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22/01/2008 - 18h11
Escritores lusófonos querem abandonar estereótipos coloniais

Lisboa, 22 jan (Lusa) - A nova geração de escritores lusófonos, em que se incluem Paulo Bandeira Faria, Joaquim Arena e Luís Cardoso, afirma estar disposta a colocar de lado "mistificações", "mágoas" e "juízos" históricos que ainda existem no campo literário.

"A geração do [autor moçambicano Luís Carlos] Patraquim queimou tudo naquela fornalha da revolução [pós-independência] e não deixou nada para nós", disse o jovem escritor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena, um dos oradores convidados para o colóquio "Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais", na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

Autor de "A Verdade de Chindo Luz", considerado o único recente sobre a vivência das comunidades dos países africanos lusófonos em Portugal, Arena afirma estar mais interessado em rejeitar a existência de "uma consciência traumática" na relação entre colônia e metrópole.

"Em Cabo Verde, ainda há uma ligação profunda a Portugal, principalmente no interior. Tenho a certeza de que se tivesse havido um referendo sobre a independência, hoje Cabo Verde ainda seria Portugal, como Martinica é francesa", afirmou Arena.

Esta ligação, juntamente com a antiga e numerosa presença da comunidade cabo-verdiana em Portugal, seria uma das razões porque o primeiro livro recente sobre comunidades africanas seja assinado por um escritor com origens em Cabo Verde, e não em Angola ou Moçambique.

Sentimento

"Sou um filho dessa comunidade [cabo-verdiana em Lisboa], mas apesar de nascido em Cabo Verde toda a minha cultura é portuguesa, por isso senti que estava apto a escrever", disse Arena.

Para Joaquim Arena, "o Romance ainda pode ser a janela de entrada para as comunidades", onde há diferentes "filões literários" a explorar, como os jovens descendentes de africanos que "não se sentem portugueses nem cabo-verdianos" nos bairros sociais de periferia das grandes cidades.

Autor de "As Sete Estradinhas de Catete", Paulo Bandeira Faria disse que a África "não é mágoa" nem "exotismo ou saudosismo", mas apenas um conjunto de circunstâncias para alguém que passou parte da infância em Angola.

"Escrevi um livro sobre um triângulo amoroso, não sobre a África, e a única razão porque coloquei a ação na África foi porque me pareceu interessante fazer o paralelismo entre o ruir de uma família e o ruir de um império", afirmou o escritor.

Passado colonial

Margarida Paredes, pesquisadora do Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras, disse sentir dificuldades em trabalhar com o passado colonial, particularmente em relação à escravidão, algo que os três escritores afirmaram não compartilhar.

"Interessa-me abordar a temática que escolho sem fazer julgamentos de valores. Não olhar para trás, mas para a frente, denunciando preconceitos e coisas que me irritam, como o racismo", disse Bandeira Faria.

Segundo o escritor, "os africanos que querem ter uma opinião sobre a matéria devem erradicar a escravatura que ainda existe na África".

"A mim interessam-me mais questões da atualidade. Interessa-me mais perceber porque é que há escravatura na Costa do Marfim, por exemplo", afirmou Bandeira Faria.

Timor Leste

Para o escritor timorense Luís Cardoso, a questão da "culpa" é freqüentemente "uma forma de políticos que estão à frente dos seus respectivos países se descartarem das suas responsabilidades e das suas impotências".

"É fácil [no Timor Leste] dizer que a culpa é dos portugueses ou dos indonésios, atribuir as situações a um passado longínquo, em vez de as resolvermos", disse o autor de "Réquiem para o Navegador Solitário".

Cardoso revelou ainda que se sente incomodado com "as mistificações" existentes em Portugal sobre o "maravilhoso" do Timor Leste, que tornam "difícil" discutir as questões do país asiático.

"Não me sinto depositário do afeto que tenho pelo Timor. Toda a minha escrita é uma outra coisa. Tento fazer desmistificação de tudo isso", afirmou.

Tendência Literária

A professora universitária italiana Livia Apa, convidada para moderar o debate, citou o romance "Equador", de Miguel Sousa Tavares, como exemplo de uma "grande tentativa de reconciliação com a História e redenção pós-colonial com o passado".

A especialista disse que a obra é sintomática de um período em que no campo literário "se tenta criar uma idéia moderna de portugalidade", depois do "trauma" das independências.

Esta tendência literária, afirmou Lívia Apa, é "importante para a reflexão do Portugal contemporâneo", que, segundo afirmava o filósofo Eduardo Lourenço, perdeu com a descolonização "o âmago do seu âmago".


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