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23/04/2005 - 13h50
Quixote na China: sonho de Cervantes é realidade 400 anos depois

Por Antonio Broto Pequim, 23 abr (EFE).- No prefácio da segunda parte de Dom Quixote, Cervantes afirmou que seu livro era lido até pelo imperador da China: quatro séculos depois, esse visionário sonho é uma realidade graças a chineses amantes do clássico mundial, como o professor de espanhol Dong Yansheng.

Dong (1937), professor da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, é um dos maiores conhecedores da língua espanhola na China, e, em 1995, fez a primeira tradução de Dom Quixote para o mandarim.

O professor, cujo rosto brilha de entusiasmo quando fala do livro, contou, em entrevista à EFE, como o clássico da literatura influiu em sua vida e na China em geral, deixando clara a universalidade da obra, capaz de deixar marcas em uma cultura tão distante quanto a oriental.

Dong sempre esclarece, por via das dúvidas, que Dom Quixote já era conhecido na China antes de seu trabalho, já que desde os anos 20 circulam no país traduções para o inglês, embora elas careçam, segundo ele, "da graça que o original tem".

"A figura de Dom Quixote (Ji-He-Te na China) já era citada pelos grandes escritores chineses do início do século XX, como o pai da literatura chinesa moderna, Lu Xun", destacou o professor, cujo rico espanhol traz recordações da língua no século XVII.

Dong lembra que nos primeiros anos do regime comunista, fundado em 1949, já havia várias versões traduzidas e o livro continuou sendo lido até os anos da Revolução Cultural, na qual praticamente todos os livros chineses e estrangeiros foram proibidos.

Segundo o professor, a figura de Dom Quixote era citada nessa época até por Mao tsé-tung em seus escritos para criticar seus adversários, que chegou a chamar de autores de "quixotadas", embora tenha em outras ocasiões usado o termo "quixote" para louvar alguém que defendia seus ideais.

Para Dong, no entanto, se há na história moderna da China um personagem similar a Dom Quixote, ele é Mao, que "fez quixotadas" desastrosas e, ao contrário de outros quixotes que fracassaram individualmente, ele o fez em escala nacional".

Se Mao é para o professor Dong o Quixote chinês, os "sancho panças" do país são suas centenas de milhões de camponeses.

"Qualquer camponês chinês, por mais bobo que seja, se comporta igual a Sancho Pança. São tão 'máquina de calcular' como ele. Às vezes mesquinhos, pensando no proveito, mas com razão, porque seu entorno existencial os obriga a sobreviver", analisa o professor.

Dong foi tomou o susto de sua vida quando, em um belo dia, um senhor de uma remota região chinesa, Guangxi, o encarregou da tradução de Dom Quixote, "em uma época na qual estavam muito na moda na China os clássicos universais".

Naquela época, o livro havia voltado às livrarias, em uma versão de uma conhecida especialista chamada Yang Jia que, segundo Dong, "estava cheia de erros".

Foram dois anos de trabalho árduo, nos quais Dong enfrentou o duro desafio de "tentar conservar o toque espanhol" do texto.

Para Dong, não foi tarefa fácil traduzir para o mandarim os diferentes registros idiomáticos da obra, desde a fala camponesa de Sancho, ao espanhol latinizado dos cônegos e as conversas de prostitutas.

Curiosamente, o tradutor acabou fazendo a versão do livro para outra editora porque o senhor de Guangxi que havia encomendado a tradução o "vendeu" (como se fosse um jogador de futebol) para outra companhia, "como vingança contra seu chefe, com o qual havia discutido".

Finalmente, o livro foi lançado, vendeu cerca de 80.000 cópias - "nada mal para a China", segundo Dong - e hoje em dia é o livro em espanhol mais conhecido pelos chineses.

O Manco de Lepanto viu assim realizado seu sonho citado no prefácio da segunda parte, onde, em carta ao Conde de Lemos, dizia que o imperador da China havia escrito a ele "em língua chinesa" pedindo que enviasse cópias ao império oriental.

"Era uma piada que Cervantes gostava de contar", comenta Dong.

Cervantes falava da possibilidade de ensinar espanhol nas escolas chinesas com seus livros: 400 anos depois, o Instituto que leva seu nome está perto de abrir um centro na China.

Dong ganhou em 2000 a Ordem de Isabel a Católica, do governo espanhol, por sua contribuição para a expansão do espanhol.

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