Tragédia do voo AF 447

Acusação contra pilotos é "leviana", diz irmão de vítima do voo 447 da Air France

Andréia Martins
Do UOL Notícias

Em São Paulo

A notícia publicada hoje pelo jornal francês “Le Figaro” de que os pilotos seriam os responsáveis pelo acidente, em 31 de maio de 2009, que matou todas as 228 pessoas a bordo do voo 447 da Air France, foi classificada de “leviana” por um dos representantes da Associação de Familiares das Vítimas, que também condenou o vazamento de informações privilegiadas sobre a investigação.

“Essa é uma acusação leviana, não conclusiva”, disse Maarten Van Sluys, irmão da funcionária da Petrobras Adriana Van Sluys que estava a bordo do avião, ao UOL Notícias.

Acidente do voo AF 447

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Sluys disse que tomou conhecimento da reportagem publicada no jornal francês e que “nunca o BEA enviou tão rápido aos familiares uma nota, traduzida em quatro idiomas”.

O BEA, sigla em francês do Escritório de Investigações e Análises da França, que investiga o acidente, negou as informações divulgadas pelo jornal e chamou as informações de “sensacionalistas e não confirmadas". Segundo o BEA, não houve tempo de analisar todas as informações das caixas-pretas.

“Não houve tempo de fazer muita coisa, mas já deu para saber algumas informações. Isso [a informação] vazou para o jornal certamente por alguma fonte que está participando das investigações”, disse Sluys. Para ele, a conclusão do jornal se deu por exclusão. “Acredito que eles tenham deduzido que a culpa foi dos pilotos porque se não houve problemas com o Airbus, a culpa só poderia ser da tripulação. Mas isso precisa ficar mais claro”, afirma.

O "Le Figaro" afirma que uma prova de que as investigações apontariam para erros dos pilotos seria o fato de a Airbus, fabricante do avião, ter enviado uma nota às companhias aéreas nesta terça-feira, dizendo que "após as análises preliminares das caixas-pretas", em termos de segurança aérea, ela "não tem nenhuma recomendação imediata" a fazer a seus clientes.

A mensagem enviada para todo o setor é vista como importante, pois só pode ser emitida com a autorização dos investigadores oficiais. A detecção de qualquer defeito levaria automaticamente a algum tipo de recomendação para evitar por em risco a segurança dos passageiros dos cerca de mil A330s em serviço ao redor do mundo.

Segundo Sluys, na altura em que o avião estava, o piloto apenas “testemunhava o voo”, portanto, não estava no comando da aeronave. “Ainda vou falar com alguns colegas pilotos que têm nos ajudado na investigação, mas eles com certeza vão rir dessa acusação”, completou.

Ele disse não acreditar que o jornal tenha inventado a notícia, mas que ela ainda precisa de mais informações, o que não quer dizer que a versão que põe a culpa do acidente nos pilotos seja aceita pelos familiares.

“Isso é uma máxima, acusar os pilotos, que não estão aqui para contar a história nem se defender. É comum jogar a culpa neles, afinal as máquinas nunca falham, mas o ser humano sempre erra”, disse Sluys.

Após encontrar as caixas-pretas do avião, o BEA enviou aos familiares uma carta que, segundo Sluys, dizia que um relatório sobre as informações levantadas na perícia do material seria divulgado “em algum dia do próximo verão”. “Para eles não há pressa”, disse ele.

Sluys quando outros familiares das vítimas brasileiras esperam que a juíza francesa encarregada do caso tome alguma providência para preservar a integridade da investigação e das informações.

“Nós acreditamos que a investigação já está comprometida, com o investigado investigando. Esse vazamento só piora o cenário e cria um clima hostil no caso de uma futura acusação contra os pilotos. Vão dizer que lá atrás o BEA negou uma informação que era oficial”, diz.

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