Como sobrevivi a quatro anos e meio no cativeiro no Afeganistão

Shahbaz Taseer*

Em Lahore (Paquistão)

  • ISPR/AFP

Meus sequestradores islamitas tentaram quebrar meu espírito. Mas mesmo nas montanhas do Afeganistão, eu encontrei forças.

Vinte e seis de agosto de 2011, um dia comum. Eu estava dirigindo para o trabalho pela mesma estrada em Lahore pela qual dirigia todo dia, e minha mente estava ocupada com assuntos mundanos. Um carro estava bloqueando a estrada, mas não dei muita atenção. Então cinco homens mascarados apontaram uma arma para minha cabeça, me tiraram do carro e meu mundo saiu horrivelmente de controle.

No momento, não posso contar todos os detalhes da minha captura ou minha soltura por motivos de segurança. Algum dia espero poder contar toda a história. Mas posso dizer com certeza que meu sequestro não foi comum.

Apenas sete meses antes, meu pai, Salman Taseer, o governador da província do Punjab, tinha sido morto a tiros por seu guarda por criticar as leis de blasfêmia do Paquistão, depois que uma mulher cristã, Asia Bibi, foi condenada à morte por supostamente cometer blasfêmia. Em meu sequestro, havia mais em jogo do que apenas dinheiro. Meus captores queriam a soltura de seus "irmãos muçulmanos" detidos em prisões por todo o Paquistão. Eu sabia que seria difícil e que devido às suas exigências ridículas, minha soltura demoraria. Em momentos sombrios como esses é fácil mergulhar no desespero. Mas me agarrei à minha fé e ao Alcorão, à memória de meu pai corajoso, ao amor de minha família.

A tortura começou no meu quarto mês de cativeiro. As pessoas que me sequestraram eram do Movimento Islâmico do Uzbequistão, ou MIU, um dos grupos militantes mais temidos do Paquistão. Eles tinham um prazer perverso em me torturar. Encontrei consolo na oração. Eu rezava por forças para suportar o máximo de dor que meus torturadores pudessem me causar até cansarem de infligi-la. Eu pensava com frequência no meu pai, que sofreu perseguição política nos anos 80 sob a ditadura do general Mohammad Zia ul-Haq. Ele dizia que a dor física toca apenas a superfície; não se pode deixá-la quebrar seu espírito.

É difícil dizer o que era pior, a tortura física ou os truques terríveis que meus captores usavam contra minha mente. Eles me mostravam postagens do Twitter impressas para me convencer de que tinha sido esquecido. Compartilhavam detalhes agonizantes de quão fácil seria atacarem minha mãe, quão vulnerável estava minha família. Eles me mostraram uma foto da minha mulher em peregrinação a Meca e diziam que ela era uma hipócrita fingindo piedade. Eles me mostraram o tweet de minha irmã na morte de Nelson Mandela, dizendo que representava lealdade a um infiel. Uma foto de meu irmão em um evento social era prova dos modos errantes da minha família. Mas essas "evidências" me davam forças. Eu sabia que minha família estava bem e que ela, e muitas outras pessoas em todo o mundo, estavam pensando em mim e rezando pela minha segurança e libertação.

O confinamento solitário, a solidão, dúvida e ansiedade podem fazer coisas estranhas à sua mente. Você começa a questionar sua sanidade. As faces que você tanto ama começam a desaparecer na escuridão, as vozes que ouvia com tanta frequência começam a se tornar obscuras. Mas a memória tem sua própria magia. Eu não podia voltar para casa, mas podia trazer minha casa até mim. Na minha mente, eu visitava lugares familiares. Conjurava meus amigos ruidosos, um por um, e me imaginava realizando humor stand-up e desenvolvia sketches humorísticos para cada amigo. Esses sketches agora são úteis quando revejo cada um deles.

Se passaram cerca de 30 meses quando tive um breve e não monitorado, quase surreal, contato com o mundo exterior. Um dos meus guardas, como eu, era um torcedor do Manchester United, e semana sim, semana não, ele levava furtivamente um rádio até minha cela para ouvirmos as partidas de futebol. Para ele, aquilo era um prazer ilícito. Ele acreditava que jogar ou mesmo ouvir uma partida de futebol era pecado. Para mim, era uma janela para o mundo exterior. Saber as notícias do futebol me mantinha são. "Com certeza você é o único torcedor do United nesta posição", eu dizia para mim mesmo. "Eles estão jogando e vencendo por você."

Olhando para trás, posso ver que sempre estive livre. Ninguém pode prender você exceto você mesmo. Meus sequestradores podiam tornar minha vida intolerável, mas enquanto eu mantivesse minha sanidade, eu estaria livre. Eu estava nas mãos de Deus, não nas mãos deles, e eu sabia que Ele me protegeria e me levaria para casa. Ele o fez. Ele fez milagres: sobrevivi a ataques com drones e à guerra, sobrevivi a múltiplas doenças sem tratamento, fui baleado, torturado física e mentalmente, vive em condições abissais e sobrevivi à derrota do MIU pelo Taleban afegão em novembro de 2015.

Eu poderia passar a vida inteira sendo amargo e me perguntando por que isso aconteceu comigo. Com certeza, parte do mal que sofremos não é por nossa culpa, mas apenas resultado da ganância, malícia ou crueldade de outra pessoa. Mas há um propósito superior, um plano cósmico. Eu sei que a forma como você reage ao que acontece com você, a graça com que enfrenta o infortúnio, a força e a coragem com que lida com as dificuldades, são as coisas que importam. É isso o que Deus vê e julga.

Há algo divino no que aconteceu em 29 de fevereiro de 2016. Ao amanhecer daquele dia, talvez no exato momento em que um ancião do Taleban abriu a porta da minha prisão para me libertar, a centenas de quilômetros de distância, uma porta de cela em Rawalpindi estava sendo aberta e o executor estava aprontando a forca para enforcar o assassino de meu pai.

Então, em 8 de março de 2016, um dia extraordinário. Precisei de oito dias e várias histórias para ir de carona de Oruzgan, Afeganistão, até a província do Baluquistão, Paquistão, em meio a sol, chuva e granizo. A moto em que estava tomou uma estrada, que eu sabia que me levaria à liberdade. Ao tomar a estrada que me levaria para casa, pensei no momento em que falei por telefone com minha mãe e minha mulher após os primeiros seis meses de cativeiro. Eles me diziam que me mataria a tiros depois do telefonema e que deveria me despedir da minha família. Eu lhes disse com tom definitivo na minha voz as mesmas palavras que meu pai certa vez escreveu da prisão para minha mãe: que eu não era feito de madeira que queima fácil. Dizer isso para elas me deu paz, e essa paz foi minha força por quatro anos e meio. Demorou, mas aqui estava eu, voltando para mudar aquele adeus em um olá.

*Shahbaz Taseer é um empresário paquistanês

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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