Opinião: O sonho de uma Cuba livre passa pelos EUA retirarem as sanções

Henry Godinez*

Em Chicago (EUA)

  • Ramon Espinosa/ AP

    Manifestante segura retrato de Fidel Castro durante ato pela memória do líder cubano, na Praça da Revolução, em Havana

    Manifestante segura retrato de Fidel Castro durante ato pela memória do líder cubano, na Praça da Revolução, em Havana

Em meus sonhos de menino, eu era designado pela CIA para assassinar Fidel Castro. Eu seria um herói e libertaria Cuba.

Como muitos cubano-americanos, fui criado para acreditar que era minha obrigação fazer exatamente isso. Talvez fosse porque nenhum de nós acreditava que voltaríamos a Cuba enquanto Castro não estivesse morto.

Agora Castro morreu, finalmente. Na verdade, eu tenho ido a Cuba há vários anos, desempenhando um papel menor, menos dramático, na tentativa de instigar mudanças em Cuba. Mas quando aceitei um convite em 2003 para participar de um seminário em Havana sobre o ritual afro-cubano no teatro caribenho, alguns membros de minha família me consideraram um traidor.

Embora eu não tivesse memórias de Cuba, pois deixei a ilha em 1961 com 3 anos, desmoronei quando desci do avião e todos os meus sentidos absorveram tantos anos sem um lar. Assisti ao ensaio geral de uma adaptação de "As Bacantes", de Eurípedes, e fiquei surpreso não apenas com a requintada qualidade da montagem, como também pela evidente crítica da produção ao regime de Castro.

Fiquei olhando para trás constantemente, certo de que a polícia surgiria a qualquer momento. Mas não aconteceu. Então percebi como o isolamento de Cuba imposto pelo embargo dos EUA durante mais de 50 anos me impediu de ver os esforços que os cubanos faziam --e os riscos que enfrentavam-- para criticar o Estado por meio das artes.

Depois disso, voltei à ilha muitas vezes como diretor do Festival de Teatro Latino-Americano no Goodman Theater, tentando trazer para Chicago a principal companhia de teatro cubana, o Teatro Buendía. Afinal o consegui em 2010.

Raúl Castro se despede de seu irmão Fidel relembrando história de Cuba

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Em meu papel de professor, retornei a Cuba neste verão para criar um curso de teatro com o Teatro Buendía para o programa de estudos no exterior da Universidade Northwestern. De maneira incongruente, o curso foi possibilitado por uma verba do Departamento de Estado, destinada a promover o intercâmbio cultural.

Como um cubano-americano que foi criado para ser extremamente patriótico em relação a meu país adotivo, acredito que a melhor maneira de promover mudanças em Cuba é apoiar esses artistas e todos os que se arriscam a uma retribuição por criticarem a revolução. Entretanto, a recente indicação pelo presidente-eleito Donald Trump de Mauricio Claver-Carone, diretor de um comitê de ação política cubano-americano conservador e linha-dura, para o Departamento do Tesouro na equipe de transição é um sinal ameaçador para os defensores da mudança política inovadora do presidente Barack Obama para Cuba.

As opiniões de Claver-Carone são coerentes com uma geração em declínio, mas ainda influente, em minha comunidade, de pessoas que negam obstinadamente que mais acesso e comunicação com os que vivem em Cuba podem dar apoio a atividades pró-democracia e ameaçar o governo de Raúl Castro pelo lado de dentro.

Retornar à abordagem fracassada do passado seria pior que contraproducente. Basta viajar a meia hora entre o Aeroporto Internacional José Martí e o centro de Havana para ver os outdoors de propaganda que culpam o embargo por toda a escassez e as dificuldades sofridas pela população cubana. A proibição do comércio é inegavelmente a ferramenta mais eficaz que o governo Castro tem para não assumir a responsabilidade pelos problemas de Cuba.

Eu cresci presenciando a profunda dor de tudo o que minha família perdeu quando veio para os EUA. Vi minha mãe, Adela, lutar para dar um futuro a seus dez filhos em um novo país. E cresci lamentando a perda de uma vida que não conheci, uma cultura e uma identidade de que nós, seus filhos, fomos alijados.

Por isso compreendo muito bem os argumentos de líderes políticos como os senadores Marco Rubio e Ted Cruz contra a normalização das relações com Cuba. Eles e outros políticos alinhados com influentes cubano-americanos da linha dura afirmam que enquanto o governo cubano continuar violando os direitos humanos, suprimindo a liberdade de expressão, as oportunidades econômicas e as viagens para sua população, os EUA devem manter a pressão contra o regime por meio do comercial. Recentemente, porém, e pela primeira vez depois de historicamente votar "não", os EUA simplesmente se abstiveram em uma votação na ONU para suspendê-lo.

Uma porta foi parcialmente aberta. Abri-la completamente exige a coragem de reavaliar nossas verdadeiras intenções e qual a melhor maneira de alcançá-las. Hoje existe a possibilidade de colaboração artística e intercâmbio cultural.

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É claro que os abusos aos direitos humanos continuam em Cuba, notadamente na restrição à liberdade de expressão. Embora os cubanos tenham mais liberdade para viajar para fora do país, o Estado ainda restringe as viagens, mesmo dentro da ilha. E enquanto o regime Castro defende suas vacilantes reformas econômicas as oportunidades para seus cidadãos são limitadas a cerca de 200 empregos não estatais sancionados, que incluem, de maneira quase surrealista, a profissão de palhaço.

Mas quando uma estratégia falha, é simplesmente lógico --e humano-- explorar outra. Tanto a comunidade cubana no exílio quanto os cubanos na ilha estão famintos por mudanças, mas parte destas deve ser repensar nossas exigências das últimas décadas.

Uma questão que devemos rever é a ideia de indenizações para as famílias como a minha, que fugiram ou foram levadas ao exílio. Em Cuba, gerações de famílias fizeram seus lares nas casas nacionalizadas pelo governo revolucionário quando os cidadãos cubanos fugiram do país. Para muitos nascidos depois da revolução, são os únicos lares que conheceram. Enquanto isso, os cubano-americanos da minha geração se beneficiaram do sonho americano; geralmente, conquistamos uma qualidade de vida muito maior do que nossos compatriotas na ilha.

Não sou um cientista político, mas me orgulho de ser cubano-americano e um artista de teatro com consciência social que viveu nos dois mundos. Diferentemente de muitos linha-duras na comunidade cubana exilada, passei um tempo considerável em Cuba nos últimos 13 anos, trabalhando estreitamente com artistas cubanos que manifestam corajosamente sua dissidência do regime.

Vi como os cubanos, de artistas a motoristas de táxi, falam livremente sobre o embargo como uma ferramenta para que o Estado negue sua responsabilidade pelas dificuldades que eles enfrentam diariamente. Se os que se opõem a mudar a política americana em relação a Cuba visitassem a ilha, também perceberiam essa verdade evidente. Mas muitos não voltarão, em princípio.

Isso é um erro. Nada é mais ameaçador para um regime totalitário que o livre fluxo de informação e de ideias. Ao exigir que o Congresso americano suspenda o embargo comercial contra Cuba, podemos possibilitar um maior intercâmbio, especialmente para estudantes e artistas, para transformar esse fluxo em uma torrente. A população de Cuba sabe que a mudança é inevitável; e com a morte de Fidel Castro eles precisam de nossa ação, mais que nunca.

*Henry Godinez é professor no Departamento de Teatro da Universidade Northwestern e sócio artístico residente no Goodman Theater

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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