Opinião: Donald Trump é o Hugo Chávez americano?

Ioan Grillo*

Na Cidade do México (México)

  • Lula Marques - 27.mar.2008/Folhapress e Evan Vucci - 20.set.2016/ AP

O candidato republicano e o falecido presidente venezuelano são ambos populistas em atitudes, se não por ideologia

Acompanhado por música dramática, o vídeo começa com um clipe do candidato presidencial republicano, Donald J. Trump, ameaçando colocar sua rival na prisão, Hillary Clinton, antes de surgirem as palavras "Te recuerda a alguien" ("Isso faz você se lembrar de alguém"). A imagem então passa a do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fundador de uma autodeclarada revolução socialista, que levou ao colapso seu país rico em petróleo.

O vídeo prossegue comparando os ataques deles à imprensa, de Trump expulsando Jorge Ramos, da "Univisión", a Chávez anunciando o fechamento de uma rede de TV que o criticou. "No votemos por Donald Trump" (Nós não votamos em Donald Trump), ele conclui.

O vídeo, com legendas em espanhol, é do Comitê Nacional Democrata e visa um grupo especial de eleitores latinos: aqueles que fugiram da Venezuela de Chávez e de outros países autoritários, como Cuba. Ele tem um apelo especial na Flórida, um Estado ainda em disputa e lar de um crescente número de venezuelanos, especialmente em Doral, a oeste de Miami, onde o senador Marco Rubio tem um escritório.

Muitos eleitores com laços com Cuba e com a Venezuela nutrem uma alta suspeita de qualquer coisa que lembre a esquerda, campo tanto de Chávez quanto do governo cubano, o que os faz pender para os republicanos. Logo, alegar que Trump poderia levar à tirania e pobreza da qual fugiram se transforma em poderoso argumento emocional para rejeição do candidato republicano. E ocorre em um momento em que a crise da Venezuela está atingindo um ponto de fervura, com inquietação social e um desastre humanitário iminente.

Mas será que a comparação entre o socialista latino-americano e o bilionário americano realmente se sustenta?

Sem causar surpresa, o governo venezuelano rejeita que manchem o nome de seu "comandante" falecido, a quem elevou a um status de quase santo, ao compará-lo com alguém que acena a bandeira do império.

"É uma expressão da arrogância racista e da irracionalidade de um partido que não atende aos seus eleitores", tuitou a ministra das Relações Exteriores da Venezuela, Delcy Rodríguez. Alguns esquerdistas americanos igualmente rejeitam a comparação, apontando que Trump ataca imigrantes ilegais, enquanto Chávez construiu sua base nos bairros dos quais eles saíram.

O debate chegou ao México, onde políticos estão comparando Trump ao pré-candidato presidencial esquerdista Andrés Manuel López Obrador. Assim como Trump sugeriu que pode fazer, López Obrador rejeitou os resultados das duas últimas eleições presidenciais mexicanas, alegando que foi roubado por fraude e liderando protestos.

López Obrador rejeitou sua comparação a Trump, tuitando "no manchen", uma expressão popular mexicana que poderia ser traduzida de modo aproximado como "não falem isso!"

Esses argumentos ressaltam a nebulosidade do debate populista. Apesar do rótulo ter sido aplicado desde aos políticos britânicos a favor da saída do Reino Unido da União Europeia até a Rússia ressurgente, a maioria das pessoas não consegue chegar a uma definição satisfatória. A confusão central é por incluir ambos os extremos do espectro ideológico, do socialista Chávez ao anti-imigrantes Trump.

Após fazer reportagens na América Latina e ter participado de coletivas de imprensa com Chávez, Trump e López Obrador ao longo dos anos, tenho sido cauteloso no uso leviano do rótulo populista. Dito isso, dado o sabor particular da atual turbulência política, há obviamente um fenômeno autêntico com o qual temos que lidar, por mais difícil que seja definir. Independente de quem vença a eleição, Trump mudou a política americana.

John B. Judis, autor de "The Populist Explosion" (A explosão populista, em tradução livre, não lançado no Brasil), oferece uma das explicações mais convincentes para nossa inquietação global.

"Não se trata de uma ideologia", ele escreve, "mas de uma lógica política". Ela coloca a ideia de um setor nobre da população contra a ideia de uma elite totalmente corrupta. A estratégia política populista se concentra nesse conflito de forma emotiva, adaptando-se para se encaixar em diferentes contextos, anti-imigrantes nos Estados Unidos, anti-americano na Venezuela.

Vista dessa forma, a comparação entre Trump e o partido da Independência do Reino Unido, pró-saída da União Europeia, na direita, e Chávez e López Obrador na esquerda, se sustenta.

Apesar de suas formações altamente diferentes e defesa de políticas diferentes, eles estão unidos na pose como inimigos da elite corrupta e entrincheirada, que permite qualquer que seja o mal que aflige as pessoas, sejam os refugiados muçulmanos ou o capital global.

Trump joga a classe média americana trabalhadora contra o establishment em Washington. Chávez jogava o pobre venezuelano nobre contra o que chamava de "os oligarcas" e o império dos Estados Unidos. López Obrador joga sua noção de "povo mexicano" contra "a máfia do poder".

É uma estratégia altamente flexível. Como o establishment é considerado corrupto, os atuais populistas o culpam e às suas instituições (o governo, a mídia) por tudo que há de errado, mesmo quando os culpados são os próprios populistas.

Quando os jornais noticiaram as acusações de assédio sexual contra Trump, ele as atribuiu a uma conspiração da mídia. Quando os venezuelanos marcham para se queixar da falta de comida, o governo denuncia uma trama pelos oligarcas e pela mídia. Trump acusou o juiz que julga um processo contra ele de ser tendencioso. Chávez prendeu um juiz que tomou uma decisão com a qual discordava.

Até mesmo os cantos convergem. Os simpatizantes de Trump gritam nos comícios, "Digam a verdade!", para os jornalistas. Quando López Obrador marchou contra a suposta fraude eleitoral, seus simpatizantes gritaram a mesma coisa, "Que diga la verdad!", para os repórteres.

Uma razão para a estratégia populista ser eficaz é o fato de tocar em certas verdades. Washington é corrompida por interesses especiais. Os governos latino-americanos sofrem com imensa corrupção. Mas a Venezuela mostra que uma estratégia populista pode levar a uma alternativa ainda pior. Essa é uma lição que vale a pena lembrar ao se considerar para onde a atribuição de culpa à mídia, os gritos de fraude e ataque a juízes por Trump podem nos levar.

*Ioan Grillo é autor de "Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields and the New Politics of Latin America", ou "Senhores da guerra gângsteres: dólares das drogas, campos de morte e a nova política da América Latina", em tradução livre, não lançado no Brasil

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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