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20/12/2007 - 15h34
Museu não tinha alarme, diz delegado que investiga o furto no Masp

Ana Luisa Bartholomeu
de São Paulo

Atualizada às 21h40

O delegado Marcos Gomes de Moura, titular do 78º Distrito Policial, disse no início da tarde desta quinta (20), que o Masp, de onde duas obras de arte foram furtadas na madrugada desta quinta, não tinha alarme.

A assessoria de imprensa do museu disse que, durante a investigação, não iria dar informações sobre o sistema de alarme.

Segundo o delegado, a ação não foi obra de "ladrão pé-de-chinelo". "Foi um crime especializado", disse. A polícia suspeita de crime encomendado por colecionador, mas Moura disse que nenhuma hipótese foi descartada.

Pelo menos três assaltantes levaram apenas três minutos para furtar as obras "O Lavrador de Café" (1939), de Candido Portinari, e "Retrato de Suzanne Bloch", de Pablo Picasso (1904), do Masp (Museu de Arte de São Paulo). A ação ocorreu entre 5h09 e 5h12, segundo o boletim de ocorrência, registrado por um engenheiro do Masp. A polícia abriu inquérito para investigar o caso, que foi classificado como de "furto qualificado", pois os autores romperam obstáculos para chegar às obras.

Durante entrevista, o delegado mostrou o CD com as imagens registradas pelo circuito interno do museu, mas não as exibiu para os jornalistas. Segundo ele, apenas as imagens externas têm boa qualidade. Ele disse que as câmeras internas do museu não têm sistema de infra-vermelho e, por isso, não conseguiram captar imagens com qualidade. As gravações serão enviadas ao Instituto de Criminalística para análise.

O delegado caiu em contradição durante a entrevista e ao atender a alguns repórteres depois da coletiva. Primeiro, disse que os assaltantes teriam quebrado ao menos três portas durante a ação -uma externa, de aço, e duas de vidro, que davam para as salas onde os quadros estavam. Depois, disse que apenas a porta externa teria sido quebrada, e que as internas poderiam estar abertas na hora do furto. Segundo o delegado, os assaltantes teriam usado as escadas.

Andre Penner/AP
Imagem de circuito interno mostra suposto momento da invasão
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A ação ocorreu pouco depois da troca de turno da segurança, que ocorre às 5h -o que reforça a hipótese de que os autores conheciam o funcionamento do museu. No momento do assalto, havia 4 vigias no museu, um deles o chefe de segurança, que havia acabado de chegar. Dois deles estavam no subsolo, e dois rodavam pelo museu.

Os dois seguranças ouvidos alegaram que não ouviram barulhos, pois o museu é muito grande. O chefe de segurança teria sido o primeiro a perceber o furto. De acordo com o delegado, não houve testemunhas da ação, o que dificulta a investigação. O delegado também disse que os depoimentos dos seguranças registraram algumas contradições entre si.

Os quadros estavam nas paredes de duas salas diferentes e foram levados com as molduras. Na ação, foram usados um pé-de-cabra e um macaco hidráulico. Segundo as imagens, três pessoas entraram no museu, mas não foi possível ver se elas estavam armadas ou com capuz. A polícia suspeita que um quarto homem teria ficado do lado de fora, dando apoio à ação, pois um fone de ouvido também foi encontrado.

VEJA VÍDEO
O delegado acredita que o crime possa ter sido encomendado por um colecionador, pois, para ele, a fama das obras impede que elas sejam comercializadas.

A polícia deve ouvir 30 funcionários da segurança do museu. Segundo o delegado, eles não são terceirizados e têm em média oito anos de casa. Para Moura, é precipitado dizer se houve falha da segurança.

O "modus operandi" da ação faz o delegado acreditar que o grupo de hoje possa ser o mesmo que tentou invadir o prédio sem sucesso em 29 de outubro e que foi impedido pelo alarme. No dia 29 de outubro, dois homens haviam rendido seguranças do museu e tentaram alcançar o segundo andar do prédio, onde está exposto o acervo permanente. Na época, o alarme teria disparado e acusado a presença dos invasores. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), os homens saíram sem levar nada.

O furto de obras da importância de "O Lavrador de Café", de Candido Portinari, e "Retrato de Suzanne Bloch", de Pablo Picasso, do Masp (Museu de Arte de São Paulo), tem peso sem igual na história dos museus do Brasil e deve respingar em outras instituições de arte do Brasil. Quem afirma é o professor de história da arte da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Nelson Aguilar, 62. "São obras de valor incalculável. Os ladrões levaram dois tesouros. Isso passa a imagem de incúria. Agora, museus internacionais vão negar o empréstimo de obras a instituições brasileiras. É uma catástrofe", disse Aguilar, que afirmou que o fato culmina, em sua avaliação, a fase de declínio em que a administração do Masp entrou.
FURTO É 'UMA CATÁSTROFE', AVALIA PROFESSOR DE HISTÓRIA DA ARTE
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O Ministério Público estadual designou o promotor Arthur Lemos, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), para acompanhar as investigações.

A Polícia Federal também investigará o caso. De acordo com a assessoria de imprensa do órgão, peritos da PF colheram material no Masp nessa manhã.

A PF entrou no caso a pedido do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que tem como objetivo a guarda dos bens culturais brasileiros e tinha tombado os quadros. O instituto contabiliza 885 obras desaparecidas, já incluídas as telas roubadas hoje.

Para o delegado Deuler Rocha, que ficou à frente da Delemaph (Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico) do Rio de Janeiro entre 2005 e 2006, o mais provável é que o furto tenha sido encomendado por um receptador. "Quem rouba já sabe a quem vai oferecer", afirma. Segundo ele, esses intermediários constumam se resguardar da polícia terceirizando a contratação das pessoas que irão atuar nos furtos ou roubos.

Versão do museu

Em nota à imprensa, o Masp salientou que "ao longo dos seus 60 anos de atividades nunca sofreu uma ocorrência desta natureza" e afirmou que, por isso, foi instaurada uma sindicância interna visando "a total colaboração com o trabalho policial".

Do lado de fora da delegacia, Sueli Jesus de Oliveira, 34, parecia assustada com o movimento no 78º DP, localizado na região dos Jardins, em São Paulo, nesta quinta-feira. Espantou-se ainda mais quando descobriu que o corre-corre no local era por causa do furto de dois valiosos quadros no Masp.

"Estou aqui para acompanhar três garotos que vão prestar depoimento sobre a morte do meu filho, Luiz Guilherme, que morreu em setembro ao cair de um muro do Masp", explicou, quase sem acreditar na coincidência.

Aparentando desalento, Sueli desabafou para um grupo de jornalistas. "Para o roubo de dois quadros, tem esse monte de gente aqui, televisão e jornalista. Agora quando se trata de uma vida... uma vida não vale mais nada mesmo. Até hoje o caso do meu filho não foi solucionado. Aposto que esse deve estar resolvido na semana que vem."

Segundo Sueli, o caso caiu no esquecimento, e o Masp até hoje não prestou-lhe qualquer ajuda. "Nunca ninguém apareceu para saber se eu e minha família precisávamos de alguma coisa. Nenhum representante do Masp foi ao velório e ao enterro do meu filho. É um descaso só", disse.

Luiz Guilherme de Oliveira Moura, de apenas 14 anos, participava de uma excursão ao museu no dia 16 de setembro deste ano, organizada pela ONG Gol de Letra. Ele caiu do vão livre do Masp, de uma altura de 15 metros. Foi a quinta morte no local.

A assessoria de imprensa do Masp disse que o museu lamenta a morte do adolescente, mas que a responsabilidade, neste caso, é da prefeitura, pois o vão livre do Masp fica em uma praça pública. Sobre as cinco mortes já ocorridas no local, a assessoria diz que o prédio do museu é tombado, e que não pode ser reformado.
A COINCIDÊNCIA
O curador do museu, José Teixeira Coelho, demonstra pesar pelo furto. "Retrato de Suzanne Bloch" era um dos quatro Picassos que o museu mantinha, enquanto "O Lavrador de Café" (1939), era um entre três de Portinari.

Coelho afirma que, apesar da tristeza, as obras eram tão valiosas quanto todas as outras do acervo. "Assim como os dois quadros levados, todos têm imenso valor na história da arte".

O curador ressalta que esses quadros não tem valor de mercado. "Tanto o quadro de Picasso quanto o de Portinari são tombados. Eles são invendáveis, simplesmente não dá para estimar um preço". Ele acrescenta que as obras são mundialmente conhecidas o que praticamente inviabiliza sua venda mesmo no exterior. Coelho não quis comentar a segurança do museu.

Ouvido pelo UOL, o professor João Candido Portinari, filho de Candido Portinari e diretor do projeto que leva o nome do pintor, disse que a previsão "mais razoável" é de que os quadros tenham sido seqüestrados. "É muito difícil quadros tão populares e conhecidos serem vendidos até mesmo no exterior", disse. "O mais provável é que o Masp receba um pedido de resgate."

Por conta do assalto, o museu não abrirá nos próximos dias. A assessoria de imprensa informou que o museu só reabrirá as portas depois da conclusão das investigações.

Valor inestimável

A assessoria de imprensa do museu afirma que as obras "O Lavrador de Café", de Portinari (de 100x81 centímetros) e "O Retrato de Suzanne Bloch", de Picasso (65x54 centímetros), não têm valores estimados, uma vez que nunca foram a leilão.

Felipe Chaimovich, curador do MAM (Museu de Arte Moderna), explica que o quadro de Picasso era representativo da fase pré-cubista do pintor e peça fundamental de passagem para o cubismo. Ele confirma que o valor da obra é inestimável.

Gilson Pedro, professor de história da arte, acredita que os assaltantes eram altamente especializados, já que há relação entre os quadros roubados. Segundo ele, Portinari bebeu na fonte do cubismo de Picasso e ambos eram conhecidos por suas obras politicamente engajadas.

Assim como Chaimovich, Pedro destaca a importância de "O Retrato de Suzanne Bloch" no histórico de Picasso e lembra que "O Lavrador de Café" é uma obra emblemática de Portinari por relacionar a arte à história e tradição brasileiras.

O professor acredita que as obras devem sair do país. "Para nós, que já temos poucas obras-primas, é um horror", lamenta.

Colaborou Felipe Gil, de São Paulo


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