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08/01/2008 - 09h30

Mesmo sem espaço em SP, bicicleta é mais rápida que carro na hora do 'rush'

Rodrigo Bertolotto

Em São Paulo
Na cidade com uma população de 5,6 milhões de carros, eles são "do contra" por opção, por necessidade ou, simplesmente, por falta de dinheiro mesmo. Mas os ciclistas não ficam para trás, afinal, cada vez os cidadãos motorizados desaceleram mais, com uma média de velocidade entre 19 km/h e 22 km/h nos horários de pico em São Paulo - e uma bicicleta, no plano, desenvolve 25 km/h, mesmo com um usuário longe do nível atlético.

Há várias facetas de usuários de bicicletas na cidade, desde o ciclo-ativista Domingos Gatti até o vendedor de salgadinho José Andrade, que achou na bicicleta um jeito de se deslocar e transportar sua mercadoria atrás de clientes em pontos de ônibus e portas de colégios.

"Os políticos só querem saber de roubar. Cada um faz o que quer da cidade e não pensa na população que não tem carro", reclama o ambulante sobre rodas. São Paulo tem 22,7 quilômetros de ciclovias, a maioria delas em parques e picotadas pela sucessão de administrações.

A MAGRELA E SEUS PERSONAGENS
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O "ciclo-ativista" Domingos e o "bike boy" Wender fazem entregas por toda São Paulo
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Gabriela faz supermercado de bicicleta, já seu colega de USP Marcelo viajou ao litoral
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José vende seus salgadinhos se deslocando com sua bici, que também serve de balcão
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Bruno diz que obedece leis de trânsito em seus treinos para competições de estrada
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O segurança Rafael faz diariamente 20 km para ir e voltar de sua casa ao trabalho
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O vigia Emerson percorre as tranquilas e arborizadas ruas da Lapa em suas rondas
No "Dia Mundial Sem Carro", em 22 de setembro, a prefeitura anunciou o projeto de criar mais 50 quilômetros, mas o que foi noticiado foi o protesto do grupo Bicicletada, que pintou no asfalto de avenidas faixas exclusivas para bicicletas e pendurou uma bicicleta branca, chamada de "ghost bike", para simbolizar a situação.

Gatti estava lá. Ele trabalha no "bikeboy", versão ecologicamente correta dos motoboys e é ativista de movimentos em prol do transporte sem motor. À noite, ainda faz parte dos passeios dos "night bikers". "Cada ciclista a mais é um carro a menos", sentencia o ciclo-ativista.

Ele trabalha na agência Bike Courier, uma das três que oferece entregas e serviços bancários, com o chamariz de ser mais barato, não-poluente e não tão demorado como se imagina.

Lá também trabalha Wender Nascimento, 26, ex-ajudante de metalúrgica, de confecção e de mecânica. Ele está há mais de dois anos na vida sobre rodas. Pedala em média 50 quilômetros por dia, incluindo a ida e a volta de sua casa na Vila das Mercês até a central da agência na Vila Mariana. Nos dias de pico, chega a percorrer 100 quilômetros.

"É cansativo e em dia de chuva é cruel. É capa de chuva e muito freio gasto. Na folga, pego carona com amigos para ir para qualquer lugar. Nada de bicicleta", confessa o entregador.

Para os bikeboys, pior que a poluição e as fechadas dos carros são os roubos quando acorrentam a bicicleta para fazer a entrega. "Muito porteiro de prédio não deixa colocar dentro. Isso é fatal no centro de São Paulo", afirma Wender.

Já os problemas mecânicos são resolvidos com um "kit remendo" e muita prática com o equipamento. E para ganhar tempo, atalhos proibidos para motoqueiros e motoristas são a solução. "Nós não furamos sinal, mas muitas voltas e retornos a gente poupa pegando um trecho de contramão ou subindo na calçada", diz o bikeboy.

Para o estudante Marcelo Bandoria, que atravessa com sua magrela da USP até São Bernardo e Diadema para visitar parentes e amigos, a bicicleta está no limbo. "Não tem ciclovia, não tem espaço, então, também não tem lei. Os ciclistas não precisam obedecer 100% as leis de trânsito", afirma.

Da mesma opinião é o segurança Rafael Martins, morador do bairro João 23, que faz uma dezena de quilômetros para ir a seu trabalho no Butantã e o mesmo para voltar. "Eu prefiro andar na contramão: pelo menos vejo os carros e ônibus vindo. Tem muito motorista que tem sangue nos olhos, adora tirar fina. Já tive que me jogar na caçada para não ser atropelado", conta Martins.

Para ele, a diversão de infância virou meio de transporte. "Não troco a bicicleta por andar de ônibus, ficar apertado e preso no trânsito. Eu fico em forma, disposto para trabalhar e dou canseira na molecada no futebol de final de semana", receita. Os colegas de firma fazem o mesmo vindos de lugares distantes com Carapicuíba e Barueri.

Sua maior aventura foi seguir a romaria até Pirapora do Bom Jesus, a 60 km de São Paulo, com direito a um pileque no centro religioso e uma volta traumática. "É muito ruim pedalar depois de beber. Você começa a suar, a bebedeira passa, mas fica um mal estar", diz.

O estudante Bandoria também tem sua história para contar: ele enfrentou 12 horas de estrada, policiais querendo tomar sua bicicleta e muita chuva para chegar a Praia Grande. Junto com dois amigos, desceu a Serra do Mar. "Vamos escrever um livro sobre a aventura e montar um projeto para fazer turismo ecológico pelas trilhas de lá", conta o estudante de Geociências da USP em cima de sua bicicleta de R$ 1.000.

Eles e os amigos buscam apoio dentro da USP para apresentar projeto para ciclovias em São Paulo. Projetos não faltam - organizações como a Bicicletada e Nossa São Paulo têm os seus também. Para Bandoria, a burocracia trava a relação. Ele dá o exemplo do direito de levar as bicicletas nos últimos vagões no trem e no metrô durante a tarde de sábado e o dia de domingo. "Outro domingo à noite, um funcionário do metrô me fez desmontar e embalar a bicicleta para entrar no vagão", conta.

O PROTESTO
Divulgação
Cartaz criado para divulgar a campanha "um carro a menos" nas ruas de São Paulo
Sua colega de classe, Gabriela Carvalho, entrou nesse estilo de vida faz pouco tempo. Moradora do Crusp, o alojamento dos estudantes dentro da Cidade Universitária, comprou um bicicleta por R$ 180 ("Nunca pechinchei tanto") e agora ficou mais fácil fazer compras no supermercado e na farmácia. Vivendo com uma bolsa de R$ 380, ela espera economizar R$ 100 para comprar um capacete e se lançar na idéia de ir até o bairro de São Mateus, na zona leste, para visitar a mãe.

Na mesma USP treina Bruno D´Elia, ciclista amador que participa do Campeonato Paulista de estrada. Em geral, ele vai de carro até lá levando sua bicicleta de R$ 4.000 na garupa. Só no fim de semana se aventura no trajeto entre sua casa em Santo Amaro até lá. E diz respeitar 100% as leis de trânsito: "Se você passa no farol vermelho, tem muito carro que quer se vingar e tirar fina quando ficar verde para ele."

Para seu uso específico, as ciclovias não ajudam. "Eles são muito travadas.. É para passeio. Preciso de um percurso em que possa ganhar velocidade", relata D`Elia, que enfrenta uma concorrência nas avenidas da Cidade Universitária. "Aqui aparece também muito prego. O cara tem barriga, compra uma bicicleta de R$ 15 mil e acha que vai sair voando como quem treina", critica.

Já Emerson Sousa tem uma relação quase idílica com a magrela. Vigia das ruas do Alto da Lapa, ele pedala nas ruas arborizadas e tranqüilas do bairro residencial de alta classe para controlar quem circula por lá. "É um serviço gostoso. A bicicleta ajuda a passar o tempo e, quando cansa, a gente vai para a guarita". Passam por lá também policiais militares de bicicleta que fazem ronda na área nobre e plana de São Paulo. Nada mais distante que a tensa convivência que bicicleta e os motorizados nas avenidas da cidade.

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