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28/12/2004 - 17h20
Tática conservadora dá a Bush mais quatro anos

Bush é reeleito presidente dos EUA
De um lado, a mobilização do eleitorado conservador. De outro, o discurso antiterrorismo, forte em um país ainda traumatizado pelos atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo a avaliação da maioria dos analistas norte-americanos, essa conjunção de fatores resultou na reeleição do republicano George W. Bush como presidente dos Estados Unidos. A sua vitória, contudo, não foi nada fácil.


Alexandre Bigeli
Da Redação

O processo eleitoral americano começou oficialmente em janeiro, com as eleições primárias do Partido Democrata. Condecorado por sua bravura no Vietnã, o senador John Forbes Kerry tinha as qualidades necessárias para derrotar Bush. Seu passado como herói de guerra poderia desconstruir a imagem de Bush, que se apresentava como o comandante das forças dos EUA contra o terror. Bush, aliás, tinha um notável ponto fraco: o presidente ingressou na Guarda Nacional dos EUA quando era jovem para evitar uma convocação para o Vietnã. Kerry também poderia, na visão dos democratas, agradar a parcela mais à esquerda do eleitorado do partido, visto que, ao voltar do Vietnã em 1971, participou ostensivamente de manifestações pacifistas, apesar de suas condecorações de guerra.

As primeiras pesquisas sobre a disputa entre Bush e Kerry apresentaram um surpreendente equilíbrio. O empate entre os candidatos era atribuído ao desgaste na imagem de Bush e à intensa cobertura das primárias democratas na mídia.

A campanha passou a girar em torno de dois temas básicos: a campanha contra o terrorismo, incluindo a guerra no Iraque, e a economia dos EUA, que abrange dois graves problemas para os americanos: o crescente déficit público e a crise no sistema de previdência social. O quadro passou a pender favoravelmente a Kerry conforme o noticiário trazia novidades cada vez mais desfavoráveis a Bush. No Iraque, a rendição do país e a captura de Saddam Hussein não impediram a continuidade de violentos choques entre tropas americanas e rebeldes -por mais que Bush já tivesse afirmado que a missão dos EUA já estava cumprida. Além disso, o escândalo dos abusos cometidos por oficiais americanos contra presos iraquianos afetou profundamente a imagem da campanha antiterror.

No front interno, a economia americana criava menos empregos que o necessário para absorver as pessoas que ficaram desempregadas durante a recessão do país no início da gestão de Bush, que, nem de longe, conseguia fazer a economia evoluir no ritmo da era Clinton (1993-2001).

Entretanto, Kerry não conseguia usar os problemas de Bush para superá-lo decisivamente nas pesquisas. O candidato democrata era acusado de mudar de posição freqüentemente, o que comprometia perigosamente sua imagem. Estrategistas políticos afirmavam que Kerry não era capaz de conquistar a confiança do eleitor. O fato de ter sido um herói de guerra e de, posteriormente, ter protestado contra ela, pesava mais contra do que a favor do candidato.

Kerry tentou superar seus problemas escolhendo como vice o popular senador John Edwards, a quem havia vencido nas primárias democratas. Entrementes, a escolha de Edwards visava a fortalecer a candidatura democrata na conservadora região Sul dos EUA.

Convenções

A convenção democrata, realizada no final de julho, teve as mais populares figuras do partido, como o ex-presidente Bill Clinton e sua mulher, a senadora Hillary Clinton, discursando fortemente a favor de Kerry. A convenção -que é muito mais um espetáculo televisivo do que um evento político- poupou ataques a Bush e apostou alto num discurso de conciliação nacional em torno de Kerry. O resultado não foi dos melhores. Kerry abriu pouca vantagem sobre Bush nas pesquisas.

Foi nesse período que a campanha de Bush começou a lançar o mais mortífero ataque a Kerry. Um grupo de veteranos financiado por políticos e empresários republicanos veiculou diversos anúncios na televisão contestando o histórico militar de Kerry, negando que o democrata tenha praticado os atos heróicos que lhe condecoraram. Os anúncios traziam supostos companheiros de Kerry e foram apresentados principalmente nos Estados mais disputados.

No que talvez tenha sido um de seus maiores erros, a campanha de Kerry demorou semanas para responder aos ataques. O democrata perdeu a pequena liderança sobre Bush, que passou à sua frente. A campanha democrata entrou em crise.

Foi nesse contexto que foi realizada a Convenção Nacional do Partido Republicano, ocorrida em Nova York no início de agosto. Ao contrário dos democratas, os republicanos desferiram ataques maciços contra John Kerry, batendo na tecla de que o senador não é digno de confiança por mudar muito de opinião. A estratégia do partido mostrou-se um enorme sucesso: as primeiras pesquisas após a convenção apontavam vantagens de até 14 pontos percentuais para Bush.

Kerry tinha apenas dois meses para reverter o quadro desfavorável. Os democratas passaram a apontar acidamente os problemas da administração Bush e não deixavam nenhum ataque republicano sem resposta. Gradativamente, Bush perdeu o impulso da convenção, e o democrata passou a se recuperar nas pesquisas.

Entretanto, o democrata não crescia a ponto de voltar a estar à frente de Bush. A essa altura (fim de setembro), ficou claro para todos que Kerry só tinha uma chance para vencer a eleição: derrotar Bush nos debates. E foi o que aconteceu. Em três oportunidades, o democrata superou o presidente americano.

Em 2 de novembro, as eleições registraram um número de eleitores jamais visto num pleito presidencial. Durante o dia, muitos apontavam que o elevado "turnout" (comparecimento às urnas) favoreceria Kerry. Pouco após o fim da votação, o senador Ted Kennedy, também democrata de Massachusetts, foi à TV cumprimentar Kerry pela vitória, com base em números de pesquisas de boca de urna.

Mas Bush venceu.

A resposta dos grotões

As análises posteriores à votação apontaram que o principal motivo da vitória republicana foi um fator do qual pouco se falou durante a campanha: os chamados "valores morais". Religiosos conservadores que normalmente não votam (o voto nos EUA é facultativo) decidiram ir às urnas para votar em uma série de plebiscitos sobre temas de comportamento, que nada tinham a ver com guerra, terrorismo e economia. Em 11 Estados, houve plebiscitos sobre a proibição legal do casamento gay. Muitos eleitores foram votar a favor da proibição e, de quebra, votaram em George W. Bush. Além disso, os republicanos apostaram na mobilização do eleitorado conservador nos grotões do país -- centenas de milhares de americanos se engajaram voluntariamente na campanha de Bush. Há ainda quem atribua a vitória do presidente à mais pura ignorância dos americanos.

Bush não humilhou Kerry nas urnas. O presidente obteve cerca de 59 milhões de votos, enquanto o senador conquistou pouco mais de 56 milhões (51% a 48%). Ao contrário do que aconteceu em 2000, desta vez a vitória de Bush foi cristalina, tanto no voto popular quanto no Colégio Eleitoral. Os republicanos também aumentaram o domínio que já tinham no Senado e na Câmara de Representantes, o que pode assegurar a aprovação de projetos conservadores.

Aos EUA e ao mundo, restam 4 anos em que Bush pode intensificar sua campanha unilateral contra o terror e continuar políticas que ampliam o enorme déficit americano e investir numa reacionária agenda conservadora. Bush também pode surpreender e governar de forma conciliatória, negociando com as nações em vez de impor o interesse americano, sem priorizar a repercussão eleitoral de suas decisões. Afinal de contas, Bush já venceu todas as eleições que poderia disputar.

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