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29/04/2008 - 08h00

Soja avançou 20% na região Norte e aumentou concentração de terras no Brasil, aponta relatório

Ana Sachs
Em São Paulo
A lavoura de soja está avançando sobre a Amazônia e aumentando a concentração de terras no Brasil. A área plantada de soja aumentou em 20% na região Norte, onde está a maior parte da floresta, entre as safras 2006/2007 e a atual. Recente estudo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) cruzou os dados dos dois últimos censos agroepuários e constatou que número de propriedades rurais dedicadas ao grão caiu 42% em dez anos, de 420.204 para 242.998, enquanto a expansão do plantio da soja cresceu 1,1% ao ano nesse período.

Os dados constam do levantamento "O Brasil dos Agrocombustíveis: Impactos das Lavouras sobre a Terra, o Meio e a Sociedade - Soja e Mamona", feito pela ONG Repórter Brasil com base em pesquisas, entrevistas e viagens por 19 mil quilômetros de estradas nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pará, Ceará, Bahia, Piauí e Maranhão, além do Paraguai.

O estudo avalia o impacto e as conseqüências da inclusão do biodiesel na demanda por esses produtos. "Se não forem tomadas medidas preventivas e corretivas desde já, teremos problemas no futuro", alertou Leonardo Sakamoto, coordenador-geral da Repórter Brasil.

SOJA AVANÇA SOBRE A AMAZÔNIA
EFE
Milton Racho, presidente da 17ª Fenasoja (Feira Nacional de Soja), que começou neste sábado em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, discorda de alguns pontos do relatório da ONG Repórter Brasil. Racho, que é engenheiro agrônomo e produtor de soja, milho e trigo, disse que acha "um pouco exagerado" atribuir o desmatamento da Amazônia, ainda que indireto, à soja.

"Um pouco de pressão existe, mas não podemos atribuí-la somente à soja. Os desmatamentos aconteceram em períodos de baixa dos preços do grão. Existe uma busca geral por novas fronteiras agrícolas. Hoje, a carne está valorizada, a pecuária faz pressão de crescimento, não necessariamente empurrada pela soja", apontou o engenheiro agrônomo.
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O avanço sobre a Amazônia vem na esteira das áreas desmatadas para a pecuária, segundo o relatório. "Dessa maneira, desempenha o papel de consolidar áreas previamente desmatadas, muitas vezes ilegalmente", aponta o estudo. "A soja desmata de forma indireta. Ela compra uma área que pertencia a um pasto e 'empurra' a pecuária em direção à Amazônia", explica ainda Sakamoto.

Mas esse é apenas uma parte do impacto ambiental dessa lavoura, de acordo com a Repórter Brasil. Na região do cerrado, a expansão da produção atinge áreas consideradas de grande biodiversidade. No Estado do Mato Grosso, que concentra parte desse bioma e é um dos maiores produtores de soja do país, houve um aumento de 4,9% no cultivo do soja entre as safras deste ano e a de 2007.

Na fronteira dos Estados de Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí, zona que se configura como uma das de maior crescimento do plantio nos últimos anos, a lavoura coincide com 14 novas áreas prioritárias para a biodiversidade, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente apontados no estudo.

O cultivo de soja tem desrespeitado ainda, segundo o relatório, áreas de preservação ambiental, como acontece na região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, onde há 147.400 hectares e 128 mil hectares de soja plantados, respectivamente.

Impacto social
As lavouras de soja podem, ainda, agravar alguns impactos sociais e trabalhistas detectados pela Repórter Brasil, como a compra e venda de assentamentos, e a grilagem de terras. Segundo a organização, a expansão da soja pode estar por trás de pelo menos quatro dos 16 conflitos agrários registrados pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Mato Grosso em 2007, de ao menos 18 dos 38 conflitos no Paraná, e de pelo menos dois dos 105 conflitos apurados no Pará.

De acordo com o estudo, a lavoura de soja também avança sobre áreas indígenas e remanescentes de quilombolas. Um exemplo apontado pelo levantamento é a Terra Indígena Marãiwatséde dos Xavante, em Alto Boa Vista, no Mato Grosso, homologada em 1998. Somente em Querência, o principal município plantador de soja na região, a ONG calcula que existam mais de 150 mil hectares da cultura.

Apesar do aumento do número de postos com carteira assinada abertos no cultivo do grão em todo o Brasil, que passou de 5.405, em 1995, para 70.457, em 2006, a produção da oleaginosa fica aquém de outras culturas quando se trata da geração direta de emprego.

De acordo com estudo da Embrapa citado pela Repórter Brasil, o cultivo de soja gera de um a quatro empregos diretos a cada 200 hectares, enquanto o cultivo de tomate rende 245 vagas e o de uva 113 postos. Uma das causas, segundo o relatório, é a crescente mecanização e automação dos cultivos no Brasil.

Segundo a Repórter Brasil, a produção de soja está na terceira colocação entre as atividades que mais recorrem ao trabalho escravo e, a alta produtividade da lavouras brasileiras, que chega a 60 sacas por hectare em algumas regiões do país e é uma das maiores do mundo, seria conquistada graças à utilização em larga escala de agrotóxicos.

Na cidade de Sorriso, no Mato Grosso, a maior produtora de soja do Brasil, com 615 mil hectares plantados na safra 2007/2008 e produtividade de 57 sacas por hectare em algumas fazendas, a Empaer (Empresa Mato-Grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural), estima a aplicação de pelo menos cinco quilos de produtos químicos por hectare, do plantio à colheita. "Isso significa que os solos do município receberam pelo menos três toneladas de produtos químicos apenas na atual safra", diz o documento.

Para Leonardo Sakamoto, coordenador-geral da Repórter Brasil, a diminuição desses impactos passa, necessariamente, pela reforma agrária, incentivos à agricultura orgânica e maior controle e fiscalização por parte do governo. "É botar o Estado na rua, verificar a situação de impacto, e nos casos em que forem comprovados problemas, ser implacável", disse.

Arte UOL


Biocombustíveis
O levantamento também revelou que Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, criado em 2004, não está cumprindo seu principal objetivo, que é o de promover a agricultura familiar por meio da produção de soja para os biocombustíveis.

O relatório mostra estimativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário para a área plantada de oleaginosas no início de 2008, apenas 15% do biodisel produzido no país virá de matérias-primas fornecidas por pequenos agricultores. Das 51 empresas produtoras de biodiesel no país, 28 possuem o Selo Combustível Social, fornecido aos que promovem a inclusão social no campo.

O estudo também avaliou que o cultivo da mamona, eleita pelo governo federal um dos carros-chefe do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, não decolou. Há apenas 158,2 mil hectares estimados para a safra 2007/2008, o que representa menos de 1% da agricultura do país e apenas 1,7% de aumento com relação à safra 2006/2007.

As plantações de soja correpondem hoje a 45% da área cultivada no país na safra 2007/2008, com 21 milhões de hectares plantados. Essa produção deve aumentar nos próximos anos, puxada pela demanda por farelo de soja no mercado mundial para utilização como ração de animais e pela queda na produção dos Estados Unidos, até então o maior exportador do produto, que se volta para a produção de milho para a indústria do etanol.

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