UOL Últimas NotíciasUOL Últimas Notícias
UOL BUSCA


 

18/12/2006 - 15h27
Situação de controladores em SP é preocupante desde 2000, diz pesquisadora

Agência Fapesp

A crise no sistema de controle de tráfego aéreo no país não surgiu da noite para o dia. De acordo com a pesquisadora Rita de Cássia Araújo, desde 2000 as condições de trabalho e de saúde dos controladores de vôo no Estado de São Paulo eram extremamente preocupantes. Na época, a pesquisadora defendeu a dissertação de mestrado "O trabalho na aviação e as práticas de saúde do controlador de tráfego aéreo", na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

No final da década de 90, diante de vários incidentes e do acidente que vitimou a banda Os Mamonas Assassinas, o então ministro da Aeronáutica, Lélio Lobo, foi convocado pela Câmara dos Deputados a prestar esclarecimentos sobre a fragilidade do controle de tráfego aéreo. Nesse contexto, foi autorizado o desenvolvimento de um trabalho de pesquisa interinstitucional coordenado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) no Controle de Aproximação da Área Terminal São Paulo. Assim, Rita de Cássia iniciou seus estudos em 1998 no controle de tráfego aéreo do Serviço Regional de Proteção ao Vôo de São Paulo (SRPV).

Para a dissertação, foram realizadas entrevistas com 12 profissionais do Terminal São Paulo, que é responsável por mais de 60% do tráfego aéreo brasileiro. O trabalho foi orientado por René Mendes, professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor sênior associado da Johns Hopkins University, em Washington. A pesquisadora sintetizou a experiência com o risco no cotidiano do trabalho, as relações do controlador com a hierarquia militar e as perspectivas que esses trabalhadores vêem para o futuro do controle de tráfego aéreo.

Após a defesa da dissertação, Rita de Cássia trabalhou na Secretaria Municipal de Saúde, em 2002, quando os resultados de seu estudo foram encaminhados oficialmente, junto com um relatório da Unesp, ao SRPV. Nesse mesmo período, a pesquisadora integrou ainda um grupo de trabalho na Secretaria Municipal de Gestão, que produziu a publicação "Aeroporto, Cidade e Metrópole", com o objetivo de discutir a questão aeroportuária na capital paulista.

Rita de Cássia, que atualmente é assistente técnica da Coordenação de Vigilância em Saúde do Município de São Paulo (Covisa), é dentista de formação e especialista em saúde do trabalho. A convite do Ministério Público do Trabalho, participa de um amplo estudo sobre as condições de saúde dos controladores da Área Terminal São Paulo.

Segundo ela, há dez anos o controle de tráfego aéreo já podia ser considerado um grave problema social e institucional. Em entrevista à Agência FAPESP, Rita de Cássia afirma que hoje a situação é ainda mais crítica tendo em vista o aumento do volume de tráfego aéreo em mais de 100% na última década.


De que maneira os resultados de sua pesquisa já anunciavam a crise atual do sistema de controle de tráfego aéreo?
Rita de Cássia: O discurso dos trabalhadores na minha pesquisa de 2000 evidenciava a necessidade de decisões políticas que pudessem modificar a situação de risco no controle de tráfego aéreo. Três pontos foram ressaltados: regulamentação da profissão, investimentos em formação de pessoal e maior agilidade administrativa. As afirmações sobre a problemática existente no controle de tráfego aéreo foram expressas com clareza, sendo pertinente a preocupação desses trabalhadores a respeito de modificações estruturais. Naquele momento, já havia sido constatada uma situação de extrema fragilidade do setor, tendo em vista o acidente dos Mamonas Assassinas em março de 1996, que também foi causado por falhas do controle de tráfego. O setor já operava em seu limite de capacidade. Portanto, a situação que estamos vivendo agora já era prevista e foi apenas deflagrada pelo acidente com o Boeing da Gol e o Jato Legacy, em setembro. Meu trabalho revelou indícios de risco no sistema, como a operação de equipamentos que não funcionavam adequadamente, acarretando diversos problemas técnicos no sistema de controle como um todo.

Quais são esses problemas técnicos?
Um grave problema é a queda dos sistemas. No caso mais recente, no início do mês, em que o sistema ficou fora do ar por alguns minutos, em Brasília, os controladores foram acusados de sabotagem, mas poucos sabem que isso ocorre com freqüência. Os equipamentos têm aparência sofisticada e dão a impressão de que funcionam muito bem, mas boa parte dos radares em operação no país tem mais de 20 anos de uso e está desatualizada, causando sérios problemas na transmissão de informações. Outro problema é a formação de alvos falsos em tela. Quando o operador visualiza 15 aeronaves, pelo menos quatro são falsas. Nesse caso, o que vale é a experiência do controlador, que deve saber diferenciar os alvos falsos dos verdadeiros. A questão dos alvos falsos foi constatada no estudo e há indícios de que ocorre até hoje.

Ao lado das dificuldades técnicas, o maior problema seria o excesso de aeronaves por controlador?
Sim. Enquanto a Organização Internacional da Aviação Civil estabelece o controle de no máximo dez aeronaves por tela, os profissionais brasileiros lidam com pelo menos 20 ao mesmo tempo. O grande problema é que na última década o volume de tráfego aéreo dobrou, mas o número de trabalhadores permaneceu o mesmo. O número de passageiros saltou de 23 milhões anuais para os atuais 48,5 milhões.

As condições de trabalho dos controladores de tráfego aéreo mudaram desde 2000, quando começaram seus estudos sobre o assunto?
Dentro deste contexto de riscos, um agravante mencionado pelos controladores é a dupla jornada de trabalho, percebida pelos trabalhadores como geradora de cansaço e fadiga, sendo incompatível com uma atividade que exige extrema atenção, precisão de raciocínio e agilidade intelectual. Constatou-se que a maioria dos operadores, além da atuação no controle de tráfego aéreo, que obedece ao sistema de turnos alternados, acumula outra atividade profissional. Ao mesmo tempo, esse trabalhador enfrenta ainda a ameaça permanente de ser culpabilizado pela ocorrência de acidentes, o que aumenta a pressão sobre ele. Observei, durante o estudo atual junto ao Ministério Público, que essa situação de trabalho persiste até hoje e é agravada pelo aumento do volume de tráfego aéreo, e neste momento potencializada pelas pressões psicológicas em virtude do acidente entre o Boeing da Gol e o Jato Legacy.

Os controladores fazem dupla jornada para complementar a remuneração?
A grande maioria deles tem duplo emprego para complementar o salário da Aeronáutica, que gira em torno de R$ 2 mil por mês. É comum ver controladores trabalhando 15 horas por dia, somando as duas atividades. Muitos dão aulas em escolas de aviação. Só para efeito de comparação, nos Estados Unidos um controlador de vôo ganha em média US$ 7 mil mensais. Na Europa, são 8 mil euros. E, nos dois casos, é inaceitável a realização de trabalhos paralelos.

Qual o impacto desse cenário sobre a saúde do trabalhador?
Muitos trabalham em turnos alternados. Se um controlador trabalha em um dia, por exemplo, das 6 às 14 horas, no dia seguinte ele cumprirá o período das 14 às 22 horas e, no terceiro dia, das 22 às 6 horas da manhã. Esse ritmo de trabalho produz uma forte alteração no ritmo biológico, gerando desde problemas de sono e de relacionamento familiar até distúrbios gastrointestinais e hipertensão. E é justamente essa fragilidade que está colocando em risco a vida dos passageiros e tripulantes, que dependem da boa saúde desse trabalhador.

Quais seriam os melhores caminhos para mudar esse cenário?
Qualquer mudança no controle de tráfego aéreo requer avanços na esfera da democracia. Falta incentivo à participação em decisões administrativas e isso compromete o interesse pela atividade e pelos objetivos reais do trabalho. Os controladores têm um saber que precisa ser considerado - é necessário ouvi-los. Em vez de serem culpabilizados, eles devem ser encarados como protagonistas de um amplo processo de busca de soluções que possam garantir a segurança e a eficiência do sistema. Por outro lado, deve-se impulsionar o suporte técnico e científico para a implementação de equipamentos com tecnologia de ponta, adequada às necessidades de segurança e confiabilidade dos sistemas.

ÍNDICE DE ÚLTIMAS NOTÍCIAS  IMPRIMIR  ENVIE POR E-MAIL

Folha Online
Reforma visual da Folha facilita a leitura; conheça as mudanças
UOL Esporte
Após fiasco de público, CBF reduz preços de ingressos para partida
UOL Economia
Bovespa reduz ritmo de perdas
perto do fim dos negócios

UOL Tecnologia
Fãs do iPhone promovem encontro no Brasil; veja mais
UOL Notícias
Chuvas deixam quatro mortos e afetam mais de 4 mil no Paraná
UOL Vestibular
Cotista tem nota parecida com de não-cotista aponta Unifesp
UOL Televisão
Nova novela da Record terá máfia e Gabriel Braga Nunes como protagonista
UOL Música
Radiohead entra em estúdio para trabalhar em disco novo
UOL Diversão & Arte
Escritor indiano Aravind Adiga ganha o Booker Prize
UOL Cinema
Novo filme dos irmãos
Coen tem maior bilheteria nos EUA