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01/02/2008 - 08h10

Busólogo acha "similares" em fotoblogs e deixa de se achar excêntrico

Rodrigo Bertolotto
Em São Paulo
Gostar de carros é perfeitamente aceito e até incentivado. Mas ser apaixonado por ônibus? Isso só pode ser visto como desvio de conduta ou personalidade, afinal, ser bem-sucedido é andar de carro, avião ou helicóptero. Os auto-intitulados "busólogos" (o nome não ajuda) serem vistos como malucos revela a lógica individualista da sociedade.

Os próprios adeptos se imaginavam tão excêntricos que escondiam dos outros o gosto por ficar horas na rodoviária, levar máquina fotográfica para o ponto e memorizar itinerários de ônibus que nunca pegaram.

MANUAL DE BUSOLOGIA
Apu Gomes/Folha Imagem
Enquanto os carros têm revistas e jornais...
Rogério Cassimiro/Folha Imagem
...ônibus só entra no noticiário quando é...
Crédito
...incendiado, se acidenta ou depredado...
Arquivo Folha
...mas os busólogos veneram modelos do...
Luiz Carlos Muraskas/Folha Imagem
...passado como o "dose dupla" de Jânio
FOTOBLOG MINEIRO 1
FOTOBLOG MINEIRO 2
FOTOBLOG PAULISTA
BUSÓLOGOS MEXICANOS
GOSTAR DE ÔNIBUS É EXCÊNTRICO?
Só com o advento da internet, na década passada, eles souberam que não estavam sozinhos no mundo. "Só pouco tempo atrás descobri na net pessoas tão fascinadas como eu", conta Vitor Dias, que tem mais de 2.000 miniaturas de coletivos. "É muito bom saber que existem busólogos como eu, pois tem gente que acredita que nós somos loucos", confessa Leo Rodrigo.

Os fotoblogs (confira alguns links no quadro ao lado) são o principal meio para eles se encontrarem e exibirem seus prêmios: imagens de veículos antigos e raros ou modernos e estilosos. Os freqüentadores capricham nos comentários. E até surgem polêmicas sobre os modelos, com defensores e detratores.

"Acho a frente da Comil sem harmonia...o design é desconjuntado...tenho pena dos tripulantes e também dos passageiros", escreveu Enéas, de Belo Horizonte. A resposta veio de Genelci, de Barra do Garça (MT): "Essa carroceria é show... colocou a Marcopolo no chinelo, é lindo de doer." Mas as críticas eram maioria, até com referências internacionais. "Não gostei do design deste ônibus, parece uma tentativa (fracassada, a meu ver) de copiar o futurista Neoplan Starline europeu", cravou Luiz Eduardo, de Recife.

O cálculo é que existam cerca de 3.000 adeptos da busologia no país, para um total de 40 mil pelo planeta. Além de fotos, eles colecionam pôsters, miniaturas e adesivos da lataria. Ficam conhecidos dos empresários de tanto que visitam garagens de viação e fábricas, a ponto de participarem da festa de final de ano dessas firmas.

Memorizam detalhes de pintura, carroceria, chassis, motor, freio, retrovisor, banheiro e escada dos modelos. E fazem congressos para reunir experiências, como o encontro nacional que aconteceu em maio de 2007, em Belo Horizonte, com direito a um participante argentino - a Argentina se proclama como a inventora do ônibus em 1928, mas França e Alemanha lutam pela paternidade bem antes, no século 19.

Nos fotoblogs, eles também denunciam veículos abandonados em terrenos baldios e vão atrás de ônibus antigos que viraram guincho ou carro de manutenção das viações. Alguns são mais especializados em ônibus urbanos, outros em rodoviários.

Nesse clubinho, as mulheres são minoria. Então não é de estranhar quando a comunicação entre eles tem frases como "Amélia que deixa saudoso", "Vitória é bem legal" ou "Gabriela tinha um formato bonito". Esses são modelos de ônibus, não garotas busólogas que caíram nas graças dos colegas. E, se eles usam a expressão "saia-e-blusa", não para comentar a roupa delas: assim é chamada a pintura da carroceria em duas cores horizontais.

A maioria desse grupo é formada por homens entre 15 e 45 anos que, em algum momento da infância ou adolescência, se viram fascinados pelos coletivos. Há até uma revista especializada para os aficionados, a In Bus Transport, que cataloga 82 indústrias de ônibus no país (o Brasil só fica atrás da China na produção) e 9.200 empresas operando linhas.

Os busólogos também colecionam curiosidades, como o maior trajeto internacional de ônibus (da argentina Bariloche à venezuelana Caracas) e a adaptação paulistana dos ônibus londrino de dois andares. O resultado foi que o "double deck" virou por até o "dose dupla", em brincadeira com o prefeito de São Paulo à época, Jânio Quadros.

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