"Excesso" de ajuda dos Estados Unidos preocupa especialistas

Haroldo Ceravolo Sereza Do UOL Notícias Em São Paulo

Após o drama do terremoto, o "excesso" da ajuda oferecida pelos Estados Unidos preocupa especialistas - sobretudo devido ao número de soldados que o país está enviando para a América Central. Segundo a Casa Branca, mais de 11 mil militares americanos já estavam em solo haitiano, em navios na costa do país ou a caminho do país na terça-feira (19).

"Uma das preocupações nessas operações é não sobrecarregar com um número alto de pessoas o país que está sendo ajudado", diz o professor Reginaldo Nasser Mattar, do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A preocupação com a logística e a falta de instalações adequadas para essa presença maciça foi também apontada como um problema por um alto comandante militar que esteve no país e conversou com o UOL Notícias.

Tanto ele quanto Nasser criticaram a distribuição de alimentos por meio de paraquedas, realizada nesta terça-feira por militares norte-americanos.

Num texto publicado na internet, o economista canadense Michel Chossudovsky, autor de "A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial", afirma que a chegada das tropas americanas, somado ao contingente militar da Minustah, as forças de paz da ONU, eleva para 20 mil o número de militares no país.

"A presença militar estrangeira está próxima de 20 mil homens, numa população de 9 milhões. Em comparação com o Afeganistão, prioridade militar de Obama, as forças dos Estados Unidos e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) são da ordem de 70 mil homens para uma população de 28 milhões", escreve Chossudovsky, indicando uma proximidade de soldados por habitante na operação humanitária e na operação oficilalmente militar.

Chossudovsky defende que a operação humanitária será usada como pretexto e justificativa para o estabelecimento de uma presença militar permanente dos Estados Unidos no país.

Para Reginaldo Nasser, há risco de a ajuda humanitária se converter, de alguma forma, numa ocupação militar do Haiti pelos Estados Unidos. Isso teria ocorrido, cita, na Indonésia após o tsunami.

O Congresso norte-americano havia proibido acordos militares com a Indonésia. Após o tsunami, acabou-se considerando que a presença militar com a justificativa humanitária não podia se prender a essa proibição, e a Indonésia passou a contar com o maior contingente militar dos EUA desde a Guerra do Vietnã, explica Mattar. "Cerca de 30% do orçamento do Pentágono é destinado a ajuda humanitária", diz o professor da PUC.

Julia Schünemann, especilista em Haiti e membro da Fundação para as Relações Internacionais e Diálogo Exterior, organismo sediado em Madri, diz estar segura de que os Estados Unidos "querem influenciar o futuro político do Haiti". "O Haiti é importante demais para os Estados Unidos para que seja 'deixado' na mão de outros atores. Há questões de segurança - como migração ilegal e tráfico de drogas - e também razões ligadas à diáspora haitiana em direção aos EUA", diz ela.

"Evidentemente, hoje em dia, os Estados Unidos querem evitar a imagem de uma força de ocupação, mas resta ver em que medida isso se apresenta não só no discurso, mas também na política real", completa.

A pesquisadora também identifica uma disputa entre diferentes países sobre o futuro do Haiti. "Parece haver uma disputa entre Estados Unidos, França e Brasil sobre quem 'manda' e sobre quem mandará no Haiti no futuro imediato. Seria trágico se o povo haitiano viesse a se converter novamente num 'joguete de poder' dos velhos e novos poderes com aspiração de liderança", completa.

Para Nasser, no entanto, essa disputa não se coloca. Primeiro porque a França, na sua opinião, mais faz jogo de cena do que atua concretamente no país. E a "luta" entre Estados Unidos e Brasil, se houver, é completamente desigual.

Para ele, os Estados Unidos não devem afastar o Brasil da liderança das Forças de Paz da ONU, mas certamente vão preponderar na ação efetiva no dia-a-dia, como no restabelecimento das telecomunicações.

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