Tendas improvisadas devem agravar tragédia no Haiti com a chegada da temporada de chuvas e furacões

Carlos Iavelberg*

Do UOL Notícias <br> Em São Paulo

Passado o impacto inicial do terremoto que devastou o Haiti no começo do ano, o país agora tenta evitar que uma nova tragédia aconteça com a aproximação do início da temporada de chuvas e furacões.

O tremor, que atingiu o país no dia 12 de janeiro e matou mais de 200 mil pessoas, deixou cerca de um milhão de desabrigados na capital Porto Príncipe. Sem opção, esses haitianos passaram a morar em acampamentos e tendas improvisadas montadas nas ruas.

“A grande preocupação da comunidade internacional é evitar a propagação de doenças nos assentamentos temporários. As pessoas estão vivendo em terríveis condições. Não há saneamento básico adequado e a estação chuvosa vai agravar a situação”, afirma a francesa Sophie Perez, diretora a ONG Care no Haiti.

O problema no caso do Haiti, o país mais pobre das Américas, é a corrida contra o relógio. A temporada de chuvas começa em abril e a de furacões, em junho.

Chuvas já preocupam haitianos

“Precisamos encontrar soluções de curto prazo, tais como acampamentos temporários fora das zonas de risco e fornecer algum tipo de proteção, como tendas e lonas”, diz Perez, que vive no país caribenho há 14 anos.

Essas moradias, porém, se mostraram pouco eficazes para proteger a população das chuvas. No início de fevereiro, quando a tragédia completava um mês, uma forte chuva causou tumulto nos acampamentos de Porto Príncipe. O material utilizado na construção de parte das barracas não agüentou. Em alguns casos, o peso dos lençóis encharcados fez com que as tendas cedessem.

“Parece que as tendas foram levadas [ao Haiti] com boa vontade, mas por organizações que não sabem o tipo de tendas resistentes às fortes chuvas que caem lá. Logo nas primeiras chuvas, já deu para ver que algumas tendas não serviram para nada”, apontou o espanhol Francisco Rey Marcos, coordenador do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária, com sede na Espanha.

“Definitivamente [optar por tendas e lonas] não é a solução perfeita, mas é uma primeira medida e a melhor solução para o momento. As lonas podem ser trazidas e transportadas de forma rápida e ocupam menos espaço em áreas congestionadas do que as tendas. Por isso a ajuda humanitária tem se concentrado no fornecimento do máximo de lonas possível antes que as chuvas comecem”, explica Perez.

"Somos realistas e sabemos que esses abrigos emergenciais são parciais e temporários, mas estamos trabalhando com alojamentos provisórios, como casas com estruturas de aço, painéis de madeira ou com paredes de lonas. Esperamos que estas soluções mais duradouras consigam satisfazer as exigências da população durante a temporada de furacões", pondera o espanhol Miguel Urquia, que trabalha há dez anos para Cruz Vermelha em projetos de construção e reabilitação de edifícios afetados por desastres naturais.

Pequenos acampamentos
Na quinta-feira (25), durante sua visita ao Haiti, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente haitiano, René Préval, anunciaram que parte da população que se encontra nas ruas será levada para pequenos acampamentos.

Lula disse que os pequenos acampamentos evitarão os tumultos que poderiam ocorrer em grandes áreas. Já Préval explicou que, embora a intenção inicial fosse levar as pessoas a grandes terrenos, ficou comprovado que o povo quer permanecer perto de seu local original de residência. Por isso, serão habilitadas pequenas áreas em que entre 50 famílias e 100 famílias terão abrigo.

  • Hans Deryk / Reuters - 17.jan.2010

    Grupos de ajuda desestimulam as tendas em prol de moradias "faça você mesmo"

Solução cara
No início do mês, a ONU anunciou que estuda a construção de refúgios resistentes aos furacões para a população desabrigada, mas tem esbarrado em questões financeiras e nas péssimas condições em que ficou a infraestrutura haitiana.

Segundo a enviada especial adjunta da ONU para o Haiti, Kim Bolduc, esta alternativa é "a melhor solução, porém mais cara e demorada de realizar", já que é preciso material e equipamentos pesados de construção.

Os danos causados pelo terremoto nos portos do Haiti impossibilitam que navios descarreguem materiais pesados. "Trazer o material de avião é muito caro, mas é necessário", apontou Bolduc.

Previsões
A previsão para este ano indica que a temporada de furacões será mais intensa do que a de 2009. De acordo com o meteorologista William Gray da universidade do Colorado, se espera para 2010 a formação de entre 11 e 16 tempestades tropicais e 6 e 8 furacões no oceano Atlântico, dos quais entre três e cinco serão de categorias 3, 4 ou 5, as mais altas.

No ano passado, a temporada de furacões no Atlântico -que afeta a área do Caribe, México, América Central e Estados Unidos- terminou com a formação de nove tempestades tropicais e três furacões.

O temor é que se repita a tragédia de 2008, quando cerca de mil pessoas morreram no Caribe, a maioria no Haiti, por causa de 16 tempestades tropicais, das quais oito se transformaram em furacões.

Para piorar a situação, o terremoto destruiu as estações meteorológicas do Haiti. Segundo a Organização Meteorológica Mundial da ONU (OMM), o país caribenho precisa de US$ 1 milhão (cerca de R$ 1,8 milhão) para reconstruí-las.

"[A reconstrução] é vital não só para minimizar os riscos, mas também para gerenciá-los via sistemas de alerta precoce, para que as pessoas possam ser retiradas das áreas de risco", afirma Michel Jarraud, secretário-geral da OMM.

Atualmente, não há radar nem estações meteorológicas automatizadas para coletar dados meteorológicos no Haiti. Os EUA, o Canadá e a República Dominicana estão fornecendo previsões para a segurança aérea e as operações de ajuda, informou a OMM.

*Com informações de agências internacionais

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