incomodam", declarou, em entrevista ao canal BFMTV e à rádio RMC. "Estamos falando de homens e mulheres, de nosso país, a França, que por meio de sua história, sua geografia, sua cultura, sempre acolheu e se construiu por meio desta tradição", reiterou. 

No entanto, o premiê é apoiado por dois pesos-pesados do governo, o ministro do Interior, Bruno Retailleau, e o ministro da Justice, Gérald Darmanin. Na opinião do primeiro, integrante do partido conservador Os Republicanos, Bayrou apenas "justificou a política" que quer realizar. Em entrevista ao canal público France 2, Retailleau ainda afirmou que "a imigração não é uma sorte" da França. 

Já Darmanin ponderou em entrevista à rádio Europe 1 e ao canal CNews que "a submersão imigratória não existe hoje", ainda que "haja esse sentimento para uma grande parte dos franceses". No entanto, segundo o ministro da Justiça, o fato de que "um homem centrista, moderado, equilibrado, possa dizer, depois de um mês e meio de governo, que uma proporção de estrangeiros não deve ser ultrapassada em solo nacional, é um avanço".

Sébastien Chenu, vice-presidente do partido de extrema direita Reunião Nacional, celebrou as afirmações do premiê. "Faz muito tempo que os franceses e depois os governantes compreenderam que há um problema com a imigração", afirmou. 

A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, espera "ações" após as declarações de Bayrou. "É preciso que o primeiro-ministro esteja consciente que ele não é nem psiquiatra nem padre, então sua palavra não cura", ironizou. 

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Bayrou se defende

Nesta terça-feira, diante da Assembleia de Deputados, o primeiro-ministro se defendeu e manteve suas declarações. "Quem confrontou a situação de Mayotte, e esse não é o único lugar da França a fazê-lo, sabe que a palavra submersão é a mais adaptada", disse.

"O país inteiro (...), toda uma comunidade de regiões francesas confronta ondas de imigração ilegal em um momento em que elas chegam a 25% da população", reiterou. 

O posicionamento do premiê não é novidade. Há poucos dias, quando apresentou seu plano de governo, Bayrou falou sobre a necessidade de vigilância diante da "proporção" de estrangeiros na França.

Em 2022, o centrista também defendeu "o direito" dos "povos" à "perenidade de suas identidades. "Modos de vida que fazem com que a França seja a França, que a Suíça seja a Suíça, que a Itália seja a Itália", explicou.

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